Eric Clapton – I Still Do (2016)

Sem reggae, fiel ao J. J. Cale e blueseiro como em muito tempo não se ouvia

Por Gabriel Sacramento

Eric Clapton não cansa de homenagear J. J. Cale. Para quem não sabe, dois de seus maiores hits (“Cocaine” e “After The Midnight”) são de autoria do guitarrista e amigo Cale. Em 2014, Clapton lançou The Breeze: An Appreciation of JJ Cale, uma compilação com músicas escritas e que ficaram famosas na voz do saudoso guitarrista. Clapton também incluiu uma música de Cale no seu disco de inéditas anterior, Old Sock (2013), a canção “Angel”, em que o próprio Cale canta com Eric.

É notável também que, desde que Cale faleceu, em 2013, Clapton vem sendo bastante influenciado pelo estilo tranquilo e simples que marcava a sonoridade de The Breeze. O cantor vem apostando em uma sonoridade límpida nos seus últimos lançamentos, com destaque para Clapton (2010) e Old Sock (2013). A influência do Cale sempre existiu, mas agora é bem mais evidente, tornando a música dele descomplicada e cool. Em I Still Do, vemos um Clapton reafirmando essa apreciação pelo amigo e confirmando a solidez dessa nova fase da carreira.

eric_clapton-2016

I Still Do tem apenas duas músicas assinadas por Clapton – “Spiral”, que traz uma guitarra saturada no início e fará os fãs do Cream sentirem saudades dos velhos tempos. O minimalismo é evidente nas notas escolhidas por Clapton, bem como no instrumental bem enxuto. A outra é “Catch The Blues”, uma canção com um ritmo acentuado, bem gostosa de ouvir. O resto é uma miscelânea de canções de J. J. Cale (“Can’t Let You Do It” e “Somebody’s Knockin’”), uma tradicional (“I’ll Be Alright”, com vocais que trazem um pouco do gospel à sonoridade de Clapton) e outras de diversos artistas (Robert Johnson, Bob Dylan e outros).

I Still Do é bem blueseiro, fazendo com que Clapton reafirme sua paixão pelo estilo e honre suas raízes. “Alabama Woman Blues” , “Stones in My Passway”  e “Cypress Grove” não me deixam mentir. Além disso, o mais próximo de rock que temos aqui é “Somebody’s Knockin’”, de Cale. Temos também “I’ll Be Seeing You”, canção mais jazzística do estilo que Clapton explorou bastante no autointitulado de 2010.

“I Will Be There” tem participação de um tal de “Angelo Mysterioso” (apelido usado pelo George Harrison em uma gravação antiga que ele fez com o Cream em Goodbye, de 1969), o que levantou rumores sobre uma possível participação do falecido Beatle no álbum. Porém, Clapton negou isso em sua página oficial do Facebook, o que levantou especulações se poderia ser o filho do George, Dhani Harrison. Nada foi confirmado, então não sabemos quem é o misterioso.

O ótimo Back Home (2005) trouxe doses generosas de rock claptoniano, Clapton (2010) foi mais do jazz e Old Sock (2013) tinha muito de reggae, fazendo com que I Still Do seja seu trabalho mais bluseiro em anos. Para ser específico, o mais blueseiro desde Me and Mrs. Johnson (2004), que era uma compilação com canções de Robert Johnson. Além disso, o disco marca um momento interessante na carreira do guitarrista, em que em cada álbum conseguimos captar uma faceta do músico.

Clapton afirmou que pretende continuar gravando coletâneas. Aliás, ele não é o único, já Bob Dylan também vem fazendo isso ultimamente. Talvez seja uma tendência de alguns músicos famosos evitarem o esforço de compor novas obras autorais e se focarem em covers. A verdade é que tem funcionado bem para ambos.

Claro, tenho que dizer: não é um excelente disco, que merece estar junto aos melhores do Clapton. Mas é uma boa e saudável continuação do trabalho que ele vem desenvolvendo. De qualquer forma, é bom podermos ainda ouvir o Clapton com músicas novas (ainda que poucas) e não só as antigas. Reafirmando a paixão pelo blues e a admiração por Cale, demonstra uma faceta diferente da que foi exposta em seu último álbum.

eric_clapton_pic
Foto: Charles Sykes/Invision/AP

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] nomes do instrumento que surgiu nos anos 60 na Inglaterra, junto com outros como Jimmy Page e Eric Clapton. Hoje, depois de tantos anos, o experiente guitarrista continua demonstrando as mesmas habilidades […]

    […] Unido veio um power trio chamado The Brew, que nos traz à memória o som de guitarristas como Eric Clapton e Jimi Hendrix, com ótimos vocais e uma consistência assustadora. O trio, formado pelo […]

    […] que soava bem mais marcante que a desse álbum, inclusive. O grande destaque da faixa é ter Eric Clapton na guitarra (que também fez um álbum de blues esse ano, que soa bem menos previsível que esse […]

    […] seus trabalhos com muita disposição. Tivemos, por exemplo, bons discos de Joe Bonamassae e Eric Clapton, além de lançamentos não tão bons assim como o Blue & Lonesome, dos Stones, que mesmo não […]

    […] dos mais conhecidos guitarristas do Reino Unido – Mick Taylor, Mick Fleetwood, Peter Green e Eric Clapton são alguns dos nomes. Além de ter lançado em 1966 o disco que é considerado o início do blues […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.