Boogarins – Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos (2015)

Boogarins_Manual_capa

2º álbum não traz nenhuma surpresa, mas mantém as raízes lisérgicas

Por Lucas Scaliza

Goiânia é uma cidade famosa por tudo que se refere ao sertanejo. Muitas duplas vieram de lá, muitos shows são realizados lá. Mas assim como Salvador também pode ser mais conhecido pelo axé, também possui sua cena roqueira (Raul Seixas, Camisa de Vênus e Pitty são de lá, lembram?). E Goiânia já vem despontando a tempos como um lugar onde a cena do rock não é apenas interessante e significativa, mas também criativa e diversificada. Depois de Black Drawning Chalks, Hellbenders, Overfuzz e Girlie Hell, a capital de Goiás nos presenteou com os Boogarins, um quarteto genuinamente psicodélico e talvez uma das propostas mais roots e viajantes da música brasileira desde o tropicalismo.

Os elogios ao Boogarins atravessaram fronteiras. Chamaram bastante atenção pelos festivais em que tocaram, inclusive o SXSW, em Austin (Texas), onde mostraram o idioma português (raro na música daquelas bandas) aliado com sons lisérgicos (a que já estiveram bastante acostumados, principalmente nos idos de 1969). E o disco de estreia, As Plantas Que Curam (2013), é uma pequena obra prima analógica de Dinho Almeida (vocal e guitarra), Benke Ferraz (guitarra), Hans Castro (bateria) e Raphael Vaz (baixo).

Foto: Beatriz Perini
Foto: Beatriz Perini

Mas os goianos chegaram ao segundo disco, Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos, e a primeira dúvida é: uma banda tão legal se manteve fiel a proposta? A resposta é um retumbante SIM. O quarteto (que desde 2014 conta como Ynaiã Benthroldo nas baquetas) mantém os dois pés firmes na psicodelia. A próxima pergunta, então, seria: e o álbum vale a pena? Ah, sim, vale a pena. Qualquer um que tenha se empolgado com faixas como “Lucifernandis”, “Doce” e a incrível “Erre” não deverá ter motivos para não correr ouvir Manual. E a criatividade, como anda? Bem, é aí que precisamos tirar dois ou três parágrafos para ponderar.

Já tiramos o elefante branco de manchas verdes e vermelhas da sala ao apontarmos que trata-se de um bom segundo álbum. No entanto, ele é mais uma continuação do primeiro do que uma evolução ou uma ampliação de horizontes musicais para o Boogarins. As Plantas Que Curam tinha uma certeza rudeza na mixagem, uma crueza de produção e um clima notadamente de gravação old school, analógica mesmo, que trazia um sabor incrível às composições, principalmente se ouvidas em vinil. Era uma psicodelia rural adornada por gravações de pássaros que só aumentavam o clima de retiro bucólico. Já Manual tem uma produção um pouco mais esmerada, tirando-a do campo e aproximando-a de um tipo de som menos localizado. “Avalanche” já dá um grande indício disso tudo.

Assim como no primeiro, as faixas se servem dos ótimos vocais de Dinho e dos arranjos e solos maravilhosos de Benke, com Ynaiã e Raphael fazendo muito mais do que uma retaguarda, contribuindo mesmo para a identidade de cada faixa. E se “Tempo” parece arrastada demais na gravação, uma música que exige tempo para se desenvolver, é em “6000 Dias” que ouvimos o potencial da banda. Faixa forte e inspirada, uma verdadeira viagem instrumental pelo universo lisérgico tupiniquim. O solo, repleto de efeitos de expressão, é o melhor momento do disco.

Talvez tivesse esperado que o Boogarins reformulasse a proposta agregando elementos novos ao seu som, o que não ocorre em Manual. A mesma fórmula de chá de cogumelos e fumaça entorpecente que fez música boa em 2013 foi usada para fazer música tão boa quanto em 2015. Diferente do Kevin Parker que soube manter-se psicodélico, mas propondo direções diferentes em cada um dos três discos do Tame Impala, saindo do rock de guitarra de Innerspeaker (2010) e chegando ao soul, disco e R&B de Currents. A mesma banda, mas nunca as mesmas referências. Se há algo que incomoda em Manual é justamente a falta de novas referências.

Mas este é um incômodo que não necessariamente atingirá a todos os ouvintes e fãs da banda. “Falsa Folha de Rosto” é leve e borbulhante, como se Rodrigo Amarante caísse de paraquedas ali na banda. “Mário de Andrade/Selvagem” é mais um exemplo de como o quarteto propõe faixas que são pop e ao mesmo tempo mutantes, surpreendendo o ouvinte. São incontáveis os momentos em que você se deixa levar pelo baixo de Raphael Vaz. Passado o deslumbramento com a guitarra, é uma ótima experiência se deliciar nas linhas graves de “Benzin” e “Sei Lá”. E há até um momento feel good no álbum com a instrumental “San Lorenzo”, sendo seguida por “Cuerdo”, cheia de sons ao fundo para você tentar identificar, enquanto o primeiro plano parece querer se esconder em uma névoa de som.

Um aspecto muito importante do álbum é o fato de ser lançado novamente pela Other Music, selo internacional. O estilo de música da banda é cultuado por um pequeno nicho do público roqueiro brasileiro, mas se somado aos nichos de diversos outros países, formam um público considerável que aumentará ainda mais o prestígio dos goianos. Os shows de divulgação começam em Londres, depois percorrem algumas cidades da Europa e até 2016 devemos ver o Boogarins de volta ao Brasil. Não é um disco de surpresa em nenhum aspecto, mas não deixa de ser mais um passo de uma promissora banda.

spotify:album:0wz7PD6NlDooE5D47TFneZ

boogarins_2015_manual

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *