Filipe Catto – Tomada (2015)

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A tradição da MPB ainda pesa, mas o álbum retrata seu desenvolvimento como artista

Por Lucas Scaliza

O segundo disco de estúdio do gaúcho Filipe Catto, Tomada, continuará a intrigar os desavisados. Quando ele abre a boca e solta a voz, não pensamos em Filipe, mas em alguma cantora da MPB que fez história, tal é a raridade e peculiaridade de seu timbre de voz, dando uma característica andrógina à sua arte e imagem. Una isso à uma técnica apurada de canto e composição e teremos em nossa frente um disco e um artista com potencial absurdo.

Mas mesmo para os talentos absurdos e raros a carreira pode ser um tanto errática. Após ganhar notoriedade com o EP Saga, com direito a música em trilha de novela, a Universal se interessou e endossou Filipe Catto em seu disco de estreia, Fôlego (2011), que rendeu um disco ao vivo ainda melhor, Entre Cabelos, Olhos e Furacões (2013). Mas Tomada, um belo disco de MPB com laivos de indie rock, foi lançado de forma totalmente independente, sem os investimentos da grande gravadora de outrora. Se a Universal não está presente dessa vez, está a Natura Musical, que já patrocinou diversos artistas da nova MPB e abriu um edital ano passado pela primeira no Rio Grande do Sul (e Catto foi contemplado).

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A falta de uma grande player  do mercado fonográfico pode fazer com que um disco não receba uma atenção midiática e uma distribuição ampla, mas certamente, bem ladeado de gente talentosa como está, Catto já vai dando a volta por cima sem dever nada a ninguém. A ficha técnica revela a produção a cargo do experiente Kassin e um time de compositores invejáveis como Caetano Veloso, Paulinho Moska, Marina Lima, Pedro Luís, Fernando Temporão, Zé Manoel, Thalma de Freitas, além do próprio Filipe.

Tomada é um disco que se desenvolve melhor do que Fôlego, com mais ideias e alguns poucos riscos. O primeiro disco dele o mostrava seguindo na direção da MPB mais tradicional, o que demonstrava seu repertório. O novo trabalho me parece menos reverencial à tradição e mais como uma busca por uma expressão própria. Embora sua voz tenha sido comparada a de Elis Regina, penso mais em Zélia Duncan ao ouvi-lo – mesmo que sua interpretação continue recorrendo à “escola” de Elis.

“Dias e Noites”, composição do próprio cantor, é uma boa introdução que já deixa claro que não será uma ruptura com o trabalho anterior, mas que há mais para ele mostrar. “Partiu” foi feita sob medida para agradar. Até o primeiro refrão, parece uma música banal sobre viagens, mas a partir daí, a composição de Marina Lima daí constrói novos e belos significados. O piano pode estar em segundo plano, mas há arranjos ali que fazem a diferença. “Depois de Amanhã”, de Catto com Moska, não traz grandes inovações, mas os arranjos de sopro fazem a faixa valer a pena.

“Auriflama”, composta por Thelma de Freitas, tem versos e pulsos bastante tradicionais da Música Popular Brasileira. O que a diferencia são as camadas de guitarra. Uma delas faz um dedilhado, a outra fills, só que uma não completa a outro estilisticamente. Cada uma pertence a uma vertente diferente, trazendo algo de alternativo para a faixa. “Canção e Silêncio”, contribuição do Zé Manoel, é uma balada triste de fossa que inclui arranjos vocais bem vindos e um jeitinho de trilha para novela. “Do Fundo do Meu Coração” (Taciana Barros e Júlio Barroso) é bem interessante: traz uma guitarra rica de reverb. É bem menos MPB, com mais suspense e mais pop.

“Amor Mais que Discreto” é a composição de Caetano. Delicada, é verdade, com aquelas rimas e repetições que já são manjadas, que ele ajudou a tornar manjadas, e que Catto representa bem com sua vez, mas os maneirismo de Caetano estão lá presentes demais, reconhecíveis demais, para deixar a personalidade do gaúcho brilhar sozinha. Quando se trabalha com composições de outros, corre-se esse risco.

“Um Milhão de Novas Palavras” é quando a guitarra com distorção ganha proeminência e Catto se entrega ao rock. O instrumento, que foi bem utilizado para criar texturas e marcar a mudança de acordes nas faixas anteriores, assume aqui uma característica mais suja que pontua a gravidade e seriedade dos versos da dupla César Lacerda e Fernando Temporão. Feche os olhos e poderá te lembrar Cazuza.

“Iris e Arco”, composta pelo trio Tiganá Santana, Thalma de Freitas e Gui Held, é a melhor música de Tomada. Com uma produção enevoada, tornando o som menos cristalino, e amplo uso de atmosfera (até a percussão e o baixo reforçam o clima), especialidades dos discos com a mão de Kassin. É uma música misteriosa, com um refrão no melhor estilo Milton Nascimento. O tipo de produção que atesta a maior maturidade e Catto, sem excessos interpretativos. Não foge da tradição, mas também não deixa de incluir novas nuances.

“Pra Você Me Ouvir”, outra composição de Catto, é um rock anos 70, sujinho e vintage, com fuzz e uma enorme sensação de improvisação. Outra das melhores e mais surpreendentes faixas do disco, deve funcionar muito bem ao vivo. No entanto, a técnica vocal de Filipe para ela nunca é suja ou relaxada, como talvez pediria o rock. Seu canto parece sempre muito controlado e planejado e, assim, mesmo numa música que permite o caos como estética, sua técnica fica tão redondinha que destoa levemente. O que faltou foi entrar de cabeça e garganta na sujeira proposta pela guitarra. Quem fez essa incursão suja muito bem foi Thiago Pethit no ótimo Rock’n’Roll Sugar Darling (2014), embora deva-se levar em conta que Pethit quer ser um bom cantor, mas não totalmente técnico e controlador como Catto.

“Adorador”, do cantor e Pedro Luís, tem um trombone malemolente anunciando o fim do disco. E aí temos, novamente, um arranjo bem-vindo, na base da música, uma tradição que não larga do pé dele e se evidencia a cada passo. Pode ser uma questão de identificação com este tipo de formato de MPB, que não chega a ser tão sofisticada quanto o jazz e nem cai no samba, mas bebe de ambas as vertentes, uma hora propondo progressões de acorde de um, pausas e cadências do outro. Filipe ainda conta com uma pegada rock and roll em alguns momentos para dar uma temperada, mas nada que afaste ou que borre as fronteiras de seu som. Maria Gadú, revelação da MPB e dono de uma interpretação tão interessante quanto a de Catto, conseguiu romper com o tradicional logo no terceiro disco de inéditas, o bonito Guelã, assumindo uma guitarra cheia de efeitos e alguns toques de eletrônico em sua lírica própria.

Tomada volta a colocar Filipe Catto no mapa da música e de uma forma positiva. Apesar das considerações, o disco é atraente e tem um repertório bem escolhido, embora curto (11 faixas e nem 40 minutos de som). A voz ainda é sua principal marca e está irretocável, mas ainda precisa desenvolver uma sonoridade que seja mais marcadamente autoral, como figuras como Céu, Mariana Aydar, Vanessa Da Mata e até Tulipa Ruiz (embora já caminhando para uma vertente bem mais pop) vem fazendo. Ou não: a assinatura sonora de Catto será esta mesma dos dois álbuns já lançados e só não reconhecemos isso de uma vez por causa do peso das referências que esse estilo suscita. Referência que ele mesmo reconhece, já que a nota oficial de divulgação do trabalho reconhece que é uma busca “dos sons e temas que o aproximaram da música lá nos primórdios”.

De qualquer modo, não se intimide. Tomada é para ser abraçado e curtido. Retrato de um artista em franco desenvolvimento.

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