Gazpacho – Molok (2015)

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Com mistura de ciência e religião, Molok tem utilização do instrumento mais antigo da humanidade e algoritmo que pode causar o fim do mundo

Por Lucas Scaliza

De Missa Atropos (2011) a Demon (2014), os noruegueses do Gazpacho pularam de um rock bastante contemplativo e com mais presença da guitarra para uma sonoridade ainda mais árida e atmosférica, com menos distorção e mais folclore. A alcunha de rock progressivo serve mais como uma forma de generalizar o que essa banda faz do que de fato informar qual é o som deles (explicação que consumiria muitas palavras, já que não é tão fácil definir). Em Molok eles fazem uma ótima ponte entre o Gazpacho roqueiro de Missa Atropos com o clima de escuridão e mística de Demon.

O som da banda nunca é apressado ou excessivamente pesado, e muda de algo doce para algo sombrio com bastante habilidade. A voz de Jan-Henrik Ohme pode não ser das mais icônicas que o rock europeu produziu, mas cai bem aos temas e ao jeito como o Gazpacho apresenta sua música. O timbre do cantor faz os versos soarem como histórias recitadas por uma pessoa muito velha e misteriosa. A ambientação folk presente em todo o trabalho completa o cenário de conto de fadas e esoterismo.

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O tema de Molok é intrincado, dá mais um romance do que um álbum, colocando religião e ciência moderna no mesmo patamar para discutir um tipo de fim do mundo. Como a própria banda explica, o disco é sobre um homem que, por volta de 1920, decide que qualquer um que esteja adorando um Deus está, de certa forma, adorando uma pedra – que pode tomar a forma de uma catedral, de Meca ou do Stonehenge. “Deus parece ter sido entalhado em pedra por seus adoradores para nunca mais retornar. Isso ecoa os mitos noruegueses em que se um troll é exposto à luz do sol, ele vira pedra, mas isso também reflete a forma como Deus tem permanecido incomunicável por tanto tempo”, comentam.

Para esclarecer um pouco mais sobre o que é Molok, o grupo disponibilizou um série de informações intrincadas. Contam, por exemplo, que o fim do trabalho contém um som estranho que gera um número aleatório cada vez que o disco for rodado em CD players. Se o número corresponder a atual posição de todos os elétrons do universo o mundo poderia, tecnicamente, ser destruído. Apesar de parecer absurdo, dizem que o Adam Washington, da Universidade de Sheffield, confirma que isso é ciência, não ficção. “O sinal aleatório produzido no fim do disco contém bits suficientes para expressar uma medida do número total de partículas fundamentais que existem no universo”, ele diz. Para resumir, o cientista sustenta que se isso acontecer, buracos negros encontrariam uma maneira de ficarem estáveis para sempre, sem precisar sugar matéria para continuarem alimentados. E isso significaria o fim prático do universo.

E o que isso tem a ver com religião ou a existência de Deus e coisas metafísicas do tipo? “Se o universo pode ser destruído por criaturas que estão dentro dele, se tudo se resume a reações químicas, então há algum valor espiritual? Nesse cenário não há bem ou mal, apenas uma ausência de significado”, a banda sustenta.

Algumas músicas são mais fáceis de descrever que outras. Com mais de 6 minutos, “Know Your Time” é uma das melhores de Molok e também uma das mais regulares. Um rock levado pelo baixo e pelo teclado, que cria toda a ambientação noturna da faixa. É um rock atmosférico e cheio de cantos escuros e se mantém assim durante toda a sua duração. A lenta “The Master’s Voice” também se apoia em um tema comum de piano que vai sendo repetido ao longo de toda a faixa. Já “Bela Kiss”, que não chega aos 3 minutos, é uma sucessão de mudanças estilísticas: começa como um folk rock em 5/4 e cai em uma música popular do leste europeu, sempre com uma pegada mais festiva do que a maioria das faixas do disco. Esse trecho em particular tem a participação de Stian Carstensen, um acordeonista da orquestra de jazz balcânico Farmers Market. “Park Bench”, que inaugura o álbum, inicia com percussão étnica e ameaçadora. Então a percussão cessa e o piano toma a dianteira da música, com um teclado variando os timbres dos arranjos que propõe. O compasso é outro elemento que não se mantém constante, mas a banda é experiente e soube costurar suas mudanças de forma a não ser perceptível e nem bruscas.

“Choir of Ancestors” e “Abc” trazem movimentos mais fluidos ao Gazpacho, onde exercitam o estilo mais característico da banda de álbuns anteriores, inclusive um lado mais iluminado da sonoridade. A bela instrumental “Algorithm” parece que volta a te jogar na escuridão. Mas tem um desenvolvimento tão vívido que soa como se saíssemos de uma caverna e chegássemos a uma clareira na floresta. “Alarm” tem teclados quentes para nos envolver e é uma das músicas mais acessíveis do trabalho. Ainda é noite em Molok, mas já nos aproximamos da alvorada. Com mais de 9 minutos, “Molok Rising” se aprofunda no mistério do disco e com um misto de modernidade e folk constrói uma faixa de suspense e de ritual. Mas se chegou até o final dela, bem, o número gerado pelo som não causou o fim do mundo, felizmente.

“Molok Rising” tem a participação do arqueólogo da música Gjemund Kolltveit que toca instrumentos da idade da pedra que ele mesmo reconstruiu para dar uma ideia de como poderiam ter soado as primeiras canções de louvor da humanidade. Esses instrumentos são feitos de pequenas pedras, mandíbulas de alces e espécies de flautas e outros instrumentos com cordas. O arqueólogo também toca a pedra de Skåra, uma pedra cantante que, acredita-se, tem sido usado desde a última era glacial, há 10 mil anos. Isso quer dizer que, provavelmente, o Gazpacho incorporou em Molok o instrumento musical mais antigo da história e que talvez nunca tenha sido gravado em um álbum.

O Gazpacho mantém seu estilão barroco, que não é virtuoso e nem deixa sobressair a complexidade das composições. Vai mesclando estilos e, embora a banda tenha seis instrumentistas e duas participações especiais, mantém seu som bem limpo, nunca sobrecarregado e nunca barulhento. O passo lento e a mística envolvendo o som que produzem ainda são suas principais características. Mas são faixas bem diferentes do que apresentaram em Demon.

Também há uma explicação científica e religiosa para o nome “Molok” adotado pelo grupo. Dizem eles que, de um ponto de vista mecanicista, todos os eventos do universo são consequência de um evento anterior, o que quer dizer que com informação suficiente deveria ser possível calcular o passado e o futuro, que é o que o protagonista da história faz. Ele cria uma máquina e a batiza de “Molok”, pois é o nome do demônio bíblico para cujas mandíbulas crianças eram jogadas em sacrifício, já que a máquina “mastiga” os números. “No dia do solstício ele liga a máquina e ela rapidamente ganha alguma forma de inteligência conforme percorre a história e sua própria evolução”, explicam.

Uma ideia recorrente no disco é a de que sem um deus para nos guiar, a humanidade não tem certeza sobre o significado da vida e que enquanto tentamos preencher o vazio com outras coisas que ainda sobre as quais não temos respostas ainda e sem um mestre em quem se escorar, nós estamos mesmo sozinhos no universo.

O conceito é pesado e as ideias que o envolvem são complicados. Mas eu garanto que a música é muito mais acessível e fluida do que parece. Um projeto curioso e excêntrico, mas que une diferentes áreas do conhecimento para fazer uma música com conteúdo não apenas em suas letras, mas cada nota, instrumento e escala melódica escolhida desempenha uma função. Quem fez um trabalho tão bom e tão etnográfico quanto este foi o guitarrista Steve Hackett (ex-Genesis) em seu último disco solo, Wolflight, que eu recomendo fortemente a quem tem interesses antropológicos e culturais mais profundos na música não erudita e não acadêmica.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Vitor L. M.

    (22 de outubro de 2015 - 12:31)

    Ótima resenha, não sabia desse conceito tão profundo no álbum. Acho que talvez seja o melhor CD deles desde o Tick Tock, embora também goste bastante do March of Ghosts. Não me pareceu uma atmosfera assim tão sombria, tem músicas bem mais empolgantes que o antecessor e que dão mais fluidez ao álbum. Vale a pena ser ouvido.

    […] com viés antropológico também praticada recentemente pelos norueguês do Gazpacho com Molok, pelo inglês Steve Hackett (ex-Genesis) em Wolflight e pelo trompetista de jazz Ibrahim Maalouf em […]

    […] Se quiser algo parecido, mais banda e menos abstrato, e ainda com conceito estético forte, indico Molok (2015), de outro grupo norueguês, o […]

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