Abbath – Abbath (2016)

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A encarnação moderna e até cativante do black metal nórdico

Por Lucas Scaliza

A Escandinávia é um celeiro de boas bandas. Sobretudo de boas bandas de metal (embora as vertentes progressivas também estejam em alta por lá). E a Noruega é um país conhecido na cena metaleira por abrigar bandas de black metal, a vertente mais extrema do heavy metal e que geralmente está associada a ideologias como ocultismo, satanismo, ódio extremo, tristeza abissal, apocalipse para ontem e também, quem diria, ecologia. No geral, é uma música pesada e destruidora que impera em álbuns do gênero, desde que o Mayhem estabeleceu as bases do estilo, mas já se vislumbra uma abertura musical para esses metaleiros.

O cantor e multi-instrumentista norueguês Olve Elkemo, conhecido como Abbath Doom Occulta, líder da banda Immortal, criou no ano passada uma banda que leva seu nome, Abbath, e cujo primeiro disco, autointitulado, traz a imagem de seu rosto, com a pintura facial que lhe é característica. Além de Abbath, a banda conta com apenas o baixista King ov Hell (ex-Gorgoroth e fundador de vários outros grupos de black metal, entre eles o God Seed). Juntos produziram um disco que carrega as principais características do som que sempre fizeram, mas também trazem flertes com sons menos extremos que dão um ar mais fresco às faixas e fazem de Abbath, no final das contas, um disco bem divertido.

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Abbath e King são bastante experientes, o suficiente para saberem como conduzir o black metal com respeito, sem perder em peso e agressividade, e incluindo elementos que farão sentido dentro do álbum. Em 2015 saudamos o New Bermuda do Deafheaven como uma das experiências sonoras de black metal mais criativas do ano justamente por mesclarem post-rock e shoegaze na sonoridade, sem medo de usar melodia e passagens bastante harmônicas. Abbath segue a mesma trilha, mas onde o Deafheaven soa transcendental, esta nova banda soa pé no chão. Se as músicas de New Bermuda tinham mais de 8 minutos cada, não chega aos 7 a maior de Abbath – o que indica que os noruegueses são mais diretos, enquanto os americanos tendem a esperar uma imersão maior do ouvinte.

“Fenrir Hunts” é a aceleradíssima porradaria do álbum, de ritmo constante e cuja distorção nunca cessa. Junto de “Oceano of Wounds” faz a dupla de músicas mais tradicionais do disco. “To War” é outra que não tenta enveredar muito por paragens exóticas e consegue se manter interessante do início ao fim, com uma abertura instrumental bastante longa. O ótimo trabalho de guitarra, baixo e bateria em “Count The Dead” faz da faixa uma das mais pulsantes e bem trabalhadas do disco.

Os vocais de Abbath Doom Occulta estão bastante previsíveis, mas sua guitarra rouba a cena em diversos momentos.

Na empolgante “Winter Bane” vemos como Abbath mostra que, além de peso, pode ser bastante divertido. A parede sonora inicial com bateria destruidora dá espaço para guitarras com jeitão de hard rock que variam a dinâmica e tornam o som menos denso. As constantes mudanças rítmicas dessa e de outras faixas colaboram para que Abbath, a banda, tenha uma sonoridade bastante aberta, às vezes flertando com o metal progressivo. Apesar do peso e dos bumbos duplos, “Ashes of the Damned” também consegue surpreender, seja com passagens de guitarras que apenas deixam os acordes soar ou com a inclusão de trompetes em momentos chaves da canção. Por conta de suas acentuações, viradas e quebras de compasso, “Root Of The Mountain” evidencia o lado prog da banda. Sem cair nas batidas destruidoras, é a composição mais lenta (e lento nesse caso corresponde aos BPMs normais das bandas de rock) e mais harmônica de Abbath. Aliás, se em algum momento você lembrar do Kiss, é porque a sonoridade desses noruegueses sabe ser divertida como a de Gene Simmons & Cia.

O som congrega o tradicional black metal com riffs e passagens mais originais, fazendo deste début não o melhor disco do estilo que você já ouviu ou ouvirá este ano (provavelmente), mas com certeza é mais uma inflexão dentro do gênero para uma sonoridade mais aberta, moderna e até mesmo cativante. Como não é um disco longo, fica ainda mais fácil apreciar essa pedrada.

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