The 1975 – I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of it (2016)

Banda britânica não deixa de ser pop, mas abraça a melancolia e os sintetizadores em segundo álbum

Por Lucas Scaliza

O novo álbum dos jovens britânicos do The 1975 é uma incrível surpresa, não apenas porque é bom e eu não esperava por isso, mas principalmente porque mostra um grau de evolução comparável ao salto do Tame Impala entre Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012). The 1975, lançado em 2013, era um disco repleto de canções facilmente assimiláveis que tangiam o rock inglês e, no final das contas, era bastante pop. Mesmo a veia mais dark da banda, evidenciada por algumas letras e pelo visual do quarteto, não escondia a vertente One Direction de seu som. Sério: ouvir 1975 era, em grande parte, ouvir uma outra versão da boy band inglesa.

Não que isso fosse ruim. Contudo, a aparência sonora com o 1D imediatamente jogava o The 1975 para a categoria de banda adolescente que, no máximo, para ser considerada boa, teria que ser contextualizada como uma banda dirigida ao público teenager e nada mais.

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Com I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It (que significa “Gosto quando você dorme, pois você é tão linda e nem sabe disso”) eles deixam de lado o som One Direction (com exceção de “This Must Be The Dream”) e apostam em outras vertentes do pop e do eletrônico, sem perder a simplicidade e o ar jovial, o que considero um feito notável.

Grande parte das faixas traz aquela levada de guitarra e senso melódico que já vimos um dia nos trabalhos de Peter Gabriel. “Love Me” e “UGH!” soam inspiradas em “Sledgehammer”, por exemplo, abrindo o disco de maneira a causar um sobressalto a quem, por coincidência, seja fã também da carreira solo do ex-vocalista do Genesis. Já “A Change of Heart” é a musiquinha bonitinha de boy band que as boy bands não fazem mais. Se há beleza nisso, ela reside no fato de ser simples e não esconder isso, mantendo um constante flerte com o dream pop.

De um lado temos “She’s American” com potencial de single instantâneo e a dançante “The Sound”; de outro temos a dobradinha onírica “Please Be Naked” e “Lostmyhead”, incluindo no trabalho um trabalho muito bonito dos sintetizadores de George Daniel. A experiência com as atmosferas continua em “The Ballad Of Me and My Brain” e desemboca nas conciliadoras “Somebody Else” e “Loving Someone”,ficando claro que a produção do álbum foi esmerada e conseguiu fundir o oitentista ao contemporâneo.

Nada soa apressado ou ansioso em I Like It When You Slee, o que entendo como mais um sinal de maturidade. Nomes como The Weeknd, Troye Sivan e até Daniel Johns, o ex-vocalista do Silverchair, são alguns que o som do disco evocam em diversos momentos. A música do The 1975 não é tão sofisticada quanto a das referências citadas até aqui, mas caminha nessa direção. No entanto, “If I Believe You”, lenta e econômica, surge como um sopro de inspiração. Programações eletrônicas, sintetizadores, coral e até um solo de saxofone ajudam a transformar seus mais de 6 minutos em uma das composições mais incríveis do The 1975 até agora.

I Like It When You Sleep é vasto: lento, onírico, pop, dançante, melancólico, oitentista, etéreo e feliz sem ser idiotamente feliz. E quando parece que as opções já terminaram, perto do final do álbum temos a folk “She Lays Down”, para que não reste dúvidas de que o The 1975 amadureceu e ampliou seu escopo musical de forma reveladora.

O vocal de Matthew Healy cai muito bem a todas as composições e quando lembra Daniel Johns, bem, aí não tem como não gostar mesmo. A guitarra de Adam Hann tem menos o que fazer em termos de rock desta vez, mas quando aparece faz um trabalho bem feito e mostra uma mão mais solta para ritmos. Quando a banda precisa soar anos 80, o baixista Ross MacDonald cria linhas que se adequam totalmente à proposta.

Healy, o compositor e diretor musical do grupo, não apenas conseguiu fazer um segundo álbum melhor que o primeiro, como também faz a banda precisar ser menos relativizada. I Like It When You Sleep é um bom álbum no geral, e não apenas para adolescentes, ou jovens-adultos, ou seja lá para qual público for. Entretanto, foi entre os adolescentes que a banda vinha se destacando e não há muita certeza de que vão engolir tão bem a proposta dessa vez. Não é raro que o público envelheça, mas os artistas não. Neste caso, o The 1975 mostra música de melhor qualidade e, embora não deixe de soar jovem como antes, afunda um pouco mais na melancolia e se afasta das músicas açucaradas.

Quem torceu o nariz para The 1975 já pode respirar aliviado: não temos mais uma versão beta de alguma boy band. Tem uma banda de verdade!

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Comentários

    Camila Pinheiro

    (9 de julho de 2016 - 01:38)

    Bela análise, conheci a banda a pouco tempo e me apaixonei pelo último cd. Simplesmente maravilhoso em todos os sentidos, Nana me faz chorar.

    […] de Arctic Monkeys – ele produziu o maravilhoso Favourite Worst Nightmare (2007) – e 1975, Crossey soube trabalhar os talentos da banda em paralelo, gerando um álbum de aparentes […]

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