Diiv – Is The Is Are (2016)

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O shoegaze bonito e retrô do Diiv está de volta mais sombrio e a meio caminho da maturidade

Por Lucas Scaliza

É como se 2012 não tivesse terminado para a banda nova-iorquina Diiv e seu líder, Zachary Cole Smith. Is The Is Are, o segundo disco do quinteto de Brooklyn, é praticamente um reforço e uma expansão do que apresentaram no elogiado Oshin (2012), que colocou a banda no mapa do indie rock e do shoegaze. Seja em termos de técnica ou de expressão artística, o novo trabalho é uma continuação que pode até estar sendo lançado três anos e meio após o début, mas soa como se fosse a segunda parte do disco.

Os elementos são todos os mesmos: shoegaze vivaz, cheio de dedilhados e arranjos bonitinhos (o Diiv não é da vertente My Bloody Valentine do estilo, cheia de ruído e com moderadas dissonâncias), clima retrô que lembra muito o baixo de Peter Hook para o New Order (como em “Yr Not Far”, “Out of Mind” e “Take Your Time) e uma pegada instrumental bastante empolgante que parece uma abordagem indie para o surf rock sessentista (“Under The Sun” é um bom exemplo disso). Inclusive a forma de cantar e até de escrever o nome das músicas – usando os “( )”, sabe? – mantém-se inalterada.

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Mas não há o que temer. Se o Diiv não deu um passo para frente, não surpreendendo, também não dá um passo para trás e faz de Is The Is Are uma aposta segura, mas muito divertida e bonita, sem faixas ruins. Enquanto o baixo é um dos principais elementos da música, sendo extremamente perceptível em todas as composições ao fazer bases consistentes, as guitarras fazem todos os arranjos, sejam dedilhados, ritmos, solos ou mesmo ruídos que surgem como texturas na mixagem. “Bent (Roi’s Song)” não só é uma das músicas mais vistosas do álbum como ilustra muito bem o papel de cada um na banda.

O dream pop também se evidencia em diversos momentos, graças ao reverb nos vocais, nos instrumentos e em todas as atmosferas criadas pelo teclado, como mostra “Valentine”. Há faixas fortes e pulsantes também, como “Is The Is Are”, a roqueira “Incarnate Devil” e “Mire (Grant’s Song)”, esta cheia de ruídos criando texturas típicas do shoegaze e aprofundando o ar de inadequação da canção. Mas também há “Dopamine”, uma das faixas mais palatáveis do disco, e a balada “Healthy Moon”, que tira o pé do overdrive e aposta em um onipresente dedilhado.

Zachary começou a trabalhar em Is The Is Are ainda em 2013. No meio do caminho, o vício em heroína foi algo que atrapalhou consideravelmente não apenas o desenvolvimento do disco, mas sua relação com as pessoas e virou sua vida, sua saúde e o trabalho com a banda de cabeça para baixo. Precisou cancelar uma turnê europeia, foi pego dirigindo um carro sem licença enquanto ia para um show do Diiv e, para completar, ele e a namorada Sky Ferreira estavam portando drogas. O resto da banda também passou muito tempo chapada, culminando com o Ruben Perez sendo misógino, racista e homofóbico no 4chan, o que quase causou sua demissão.

Assim como Kevin Parker fez Currents praticamente sozinho, Cole voltou ao estúdio Strange Weather em 2015 e gravou todas as faixas de Is The Is Are ele mesmo, tocando todos os instrumentos, sendo ajudado apenas pelo engenheiro de som Daniel Schlett, o mesmo de Oshin. O cantor e guitarrista ainda estava trabalhando sob efeito de drogas e ouvia Bad Moon Rising (1985), do Sonic Youth, sem parar. Ele tentou a rehab e algumas outras formas de se manter limpo, mas nenhuma funcionou com ele. Algumas de suas declarações recentes deixam claro que ele está tentando ficar limpo, mas não acredita nos métodos disponíveis. O baterista Colby Hewitt teve que deixar a banda por causa da dependência química, sendo substituído por Ben Newman.

Para completar, Is The Is Are marca a vontade de Cole em traçar um paralelo com Kurt Cobain. Ele diz querer que o álbum seja tão universal e tenha tanto apelo quanto um Nevermind. Para isso, além de ele compor tudo sozinho, tocar guitarra e cantar (como o líder do Nivana), ele também tem Sky, uma namorada roqueira como parceira (como Courtney Love) e abusa das drogas (como Kurt), além de se basear no jeito de Cobain escrever as letras.

Se a banda está comprometida essencialmente com o mesmo tipo de som, pelo menos o novo trabalho soa um pouco mais down e denso que o primeiro, um efeito dos problemas e das pressões que Cole enfrentou – e ainda enfrenta – nos últimos três anos. É quase o mesmo passo em direção à maturidade que notamos em Too, do Fidlar, que passou de um disco celebrando as drogas e a vida festeira e libertina para outro que não está livre disso tudo ainda, mas já sofre os seus efeitos e está mais consciente. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos também na passagem dos anos 60 para a ressaca da década de 1970, quando as experiências com drogas levaram não a libertação ou expansão da consciência como os hippies queriam, mas a um cenário bem mais sombrio e violento. E Is The Is Are tem um clima mais sombrio também em faixas como “Valentine”, “Mire (Grant’s Song)” e “Blue Boredom (Sky’s Song)”, com participação de Sky Ferreira nos vocais. Chega a lembrar o onipresente clima de afogamento de Pe’ahi do The Raveonettes.

No fim das contas, fica claro que Is The Is Are é um disco poderoso e bem trabalhado, mas não superproduzido, fiel às suas raízes. É provável que não alcance o mesmo patamar de influência (e vendas) que Nevermind, mas dá para perceber que suas músicas emergem de um caldeirão de sentimentos reais e sensibilidade artística de quem faz rock com limitações técnicas, mas com vontade de comunicar algo. E isso Zachary Cole Smith conseguiu: Oshin foi uma boa estreia, mas é o conteúdo de Is The Is Are que vai se conectar com as pessoas.

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