Jeff Beck – Loud Hailer (2016)

Jeff Beck alcança um resultado ainda instigante mesmo para quem já o acompanha há muito tempo

Por Gabriel Sacramento

Jeff Beck sempre foi um guitarrista muito virtuoso que chama a atenção de todos que o veem tocar. Foi um dos grandes nomes do instrumento que surgiu nos anos 60 na Inglaterra, junto com outros como Jimmy Page e Eric Clapton. Hoje, depois de tantos anos, o experiente guitarrista continua demonstrando as mesmas habilidades que o consagraram como um grande mestre das seis cordas.

Mas uma das características da carreira solo de Jeff Beck – que começou com o ótimo Truth (1968) – é que o músico não concentra todo o foco em sua guitarra. Por exemplo, a obra-prima Blow By Blow (1975), que mostra Beck tocando o melhor do seu jazz fusion, dá protqgonismo aos temas que cria e dá espaço para todos os instrumentos, não fica ressaltando a guitarra o tempo todo. Diferente de muitos guitarristas que vemos por aí, Beck prioriza a construção dos temas e pensando em cada elemento de sua banda.

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Em seu novo trabalho, Loud Hailer, não é diferente. Para tal, o veterano guitarrista chamou Rosie Bones e Carmen Vandenberg do grupo inglês Bones. A lista de músicos envolvidos é menor do que a dos que tocaram no seu último disco, Emotion and Commotion (2010). Mas isso não é um demérito, pelo contrário, porque faz o álbum seguir uma regularidade sonora bem melhor definida.

Como eu disse antes, o foco não se encontra somente na guitarra de Beck. Ele divide os holofotes com os vocais. Temos músicas politizadas como “The Revolution Will Be Televised” – que traz a ideia já em seu título – e a densa “Shrine”. Temos singles grudentos como “Live In The Dark” e “Right Now”. Além dos versos melódicos, “Live In The Dark” tem fills de guitarra que mostram o quão bom Jeff Beck ainda é. Já a segunda é um blues rock distorcido que faz os fãs do Jeff Beck Group sentirem-se nostálgicos. Também encontramos canções mais calmas como a soulful “Shame” e “Scared For The Children”. Beck também nos presenteia com canções que remetem à fase Blow By Blow como “O.I.L (Can’t Get Enough of That Sticky)”, flertando com o fusion.

Jeff Beck está em uma ótima fase. Discos bons, criativamente inspirado e ousando mais para entregar coisas diferentes. Segundo ele, Loud Hailer seria um “statement album” (algo como álbum de declaração, em tradução livre). Ou seja, ele pretende passar uma mensagem com as letras, com o instrumental e com todo o conceito do disco. Isso pode ser confirmado pelas letras politizadas e engajadas e até mesmo pela imagem e título do álbum (“loud hailer” = alto falante).

Como guitarrista, Beck continua sensacional. Ele preenche as canções com frases que mostram as técnicas que ele melhor utiliza e contribui significativamente com os arranjos. Sua guitarra cheia de distorção e wah-wah dá o tom em “Right Now” – com uma introdução que soa como se a guitarra estivesse tentando falar e aos poucos fosse encontrando força para fazer isso – e se destaca preenchendo o swing de “O.I.L”, por exemplo. Os outros instrumentos também aparecem quando necessário. Destaco a bateria que possui um timbre pesado em canções como “The Revolution Will Be Televised” e “Live In The Dark”.

Em Loud Hailer, Jeff inclusive investe em atmosferas bem trabalhadas que resultam em experimentos sonoros intrigantes em algumas faixas. A instrumental “Pull It” é o ápice de seus experimentos no álbum. Toda aquela mistura entre ruídos e explosão de efeitos, bem como uma bateria climática, ressalta a criatividade do músico e a disposição para entregar algo diferenciado. Ele faz de tudo para entregar um trabalho completo e complexo, que não se limita ao que ele já fez no passado. E isso o ajuda a alcançar um resultado ainda instigante mesmo para quem já o acompanha há muito tempo.

A parceria com a banda Bones dá muito certo. Os dois integrantes trouxeram um pouco da personalidade deles à música de Jeff e isso contribui com o álbum. Além de tudo, o inglês mostra que sabe ser relevante depois de tantos anos, como muitos veteranos da música têm feito, nos apresentando um álbum que, acima de tudo, proporciona uma experiência única.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] Embora tenha sido composto calcado no country, o disco possui pontas de outros estilos. “My Own Worst Enemy” abre é a balada confessional cheia de feeling e com uma performance vocal digna de nota que abre o trabalho. Tyler consegue ser ele mesmo, com o drive e as notas altas, ao mesmo tempo em que canta uma balada country que termina com um solo bem rock’n’roll. A esquisita “Hold On (Won’t Let Go)” traz um toque de psicodelia ao repertório, mostrando que Tyler soube diversificar as coisas. Os efeitos e o experimentalismo dosado me lembram algumas ideias que Jeff Beck explorou em seu último álbum solo, Loud Hailer. […]

    […] afirmando que a “revolução vai ser televisionada” (algo que o Jeff Beck também disse no seu Loud Hailer, este ano). Aliás, essa frase foi usada ipsis literis por Dogg em sua participação na faixa […]

    Vinicius Gomes Gonçalves

    (14 de setembro de 2016 - 00:08)

    Tive a impressão de já conhecer algumas melodias, o que me deixou com uma pulga atrás da orelha. Seriam plágios. Mas o ábum é sensacional. Já ouvi umas 10 vezes.

    […] vocalista e já tocou em álbuns de gente famosa e respeitada como Chris Cornell, Joni Mitchell, Jeff Beck, Cristina Aguilera e Kendrick Lamar. Toca baixo acústico, em contextos que pedem uma abordagem […]

    David Kodel

    (23 de outubro de 2017 - 10:48)

    Melhor álbum dos últimos 10 anos

    […] e 60, sem nenhum tipo de inovação, cantando covers com participações pra lá de especiais como Jeff Beck – com solos que farão você abrir um grande sorriso – e Jason Rebello (que inclusive […]

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