M.I.A. – AIM (2016)

Mais divertida e menos política

Por Lucas Scaliza

Sempre que M.I.A. aparece em uma notícia ou em uma playlist, nunca é propriamente em sua música em que penso primeiro. É sempre o lado político dessa artista londrina, de ascendência indiana, que me chama a atenção. E pesa a seu favor ter conseguido aliar seu ativismo com o mainstream do pop e do hip hop. Quando chega a hora de falar de sua música, é quase impossível deixar de lado a ética que parece nortear a estética. E, julgando apenas AIM, se tirarmos a ética de jogo, sua estética fica consideravelmente empobrecida.

AIM é seu quinto álbum de estúdio e também pode ser seu último, por decisão dela. Embora seja seu disco politicamente mais leve, não deixa de tocar em assuntos atuais como a questão das fronteiras e dos refugiados. Seu som continua sendo uma mistura do pop, da música eletrônica e do hip hop, incluindo aí também as batidas de Miami que aproximam demais o som de M.I.A. do funk carioca, com todo o tempero da música indiana.

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“Borders” não é apenas uma ótima abertura de álbum, mas também um excelente lembrete de que por mais que a música tenha batidas dançantes e refrão bem pegajoso, a mensagem de M.I.A. não pode ser ignorada. “Freedun”, “Survivor” e “The New International Sound” são o lado mais pop dela; “Foreign Friend” e “Finally” são R&Bs influenciados pelo hip hop; “A.M.P”, “Fly Pirate” e “Go Off” são mais hip hop. Várias outras mostram a influência da música oriental (“Bird Song”, “Ali R U OK?”, “Visa”), mas, na real, o disco todo é uma grande fronteira entre ocidente e oriente, entre o pop de pretensão global e a world music regional indiana, entre uma pegada pesada de hip hop e batidas eletrônicas e uma sensualidade do R&B.

Mas não há grande novidade em nada disso. Há realmente boas músicas em AIM, mas é tão longo (17 faixas) e diverso que acaba repetindo estilos emprestados de lá e de cá sem de fato propor um álbum que tenha um estilo próprio. Some a isso a diminuição da carga política e do tom de denúncia de AIM e teremos um disco que talvez tenha mais sucesso comercial do que Matangi (2013), mas muito menos impacto que Kala (2007) e Maya (2010). É por isso que se não tivesse todo o ativismo atribulado ao álbum (a parte ética), sua música (o lado estético) poderia ser ainda mais esvaziada de novidade ou, melhor dizendo, de relevância em pleno 2016.

Resumindo: faltou arriscar mais.

Maya Arulpragasam contou com a colaboração de Skrillex, Diplo e Blaqstarr em suas batidas e ondas sonoras. Embora façam um bom trabalho, parecem operar no piloto automático. Ela foi uma das primeiras artistas egressas da moda que levantou novas questões na música – como a dos imigrantes, ainda bastante presente no novo álbum –, mas uma série de eventos que ganharam vulto ao longo de 2016 – como o Brexit, o fenômeno Donald Trump e toda a crise dos imigrantes que atinge com força tanto o Oriente Médio quanto a Europa – fazem AIM parecer mais despreocupado do que poderia ser. Bom, talvez seja uma fase – ou necessidade – de M.I.A. em pisar no freio, não ser tão agressiva (e nem tão pretensiosa) e se permitir se divertir e divertir o público.

Por um lado, AIM é isso mesmo: um disco divertido, bom para dar o play e curtir, esteja você ligando ou não para os problemas do mundo. Por outro lado, acaba sendo um trabalho mais genérico de M.I.A., com ótimos momentos, mas que não parece atingir nenhum objetivo claro, seja ético ou estético.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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