Ed Motta – Perpetual Gateways (2016)

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Ed Motta continua fiel a Steely Dan, a inventividade e a forma de fazer e pensar música

por brunochair

Em Setembro do ano passado, dentre as tantas publicações que Ed Motta cria diariamente em suas redes sociais para mostrar ao público suas predileções artísticas, Ed fez menção a um certo disco da dupla Steely Dan (Water Becker e Donald Fagen). Aja, de 1977, é considerado um dos melhores álbuns da música internacional, figurando na lista de preferidos de muita gente que trabalha e vive da música. Ed Motta, inclusive.

Steely Dan eram conhecidos por seu preciosismo, uma dedicação quase paranoica e inalcançável pela música perfeita de estúdio. No decorrer da década de 70, esta foi a vocação da dupla. Aja é a expressão máxima dessa intencionalidade, e que surtiu em um disco irretocável quanto a qualidade da produção de estúdio, tornando-se referência obrigatória para muitos artistas nas décadas que se seguiram.

Em Perpetual Gateways, décimo segundo disco da carreira de Ed Motta, a influência de Steely Dan é notada desde o primeiro acorde do disco. Não somente na sonoridade, mas na distribuição dos instrumentais e nas construções harmônicas, sobretudo nas primeiras duas músicas do disco (“Captain’s Refusal” e “Hypochondriac’s Fun”) são fruto da reverência e respeito de Ed Motta para a dupla, que tanto o influenciou.

O jazz fusion, atrelado ao soul e ao r&b, também é algo que aproxima Ed Motta e Steely Dan, não somente no discos citados, mas na discografia toda. Em seu disco novo, o brasileiro continua buscando esta miscelânea de estilos, porém está mais voltado ao gênero jazz que o anterior, (AOR, de 2013, que é mais soul em sua essência).

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O penúltimo disco do cantor e compositor (AOR) conta com letras em português, enquanto o novo disco é todo em inglês. Ed Motta compôs todas as canções de Perpetual Gateways, algo inédito em sua carreira. Também fica evidente o distanciamento de Ed para com a música pop, o pop que experimentara em algumas fases de sua carreira musical, como por exemplo quando do lançamento de Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (1997).

Nos instrumentais de Perpetual Gateways, observamos o protagonismo do piano, órgão e sax, muito em decorrência do trabalho de produção de Kamau Kenyatta, que retirou toda e qualquer participação das guitarras neste trabalho. Nota-se, ademais, uma maturidade e maior habilidade de Ed Motta nos vocais, chamando a atenção para si – e não apenas para o instrumental. Aliás, as letras também contribuem para essa tomada de atenção.

Lançado pelo selo alemão Membran (assim como foi AOR, de 2013) e lançado por aqui pela Lab344 e aplicativos de música, Ed Motta continua fiel a Steely Dan e a toda sua erudição musical, perpassando pelos clássicos do jazz e da Motown. Também continua fiel a sua inventividade, a sua própria forma de fazer e pensar música, livre e compromissada apenas com o melhor do fazer artístico.

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brunochair Autor

Funcionário público, ex-jogador de ping pong amador, curte literatura, música, fotografia, esportes, cervejas artesanais e bons filmes. Meio brasileiro e meio uruguaio, acha que a cidade perfeita é uma mistura de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

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