Donny McCaslin – Beyond Now (2016)

Banda que gravou Blackstar de David Bowie mostra que o futuro do jazz já chegou e é impressionante

Por Lucas Scaliza

Do início ao fim, Beyond Now é, como seu nome já suscita, assim como o nome de seu grande autor, o saxofonista Donny McCaslin, um disco comprometido com o futuro. Para ser mais exato, o álbum mostra como o jazz não está, de forma alguma, preso às velhas convenções do gênero e tem um imenso campo a desbravar. Seja nos timbres, seja em como conduzir as canções e em como misturar técnicas do jazz tradicional ao fusion, em como dar uma roupagem que o faça parecer a música de outra dimensão. O que Donny McCaslin faz é o jazz do futuro.

Sobre verve, sobra técnica e sobra coragem na hora de se expressar. A porta de entrada do trabalho, “Shake Loose”, é um teste para o ouvinte. Leva 4 minutos para que a música se resolva em uma passagem harmônica mais aberta, com fraseados menos intrincados. E mesmo depois de se resolver, volta a soar estranha, tirando o protagonismo do sax e colocando um teclado/sintetizador no holofote.

donny_mccaslin_2016

Donny McCaslin já era um excelente exemplo de músico de jazz que pensava fora da caixinha e estava comprometido com o futuro do gênero, mas foi ao integrar a banda de David Bowie que gravou o excelente e inovador Blackstar que seu nome ganhou o destaque merecido. E seu álbum solo não deixa a desejar. Afinal, o trabalho foi em grande parte influenciado pela experiência de ter gravado o último disco do camaleão do rock e toda a banda de apoio é composta pelos mesmos músicos de Blackstar: o excelente Tim Lefebvre no baixo (não há como não reparar nele em TODAS as faixas), Jason Lindner nos teclados e Mark Guiliana na bateria (versátil como nunca). Mas o grupo não se conheceu sob a batuta de Bowie. Eles já jogavam basquete juntos antes de fazer música e, antes de Blackstar, já tinham gravado o Fast Future (2015) de McCaslin e o Earth Analog (2013) de Lindner.

O saxofonista é um compositor de mão cheia e se arrisca como poucos.  Ele apresenta cinco composições originais, e covers de Bowie, deadmau5, The Chainsmokers e Mutemath. Ele coloca a técnica a serviço da experimentação e abraça a fusão de estilos, sem deixar a música parecer hermética. Veja bem: é jazz, daquele tipo desafiante, mas não é apenas uma demonstração de virtuosismo. Dá para curtir também como qualquer outra música, mesmo que você não reconheça as versões que ele propõe de outros artistas.

“A Small Port Of Land” (cover do álbum Outside, lançado por Bowie em 1995) coloca batidas menos profundas que soam como programação eletrônica e um sintetizador que faz a faixa parecer atmosférica e próxima da trilha sonora. Se tiver alguma familiaridade com a discografia de David Bowie, reconhecerá o cover, mesmo que nunca tenha ouvido a faixa original (dá para imaginar o inglês cantando facilmente). Já “Warszawa”, um dos clássicos da fase Berlim de Bowie (do disco Low, de 1977), ganhou uma versão que tenta tanto respeitar a original – que foi muito influente no rock e no desenvolvimento da música eletrônica – quanto ser mesmo uma recriação. Dá para imaginar o esforço de Guiliana na bateria para emular a aridez da base original.

“Beyond Now” é uma das faixas instrumentais mais emocionantes que você ouvirá em 2016. Uma demonstração da capacidade de improvisação de McCaslin e como a dupla Lefebvre e Guiliana são exímios na arte de segurar a tensão e elevar a dinâmica da faixa. Enquanto isso, Lindner cria uma tempestade de efeitos no teclado para acompanhá-los.

“Coelacanth 1”, como o nome denuncia, é o cover de deadmau5. Soa como se a banda fosse um drone ou um óvni sobrevoando um deserto. Embora a técnica seja importante, é uma faixa que deve mais à sensibilidade de seus músicos. Lindner domina a faixa inteira, ajudando o jazz do grupo a soar futurista e árido, mas carregado de sentimento. Com quase 9 minutos, “Bright Abyss” é uma das músicas mais sentimentais do álbum. McCaslin consegue ser técnico sem soar pesado e o baixo de Lefebvre faz toda a diferença ao propor uma linha mais moderna e com timbre elétrico, afastando aquele feel acústico mais característico do jazz tradicional.

“Faceplant”, praticamente uma música de rock convertida em um jazz de vanguarda, é impetuosa, intensa e atrevida. São 4 minutos de desassossego para quem não está acostumado com o jazz mais exigente. “Glory” é totalmente progressiva e doce na medida certa, alternando partes mais reflexivas (com o piano de Lindner como protagonista) e partes mais cheias de ação (quando o sax ganha proeminência). Mas no geral, é uma faixa feita para ser agradável, com poucas esquisitices. Embora pareça melancólica, seu final é positivo, seguindo a tendência de subir a dinâmica para alcançar momentos mais efusivos. “Remain”, originalmente uma música da banda de rock alternativo Mutemath, é a despedida do álbum. Com um clima meio anos 80, que lembra o Police e a new wave, McCaslin opta por repetir a melodia vocal em seu sax, sem muitas invencionices. Faz falta o senso de improvisação, mas também mostra que a banda sabe se segurar para preservar uma boa melodia. É a música mais simples de Beyond Now, posicionada no fim do trabalho para fechá-lo de maneira mais gentil para o ouvinte.

Embora seja um projeto idealizado e planejado por Donny McCaslin, é evidente que cada membro da banda foi crucial para sua realização e para soar como um jazz avançado, que foge ao tradicional como o diabo da cruz e que continua provando como a inspiração eletrônica faz o gênero ganhar um novo horizonte, tão interessante e intenso como qualquer outra experiência feita anteriormente. Entre tantas fases de Bowie, não é por acaso que escolheram fazer uma versão de seu disco eletrônico mais sentimental e moderno (Outside) e outra de sua vibe mais árida e experimental (de Low).

Bowie, se estivesse vivo, elogiaria Beyond Now, não por causa da recriação de suas músicas (Bowie devia estar cansado de ver suas músicas recriadas), mas por ver todo o resto olhando para o futuro, propondo algo novo e testando os limites do público sem nunca perder o bom gosto e o senso crítico. McCaslin e sua banda, acima de tudo, continuam se desafiando e não ficam no esteio de Blackstar. Beyond Now é um passo à frente que não seria possível debaixo da batuta de Bowie.

donny_mccaslin_2

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.