Opeth – Sorceress (2016)

Mais stoner, mais diversificado e mais setentista, Opeth entrega outro excelente disco

Por Lucas Scaliza

Pode espernear, pode chorar, pode dizer que a banda traiu o movimento. Só não pode dizer que o Opeth se rendeu a algo mais simples, mais comercial ou de menor qualidade de composição. Sorceress não só amplia significativamente o espectro musical praticado pela banda como nunca antes, como também é um disco mais pesado que Pale Communion e que corre muitos mais riscos do que somente deixar de lado o death metal e os grunhidos vocais.

Mas não há como desconectar um elemento do outro. Encarar o lado mais pesado dessa nova fase do Opeth implica encarar também sua abertura sonora para influências tão díspares quanto Black Sabbath e Abba ou tão interessantes quanto Jethro Tull e música árabe, rock inglês e violão clássico, tudo com uma pegada ao mesmo tempo vintage, com timbres bem setentistas, e um poder de fogo e de melancolia que não esconde as características mais marcantes do Opeth de sempre.

Mais uma vez temos Mikael Akerfeldt no comando total do trabalho. Ele compôs todas as músicas e todas as letras. Antes mesmo de se reunir com a banda, gravou faixas demos com uma qualidade absurda que já deixava bem claro para a banda como ele queria que cada canção fosse interpretada, como seriam os vocais, os temas, onde entrariam os solos, como o teclado se comportaria, etc. Por isso, dentro do Rockfield Studio, no País de Gales, a banda demorou apenas 12 dias para gravar Sorceress, e todos puderam gravar suas partes usando as demos de Akerfeldt como guias, apenas adicionando os timbres finais e o toque pessoal de cada um.

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Segue um faixa a faixa para analisarmos o que há de legal e de notável em cada canção do álbum.

Persephone – Uma introdução com o violão erudito de Mikael Akerfeldt.

Sorceress – Meio Black Sabbath, cheia de groove, meio blues, teclados quentes e vintage. Um som meio abafado, timbres setentista, mas um peso moderno nas guitarras. É uma ótima música, com ótima pegada e que já deixa claro que o Opeth pode ser pesado mesmo quando busca algo diferente do death metal. A bateria é trovejante e o ritmo é empolgante. Nunca antes o quinteto sueco havia soado tão stoner quanto agora.

The Wilde Flowers – Um trabalho de guitarras típico do Opeth, colocando um tempero étnico nos riffs após os versos. Como contraponto a sua parte mais arrastada, tem também uma seção mais melódica e fecha com uma parte instrumental bastante intensa de fusion em que a banda toda manda um prog metal de respeito com um belo trabalho de guitarras. Nesta faixa e em todas as outras você nota como a bateria de Martin “Axe” Axenrot e o baixo de Martín Méndez estão em comunhão e soando bem diferente do que soaram em discos anteriores. Isso ocorre porque ambos foram gravados ao vivo, tocando juntos no estúdio.

Will O The Wisp – A balada do disco fica ainda melhor dentro do contexto do que ouvida fora da obra. Um tom mais alto, cordas mais vibrantes e vocais dobrados no refrão. O teclado faz a linha melódica triste, que contrasta com o brilho do instrumental. A letra também não é das mais felizes e representa o tipo de letra que Akerfeldt tenta fazer para representar sentimentos.

Chrysalis – O primeiro acorde é totalmente sabático. É uma faixa forte, intensa, poderosa, potente, quase como um death metal do Opeth de Ghost Reveries ou Watershed, mas sem os vocais guturais e com timbres mais setentistas nos instrumentos, inclusive com um teclado superquente. Melhor música do disco? Possivelmente. Perfeita para tocar ao vivo e incendiar a plateia. Só dá sossego no final, e ainda apresentando melodias e solos interessantes. A gravação ao vivo da bateria e do baixo realmente deram um sabor especial ao álbum.

Sorceress 2 – Mikael AKerfeldt cantando de uma forma bem diferente, com falsetto, muito mais suave e sussurrado, que o coloca no extremo oposto do gutural, parecendo até mais etéreo, como uma faixa de música eletrônica ou pop indie europeu. Novamente temos os dedilhados e o teclado de Joakim Svalberg fazendo um ótimo trabalho para colocar a faixa no contexto sonoro e sentimental de Sorceress.

The Seventh Sojourn – Percussão e trabalho de cordas muito interessante, levando o misticismo do disco para o oriente médio. Com a chegada do baixo, o som vai ficando mais ameaçador, sem abrir mão da melodia e do ritmo. É o Opeth abraçando a música etnográfica como nunca antes. Isso prova que o metaleiro precisa não só entender a mudança que o Opeth quis fazer em sua carreira, mas também manter a mente aberta para novos tipos de som dentro do álbum. Estamos a anos luz de Deliverance (2002), disco inteirinho pesadão e gutural. Se perdemos em teor heavy metal, ganhamos com a escalada musical da banda, no entanto. No final de “The Seventh Sojourn”, Mikael faz harmonização vocal, trazendo o brilho místico da temática do disco, bem diferente de todas as outras faixas, de tudo o que já fizeram antes.

A Strange Brew – A melancolia dita a faixa. E o pianista e tecladista Svalberg vai comprovando que Sorceress deve muito à sua habilidade e sensibilidade. Há também as guitarras pesadas de Fredrik Akesson e a bateria incrível de Axenrot fazendo um progressivo encorpado, agressivo e cheio de groove. O final é feito de partes mais lentas carregadas de sentimentos para encerrar “A Strange Brew” de forma marcante, arrastada e assombrada.

A Fleeting Glance – Mais uma vez, Mikael Akerfeldt surpreende com uma valsinha que começa com um tipo de falsetto que traz a faixa para o reino da psicodelia. Se em Pale Communion a banda ainda trabalhava com os mesmos referenciais, dessa vez eles se expandiram bastante. Já prevejo fãs reclamando e outros adorando a permissão artística que se deram de sair da casinha. E ao mesmo tempo, os riffs pesados estão lá, com síncopes de bateria e tudo que faz do Opeth uma banda de rock progressivo.

Era – Essa é para fechar lindamente. Após uma introdução com piano, sobem os acordes do teclado e os riffs explodem em mais uma faixa potente, acelerada e cheia de energia. Até o solo tem um estilo mais Iron Maiden anos 2000.

Persephone (Slight Return) – E sobra pra Svalberg fechar o trabalho com o piano, repetindo o tema da feiticeira lá da primeira faixa, antes executada no violão. Piano, teclado, Fender Rhodes, órgão, minimoog e hapiscórdio são os instrumentos que Svalberg nos apresentou no álbum, fazendo deste o trabalho em que mais teve a chance de comprovar o seu protagonismo no grupo.

Sorceress é a experiência mais setentista, mais stoner e mais diversificada musicalmente em que o quinteto sueco já apostou. Embora não tenha como agradar a todos – principalmente aqueles que não se importam com a música, somente com o peso –, temos mais um excelente disco de metal (e derivados) em um ano que foi ótimo para o estilo. Mais do que isso, Akerfeldt continua firme em seu propósito de não se repetir e entregar algo que não passa longe do rock que sempre fez, da tristeza e escuridão que sempre estiveram no íntimo de cada composição e do compromisso com a excelência. Além disso, Sorceress ao vivo deverá não apenas soar tão bem quanto no disco como abre oportunidades de performances memoráveis no palco de cada um dos integrantes. O que mais um fã de Música e metal pode querer?

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    antunes ribeiro Sales

    (1 de fevereiro de 2017 - 18:39)

    Excelente análise!! Completa, explica as caractéristicas presentes no trabalho e não se perde em opiniões pessoais na base do “achismo”. Parabéns! Um trabalho tão complexo e bem elaborado como o Sorceress merece realmente esta excelente resenha.

    Rodrigo Luis Moschetta

    (20 de agosto de 2018 - 15:15)

    Conheci o site procurando por review desse disco!

    Animal, já esta salvo nos favoritos para ver sempre. Continue com esse bom trabalho!

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