Jair Naves – Atirado ao Mar EP (2015)

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Ele só precisa de 2 minutos para te surpreender (de novo)

Por Lucas Scaliza

O excelente Trovões a Me Atingir não foi o bastante para comportar a produção musical recente de Jair Naves. O guitarrista, cantor e compositor, antes do Ludovic e agora em carreira solo, em melhor forma do que nunca, consegue, além de fazer boa música, usar o formato mais curto de Atirado ao Mar para expandir sua sonoridade. O EP é um complemento ao último álbum, com apenas quatro canções que nem chegam aos 15 minutos, mas que mantém a mesma qualidade de sempre.

A faixa “Atirado ao Mar” é tão bem feita e tem características tão próprias de Naves que é um enigma porque ficou de fora de Trovões a Me Atingir. Poderia ter sido, facilmente, a música de trabalho do álbum. O principal traço da composição criativa do guitarrista está presente aqui de novo: quando você acha que a música já vai acabar, ou que sabe prever como ela vai fazer seu caminho até o refrão, Naves acrescenta um detalhe, uma virada harmônica, um piano, um riff ou solo de guitarra para te manter atento. Como se vê, Lee Ranaldo é uma referência que vem à mente novamente quando ouvimos o EP.

“Gélido, Invernal” é mais simples, mas poderia tocar três vezes seguidas que entraríamos na vibe proposta pelo compositor em todas elas, sem cansar. “A Recusa, A Renúncia” é uma obra de violões, lenta, grave e curta, com uma linha vocal muito incomum para o que Jair anda fazendo. Dois minutos é tudo o que ele precisa para nos surpreender (de novo). E o EP termina com “Converta em Algo Belo a Minha Dor”, uma canção cheia de som, não linear e tão gostosa de acompanhar quanto “Atirado ao Mar”.

Se em Trovões a Me Atingir as composições e letras pareciam, quando vistas em conjunto, muito cerebrais, embora belas e emocionais, o EP Atirado ao Mar é uma pequena trilha de empatia que serve muito bem como uma porta de entrada para a carreira solo de Jair Naves. E todas as faixas – talvez com exceção de “A Recusa, A Renúncia” – ficam bem ao vivo. O próprio artista declarou que, para que o álbum lançado no início do ano não ficasse exageradamente longo, a ideia era separar a produção entre um LP e um EP. Como talvez o próximo disco dele resolva apostar em outra sonoridade, outro estilo de mixagem e outras temáticas, este EP vem em boa hora, dando mais visibilidade a ele e entregando boas músicas.

E assim Jair Naves continua se tornando um dos compositores mais interessantes do rock brasileiro.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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