Ibrahim Maalouf – Kalthoum (2015)

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Usando técnica rara, ele homenageia “As Mil e Uma Noites” com jazz arábico que aspira ao clássico

Por Lucas Scaliza

O trompetista Ibrahim Maalouf – que apresentei a quem não conhece em uma resenha publicada ontem – lançou outro disco de inéditas. Se em Red & Black Light ele faz uma ode instrumental às mulheres do mundo, misturando seu jazz ao pop, ao eletro e ao soul, no belo Kalthoum ele presta uma homenagem especial a egípcia Oum Kalthoum, uma cantora ícone da música árabe. E como há pretensão no trabalho do compositor franco-libanês, ele tratou de recriar uma das obras mais importantes de Kalthoum: Aif Leila Wa Leila, ou As Mil e Uma Noites, criando uma ponte entre a música clássica e o jazz, dois estilos que estão dentro do espectro de domínio de Maalouf.

Enquanto o disco é inegavelmente jazzístico, a divisão das faixas denota um esquema chupado da organização das peças eruditas: as 7 faixas do disco não possuem nomes, sendo identificadas com suas funções. Assim, temos um introdução, duas aberturas (overture) e quatro movimentos. É essa soma de partes que constituem a reinterpretação da peça As Mil e Uma Noites de Oum Kalthoum.

E como se isso já não fosse trabalho suficiente, Maalouf resolveu usar o trompete de quatro pistões (o trompete comum tem apenas três pistões), uma invenção de seu pai, Nassim Maalouf, e que exige uma técnica de execução diferente. Mais raro ainda é sua capacidade de tocar tons quaternários no trompete, possibilitando que ele use a maqam, o sistema de modos melódicos arábicos. Dessa forma, a veia oriental que sempre rondou sua produção, mesmo a mais ocidental possível, é potencializada e ouvimos um jazz étnico, que nos remete ao mundo árabe o tempo todo. E assim como o jazz etíope de Mulatu Astatke ou o instrumental dos paulistanos do Bixiga 70, a música dele faz o sangue circular e coloca o ouvinte para dançar ritmos quebrados e quase anárquicos, como o “Overture II”.

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Para esta empreitada, Maalouf conta com a mesma banda que gravou Wind (2012, seu disco de homenagem a Miles Davies): Larry Grenadier no baixo, Clarence Penn na bateria, Mark Turner no saxofone e Frank Woeste no piano. Nada de pop, de soul, de guitarras elétricas ou de grooves. Kalthoum é regido pelo jazz do começo ao fim. A peça original, composta em 1969 por Baligh Hamidi, é uma suíte de uma hora de duração, com refrãos de três minutos e versos de até 25 minutos. Grande parte das Mil e Uma Noites são dedicadas à improvisação, o que cai como uma luva ao estilo de Maalouf, que advoga em favor do improviso como criação e é professor de improvisação em um conservatório de Paris.

“Introduction” já nos apresenta ao principal tema da peça, um refrão que ouviremos recorrentemente em outras faixas e em outros contextos, alinhavando todas as sete faixas na mesma obra. Uma faixa que já mostra a técnica virtuosa de Penn na bateria e de Turner no sax. O andamento pode ser entendido como um 8/4 ou, levando em conta as suas acentuações, como um polirritmo de 3/4 + 5/4. “Overture I”, repetindo as mesmas cores da intro, nos envolve em sua levada 6/4 antes de se tornar mais complexa e mutante. Destaque para a seção em que sax e trompete solam juntos. “Overture II”, um campo para a percussão de Penn reinar, estilhaçando o som de seu instrumento (note como ele cria vibrações ricas), é dançante e caótica, como se todo o salão resolvesse arrastar as cadeiras para dançar ao mesmo tempo.

Em “Movement I” dá espaço para Maalouf trabalhar seu trompete. Bem mais econômica que as anteriores, deixa o instrumento construir suas melodias em torno do refrão. Woeste apenas o acompanha, sem intervir. Para quem está acostumado com os solistas virtuosos de blues, rock e jazz que aproveitam espaço como esse para colocarem tudo o que sabem, esse primeiro movimento poderá ser uma surpresa, pois Maalouf o aproveita para ficar na dele, sem grandes sobressaltos. “Movement II” chega sem fazer rodeios, apresentando seu ritmo complicado e longo. A melodia é dividida entre Maalouf e Turner, criando um belo e intrincado dueto. Há também uma seção em que o baixo de Grenadier assume a posição de solo.

“Moviment III”, com 15 minutos, não perde a doçura, mas é uma faixa mais dinâmica e cheia de som. Se o piano, sempre tão presente no jazz, parecia muito apagado fazendo melodias e pontuando o ritmo, nessa faixa Woeste improvisa sempre que os sopros não estão presentes. Já “Moviment IV”, que encerra o trabalho, resgata o jazz mais dançante e tempera a música com uma energia próxima da apresentada pela música latina. São as faixas onde a improvisação toma mais espaço também. Se em Red & Black Light Maalouf e sua banda optaram por compassos complexos, mas tocados de uma forma que a erudição da composição não ficasse tão evidente, é fácil prever que devem ter repetido a dose ao reinterpretar livremente Alf Leila Wa Leila.

Nada soa apressado ou ansioso. O quarteto de músicos envolvidos em Kalthoum parece bem à vontade, sem nenhuma necessidade de impressionar com velocidade ou com fraseados torcidos e forçosamente inventivos. Nesse quesito, lembra bastante o entrosamento e o resultado de The Meridian Suite, o disco do baterista Antonio Sánchez com a banda Migration. Ibrahim Maalouf declarou que de todas as referências musicais de sua formação, Oum Kalthoum sempre fora uma constante. Embora tenha detalhes intrincados tanto na música original quanto em sua reinterpretação jazzística, o The New York Times notou que o trompetista executava a música sem a necessidade de partitura e diversas vezes estava de olhos fechados.

Não apenas soa incrível como é, de fato, um dos discos de jazz mais destacados do ano. Um esforço que soa como a criação do artista eletrônico Nicolas Jaar em Pomegranates, que recriou a trilha sonora do filme armênio The Color of Pomogranates, dirigido por Sergei Parajanov e, assim como o Alf Leila Wa Leila de Kalthoum, foi lançado em 1969. Tanto Kalthoum quanto Red & Black Light servem de porta de entrada para a discografia variada de Ibrahim Maalouf. Mais um músico para se acompanhar com ouvidos e olhares antropológicos voltados para sua produção.

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