Fidlar – Too (2015)

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O mesmo poder de fogo punk e uma dose a mais de ousadia

Por Lucas Scaliza

O quarteto californiano FIDLAR fez barulho com FIDLAR em 2013. A banda punk, de uma vertente animada, acelerada e skatista, tomou de assalto o cenário com o vigor de suas canções curtas cheias de letras sobre drogas e bebedeiras, entre outras irresponsabilidades que faziam parte da vida do cantor Zac Carper naquele momento. Era um adulto quando o primeiro disco da banda saiu, mas ainda guardava muito daquela agitação e angústia do final da adolescência. Nada pretensiosos, mas tinham muita musicalidade ao longo de 15 faixas. Acabaram fazendo o nome ao abrir para os Pixies e o The Hives. Nada mal para quem acabara de lançar um disco.

Too, lançado em junho, mostra o mesmo poder fogo de FIDLAR, mas vem com ainda menos medo que o antecessor de juntar outras referências a sua música. É punk dos bons em diversos momentos, mas também cabe algo de country, de pop e de hard rock. Essa mistura bem feita, aliada a uma dose maior de ousadia, faz de Too um dos discos de punk mais legais e divertidos do ano. Embora não tenha o mesmo tamanho e ambição conceitual que The Most Lamentable Tragedy do Titus Andronicus, Too compartilha o mesmo jeito sem amarras e criativo de apresentar sua música.

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Após as reabilitações de Zac para sarar da fissura em cocaína, metanfetamina e heroína, a temática das letras de Too se tornaram um tantinho mais críticas quanto aos abusos de drogas. Mais ou menos como a mudança do deslumbramento dos anos 60 hippie para a maré de negatividade e problemas que tomou os Estados Unidos nos anos 70, mostrando de uma forma bastante contundente no que tudo aquilo se transformou. Zac e sua banda não deixaram de ser divertidos e animados, mas não são mais ingênuos e nem acham que o mundo vai terminar em uma grande festa com um dilúvio de cerveja. O vocalista afirma estar sóbrio há bastante tempo e que 90% do álbum foi gravado sem influência de álcool ou entorpecentes.

“40oz. On Repeat” é basicamente uma canção sobre garoto criando coragem para chamar uma garota para sair. E não demora muito para ele cantar: “Não me importo mesmo, vou beber um pouco/ Isso vai me transformar em quem realmente quero ser/ Mas sou aquele tipo especial de pessoa que bebe demais/ Porque ninguém me compreende/ Porque todo mundo tem alguém, todos menos eu/ Por quê ninguém me diz que eu também tenho alguém?” O tipo de letra reveladora e simples, mas que captura a angústia de todo jovem e a devolve com um tipo de sarcasmo. Em “Punks” Zac vocifera sobre maconha, crack e fichar chapadão, enquanto a guitarra faz riffs bluseiros e sujos, muito mais próximos do Jack White, do Royal Blood e do Marilyn Manson (levando em consideração os vocais) do que de qualquer banda punk. “West Coast” é o pop punk para rádios do FIDLAR com direito a backing vocals melódicos. “Why Generation”, com uma experta linha de baixo e menos distorção, é bastante setentista. É apenas o começo de Too e já ouvimos três facetas diferentes da banda. E nada soa fora de lugar.

 

Algo que chama a atenção ao longo de todo o disco é o fato de FIDLAR ser bastante punk e não usar o rótulo como desculpa para fazer sempre as mesmas batidas, os mesmos ritmos e os mesmos três ou quatro acordes. A música é simples, mas tem aquela mesma riqueza melódica e energia rock’n’roll de um The Cribs, por exemplo. E embora flertem com o pop, ainda não se trata de uma banda que ameniza na agressividade. A energia de Zac, Brandon Schwartzel (baixo), Elvis Kuhen (guitarra) e Max Kuhen (bateria) em cada faixa é notável.

“Sober” é praticamente um desabafo cheio de pausas e interrupções e um refrão que resume espetacularmente a situação da banda, de muita gente que está na mesma fase da banda, e do clima geral do que a banda FIDLAR representa neste momento. “Conforme fiquei mais velho descobri que a vida é um saco quando você fica sóbrio/ Descobri quando fiquei sóbrio que a vida é um saco quando você fica mais velho”. Chame de Síndrome de Peter Pan se quiser, já que crescer – ou não amadurecer como o esperado – é um tema recorrente no disco. Na poderosa “Bad Habits”, Zac grita “Porque eu bebo até ficar maluco/ E eu amo ficar triste/ Oh meu Deus, tô virando o meu pai!”

“Leave Me Alone” e a ótima “Stupid Decisions” traz aqueles flertes com o hard rock. Já “Drone” é punk do começo ao fim, mas tem um solo de guitarra e detalhes que as bandas mais básicas não se permitem colocar no som. Em “Overdose” eles caem num blues country surpreendente. Não é o tipo de som que esperamos encontrar num disco punk, porém funciona perfeitamente. “Bad Medicine” ressalta o garage rock da FIDLAR, com seu som sujo e batidas cruas e nervosas. Definitivamente não é uma banda que toca qualquer nota. Max, Elvis e Brandon sabem exatamente o que fazer e quando fazer com seus instrumentos. E Zac vai de um extremo a outro de seu alcance vocal, provando que não é um menino gritão do rock.

Apesar do clima festeiro da estreia e das músicas que ainda podem embalar muitas mosh pit em shows da turnê de Too, o disco novo não é o mesmo punk – e nem a mesma festa – que Blink 182 ou Green Day promoveram aos fãs do punk americano dos últimos 15 anos. FIDLAR não é o punk mais crítico do mundo, mas está muito longe de ser inofensivo. E se agradam a tantos jovens que comparecem em peso aos seus shows é porque conseguem fazer um som potente e interessante com uma linguagem que eles conseguem entender. Autodepreciação, a indignação com certas convenções sociais, a falta de autoconhecimento e autocontrole, a fuga da realidade da vida escolar, do convívio familiar e da incerteza sobre um futuro de “gente grande” que parece impraticável e distante.

Num mundo em que tudo que não é radiofônico e politicamente correto vira underground, Too faz uma ponte bem acabada entre os dois mundos e ainda atesta a qualidade dos músicos da banda. O ouvinte precisa interpretar as letras com senso crítico, se atendo mais ao pedido de ajuda que revelam do que às transgressões que expõem, para conhecer uma banda que vale a pena.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] – nos últimos três anos. É quase o mesmo passo em direção à maturidade que notamos em Too, do Fidlar, que passou de um disco celebrando as drogas e a vida festeira e libertina para outro […]

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