Rael – Coisas Do Meu Imaginário (2016)

Disco representa bem as inovações do rap nacional 

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em rap nacional moderno, que eu chamaria de alternativo – justamente por alternar estilos e ideias –, dois grandes nomes me vem à mente de imediato: Emicida e Criolo. Ambos rappers inteligentes, que vão além do estilo, buscando intersecções com diversas nuances diferentes e falando uma linguagem moderna e criativa da nova MPB.

Além desses dois, temos também o paulistano Rael, que pensa o rap dessa forma diferente, expansiva e sem limites. Gravou o seu primeiro disco solo em 2010, o ótimo MP3 – Música Popular do 3° Mundo. Desde então, o músico vem fazendo ótimos trabalhos mantendo o alto nível da estreia e explorando ideias de jazz, pop, reggae, MPB e o próprio hip-hop.

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Com um jeito orgânico, que permite que ele se aventure por estilos tipicamente brasileiros, enquanto conversa com o hip-hop americano, Rael entrega sua mais nova obra-prima: Coisas do Meu Imaginário, com produção de Daniel Ganjaman – um dos grandes nomes do rap nacional, ainda que na parte da produção, tendo em seu currículo trabalhos com Sabotage e Criolo – e participação de nomes como Chico César e Black Alien, entre outros.

Ganjaman sabe como ninguém trabalhar diversos estilos em um álbum. Fez isso com o Criolo, por exemplo, no seu Nó na Orelha e é um dos principais responsáveis por essa multiplicidade ser tão bem feita no novo disco de Rael. A experiência do paulistano também conta: desde 2010, ele vem desenvolvendo e aperfeiçoando sua sonoridade, aprendendo com os próprios erros e acertos.

A tranquilidade com que abre o álbum em “Do Jeito” sugere algo bem melodioso, cool e cristalino. Rael sabe colocar seu rap no meio de bases não convencionais do ponto de vista do hip-hop em sua essência, e as faz funcionar perfeitamente. Em “Rouxinol”, o MPB encontra o reggae e o rap. É um dos pontos altos. “Descomunal” é pop gostoso de ouvir, enquanto somos envolvidos na atmosfera despretensiosa conduzida por uma guitarra limpa e tocada com leveza, enquanto somos apresentados à capacidade de Rael de transitar entre o rap e o canto com muita competência. Em “Aurora Boreal”, Rael explora uma veia jazzística, limpa e simples. “Estrada” tem mais de rap e uma base mais simples e convencional. Mas não abre mão do refrão melódico.

“Livro de Faces” traz uma crítica contundente à virtualização das relações humanas. Em sua história, o paulistano conta que uma mulher pela qual se apaixonou acabou se provando incapaz de manter o relacionamento com ele por demonstrar mais amor no ambiente virtual que no “cara a cara”. Rael explora isso com linguagem clara, irônica, e com uma das frases mais fantásticas que já li em uma letra de rap nacional: “Seu coração tem dono e ela não esquece/ pior que não é um homem, é um iPhone 6s”. A crítica é relevante, bem articulada e seus argumentos são expostos de maneira bem convincente. Para a moldura musical da faixa, o rapper opta pelo reggae-rap, que já é comum em seu som. Esta é, sem dúvidas, a melhor faixa do álbum.

Rael segue fazendo o seu nome na cena eclética do rap nacional com ótimos trabalhos. Coisas do Meu Imaginário é um dos melhores lançamentos da música brasileira em 2016 e representa as inovações dessa cena do rap moderno e o melhor que o estilo tem a oferecer.

O ecletismo da forma como é abordada faz esse conjunto de estilos parecer um só. A ideia de expandir o hip-hop pode parecer ruim para os fãs mais ortodoxos, mas é algo que contribui para a qualidade do estilo. A forma como Rael e Ganjaman arrumam tudo e passeiam entre as referências é incrível. Isso revela o mérito dessa cena moderna do rap brasileiro, em que os artistas mantém a essência crítica e urbana do estilo e, ao mesmo tempo, louvam a música brasileira e sua pluralidade.

Um disco imperdível dentro de uma cena musical imperdível.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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