PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project (2016)

PJ Harvey faz mais um disco político que devolve ao rock a função de fazer música socialmente relevante

Por Lucas Scaliza

The Hope Six Demolition Project causou incômodo mesmo antes de o álbum chegar completinho aos nossos ouvidos. Bastou que “The Community Of Hope” fosse liberada para alardear as autoridades de Washington D.C. Se em Let England Shake (2011) Polly Jean Harvey sacudiu os conservadores ingleses e europeus com suas letras afiadas e sarcásticas mirando sua terra natal, dessa vez ela abre o novo trabalho metendo dois pés no peito da capital dos Estados Unidos sem cerimônia nenhuma.

“The Community Of Hope” não tem nem dois minutos e meio e é certeira em sua mensagem. Ao fazer um tour pela cidade de Washington acompanhada pelo fotógrafo Seamus Murphy e guiada por um jornalista do Washington Post (que a princípio não sabia que estava lidando com PJ Harvey), a compositora conheceu um desses grandes projetos governamentais que pretendem revitalizar áreas, destruir casas e reconstruí-las na esperança de dar mais dignidade aos seus pobres. O projeto teve eficácia questionável, já que milhares de moradores de cinco comunidades diferentes tiveram que deixar suas casas com a instalação do programa, chamado HOPE VI (six). É uma música bastante acessível, levada por acordes de guitarra, batidas diretas e versos como: “E a escola parece um buraco de merda/ Isso parece um lugar legal?/ Aqui temos o velho manicômio/ Que agora é a Base de Segurança Nacional”. E quando cita a ONG Community of Hope e o Walmart o faz com ironia, denunciando como a primeira não entrega tanta esperança assim e o segundo é mais um braço do capitalismo para minimamente aparentar conforto e progresso.

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Acordes cheios de bemóis e com a distorção mais pesada do disco dão a tônica de “The Ministry of Defence”, uma canção bombástica e firme em seu propósito de denúncia dos efeitos colaterais da guerra, tema que também estava presente no premiado Let England Shake. Mas agora ela fala de novos lugares. Além de Washington, Murphy e Harvey também conheceram o que sobrou do Afeganistão e do Kosovo, transportando um pouco das cenas e contextos que presenciaram nesses lugares para as letras do álbum. No blues com marcha militar de “Chain Of Keys” falam, por exemplo, de uma senhora que conheceram em um vilarejo. Ela ainda guarda 15 chaves de casas pertencentes aos seus vizinhos. Esses vizinhos, acreditam, devem ter morrido na Guerra do Kosovo, mas a senhora ainda guarda as chaves, caso algum deles retorne. “Uma chave tão simples e tão pequena/ Como pode não significar nada afinal?/ Uma chave, uma promessa ou um pedido/ Como podem significar tanta falta de esperança?”, ela canta no segundo refrão, adornando a música com lamentos.

“The Orange Monkey” tem balanço e doçura, quase como algumas das músicas de Damon Albarn. Nesta em especial, sobre o Afeganistão, PJ Harvey explica que resolveu viajar para terras estrangeiras e escrever o que visse por lá. Anota, então, que andou por ruas que mais pareciam canteiros de obras e que velhos e jovens sorriam trabalhando até o fim do dia, fazendo parecer que tudo vai bem na reconstrução do Afeganistão. Mas note que quando ela cita “An orange monkey on a chain” ela está falando de “um macaco de laranja acorrentado”, como aqueles presos políticos de Guantánamo.

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Ainda mais reveladora é “A Line In The Sand”, praticamente um reforço de posicionamento social e político e a intenção de The Hope Six Demolition Project. “O que eu vi mudou como eu enxergo a humanidade/ Achava que se houvesse progresso poderíamos consertar alguma coisa”, canta ela, resumindo não apenas o seu pensamento, mas também todo o impasse Iluminista que também fez a humanidade acreditar que a razão, o progresso, a educação, a ciência e a filosofia tratariam de endireitar a sociedade e a humanidade, mas não foi exatamente isso o que ocorreu, seja no Afeganistão, em Kosovo, na Europa ou nos EUA. Nessa música, ela diz que se não aprendemos nada até agora com tudo isso, é porque “somos uma farsa”. Apesar do tom de desilusão, ela acredita em uma saída, anunciada em falsete: “O que fizemos?/ Não tenho desculpas/ Acredito que temos um futuro para fazer algo bom”.

A gravação do disco contou basicamente com os mesmos músicos do trabalho anterior. Polly Jean canta, toca guitarra, autoharpa e dois tipos de saxofone. Mick Harvey, Flood e Jean-Marc Butty dividem-se entre backing vocals, teclados, percussão, baixo e baixo sintético, além de vários outros instrumentos. John Parish, que já dividiu a autoria de dois discos com PJ, também está presente tocando desde mellotron até acordeão, passando por teclados, vibrafone, baixo, guitarra e percussão. Como se vê, uma banda de multi-instrumentistas garantindo que o disco tenha uma estética muito própria e uma personalidade muito forte que se apropria das diversas musicalidades que o compõe. Além da banda, outros nove músicos foram convidados a tocar no disco, reforçando as guitarras, teclados, saxofones e até as palmas em “Dollar, Dollar”.

Todo o processo de composição e gravação do álbum foi transformado em uma instalação artística da Somerset House,e m Londres, entre 16 de janeiro e 14 de fevereiro de 2015. Os visitantes da galeria poderiam ver o que Harvey e seus músicos criavam e ensaiavam por meio de um estúdio com paredes de vidro. Seamus Murphy, o cara que fez um vídeo para cada canção do álbum anterior, também esteve por lá, filmando todo o processo.

Tanto musicalmente quanto liricamente, The Hope Six Demolition Project é uma continuação do estilo maduro de dar forma e de utilizar a música que PJ Harvey desempenhou tão bem em Let England Shake. Contudo, se havia muitas canções fluidas no disco de 2011, dessa vez ela criou canções com uma sensação de estranhamento no ouvinte, algo que ela fez muito bem em Is This Desire? (1998) e nos discos em parceria com Parish, Dance Hall At Louse Point (1996) e A Woman A Man Walked By (2009). Esse estranhamento não deverá incomodar o fã que gosta de Harvey em todas as suas facetas, mas talvez perturbe o fã do rock mais convencional de Stories From The City, Stories From The Sea (2000).

Harvey não usa seu lado estranho à toa. Solos de sax com notas dissonantes em “The Ministry Of Social Affairs” ou acordes tensos em “Near The Memorials To Vietnam And Lincoln” existem por um motivo. Ela realmente quer que você sinta que há algo de errado no ar e que existe muita coisa fora do lugar nos temas sobre os quais canta. Assim como não é por acaso que “River Anacostia” tem uma base vocal de música spiritual negra. A canção toma o rio Anacostia como referência (rio este que já foi muito importante para os EUA, mas hoje está tão poluído quanto o Tietê na região metropolitana de São Paulo), denunciando tanto o descaso ambiental quanto recuperando o significado social e político do curso d’água, que foi utilizado incontáveis vezes como rota de fuga de escravos americanos.

E se é de mazelas que trata o disco, duas das mais tocantes aparecem no final do registro. “The Wheel”, uma das músicas mais fluidas e mais marcantes do álbum, e “Dollar, Dollar” retratam crianças em dois lugares muito diferentes e com destinos muito trágicos. A primeira, mais roqueira e mix bastante orgânica, sem grandes polimentos, traz PJ cantando “Ei, criancinhas, não desapareçam”, ao que é respondida pelo coro de “Ouvi dizer que foram 28 mil”, referindo-se ao número de crianças mortas nos EUA vítimas de armas de fogo entre 2002 e 2012. Já a melancólica “Dollar, Dollar” nos deixa ouvir os sons das ruas do Afeganistão antes de cantar sobre um garoto mendigando a PJ, Murphy e aos turistas que passam em seus carros, deixando a compositora sem palavras.

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The Hope Six Demolition Project é um disco engajado que devolve ao rock um pouco de sua dignidade (ou função) de música de protesto ou, se preferir, música não conformada com o status quo. Em grande medida, o rock, no geral, tornou-se um estilo que não choca mais ninguém e que nem trata mais de temas espinhosos. Conta-se nos dedos quantos álbuns com conteúdo realmente relevante social e político são lançados, um papel que o hip hop e o rap desempenharam melhor nos últimos anos (e mesmo assim não estão a salvo do supérfluo entretenimento). …Like Clockwork (203), do Queens Of The Stone Age, To Pimp A Butterfly (2015), de Kendrick Lamar, e A Mulher do Fim do Mundo (2015), de Elza Soares, são exemplos que me vem à mente agora.

Assim como Let England Shake, PJ Harvey enfileira mais um exemplo de boa música alternativa para nos lembrar do mundo em que vivemos, de que o Iluminismo não impediu o lançamento da bomba atômica e nem a existência do Holocausto, e que a Democracia e a Liberdade são conceitos amplamente usados nos discursos, mas difíceis de garantir à humanidade na prática.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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