Sexwitch – SEXWITCH (2015)

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Bat For Lashes e Toy se unem para fazer música de ritual e te convidam para entrar no transe

Por Lucas Scaliza

Desde que ganhou alguma notoriedade no mundo indie, a inglesa Natasha Khan (que também tem sangue paquistanês em suas veias) nunca usou seu nome. Seus três discos solo respondem por Bat For Lashes e um após o outro mostraram uma artista em franca evolução. Se você já conhece e já pôde vê-la ao vivo, sabe que durante os dois primeiros trabalhos, Fur and Gold (2006) e Two Suns (2009), ela encarnou a jovem de influências célticas e astrológicas. Já seu lindo e mais maduro trabalho, The Haunted Man (2012) foi mais íntimo e romântico, e com alguma pontinha do reino mágico de Natasha. Ou seja, ela não é nenhuma novata no mundo musical das bruxas e do ocultismo.

Porque é nessa direção que SEXWITCH segue: música ritualística e de inspiração esotérica feita em parceria com a banda inglesa Toy e com o produtor Dan Carey. O disco não contém nenhuma composição de Khan, da banda Toy ou de Crey. São todas músicas folclóricas e psicodélicas da década de 1970 coletadas em diferentes partes do mundo (como Irã, Marrocos, Tailândia e regiões dos EUA e Canadá) e reimaginadas no contexto de uma banda de rock viajante.

Foto: Caitlin Mogridge
Foto: Caitlin Mogridge

A produção é bastante orgânica, refletindo exatamente o som um pouco abafado que esperaríamos de discos de vinil de 40 anos atrás. Além disso, a banda Toy aprendeu cada música em um único dia e gravaram logo na primeira tentativa. O que identifica que o disco não faz parte daquela época são as camadas de vozes de Natasha Khan, muitas vezes superpostas umas às outras. Depois de um tempo ouvindo SEXWITCH, fica a impressão de estarmos acompanhando uma festa hippie no meio de uma floresta, ou celebração com ayahuasca. Há muitos momentos em que os músicos parecem tocar para uma Natasha em transe – e, às vezes, até em êxtase.

“Na hora que a primeira nota soou, me senti tendo uma experiência fora do corpo. Senti muita adrenalina e poder, achei que meus pulmões iam implodir”, ela diz, ao relatar que foi preciso uma grande quantidade de confiança e rendição para entrar no clima do trabalho.

“Ha Howa Ha Howa” é uma música surtada que coloca ênfase no baixo e conduz a emoção do ouvinte como se fosse realmente um ritual. Tem um quê de improviso, como se a composição fosse apenas um grande loop de acordes e a banda estivesse livre para criar em cima dessa estrutura hipnótica e mística. As vocalizações se sobressaem à presença de letras. “Helelyos” tem mais ênfase na percussão e em uma pegada mais psicodélica e oriental. Natasha Khan canta versos mais planejados dessa vez. As camadas de som mostram que é menos improvisada, parecendo algo que o Bosnian Rainbows faria. O ritmo é sempre constante, reafirmando mais uma vez a impressão de ritual.

“Kassidar El Hakka” entra de cabeça no oculto oriental, com uma guitarra tensa e repetitiva e uma percussão bastante sombria. Com quase 8 minutos, é enervante e sua audição pode ser acompanhada de incenso, luzes estroboscópicas, danças e gritos primais. “Quando eu morrer voltarei para o lugar de onde vim”, ela canta repetidas vezes. Se precisar de uma música de forte apelo para magia, é esta. Khan performática entra em êxtase sexual.

De pura inspiração oriental, “Lam Plearn Kiew Bao” é tão meditativa quanto psicodélica em sua introdução, ficando mais popular, com versos mais regulares. Clima setentista e gravação bastante crua. É a canção mais tranquila do disco. “Ghoroobaa Ghashangan” volta ao clima psicodélico. O baixo conduz a música com intensidade por sua dinâmica que sobe e desce. E “War in Peace” é uma canção mais psicodélica e mundana, a única originalmente em inglês. Várias viradas de bateria e um clima hippie pesado e nevoento.

Qualquer um que já tenha participado de algum ritual ou de alguma celebração religiosa mística sentiu o quanto a música é importante para situar todos os participantes em um mesmo clima ou transe. Na umbanda, por exemplo, é importantíssima a presença dos gogans (músicos percussionistas) que dirigem a dinâmica do ritual. O que Sexwitch propõe é a mesma coisa, mas puramente através da música, sem que exista um ser superior ou qualquer entidade metafísica que precise ser alcançado (mas se houver algum, não tem problema, a música funciona também). Embora exista muito de new age (nova era) no trabalho, não confunda com a música chamada new age. SEXWITCH tem pegada e músicas poderosas, nada a ver com músicas “para relaxamento” ou meditação.

Natasha Khan às vezes canta, às vezes recita. Sua performance é notável e muito diferente do que conhecemos no Bat For Lashes. Lá havia uma interpretação mística ou romântica das coisas, mas aqui o buraco é mais em baixo, há mais caos, menos refrão, menos controle, mais espaço para tudo ir para os ares cósmicos das energias evocadas. Sentimos muita entrega da cantora em músicas como “Moon and Moon”, “Laura” e “Lilly” (no BFL) e aqui essa entrega ocorre em um nível muito mais catártico e espontâneo. E a libertação dela (seja estética, seja espiritual) pode tanto encantar quanto afugentar o ouvinte, dependendo das inclinações religiosas e ideológicas de cada um e do quanto estão dispostos a experimentar um tipo de música que não é comercial.

Como a própria banda diz, o conceito geral do projeto e do disco SEXWITCH é resgatar um antigo arquétipo feminino, arquétipo este que, em suas revelações mais sombrias, deu origem à mitologia das bruxas. Não por acaso, é um álbum de covers de músicas originalmente cantadas por mulheres em países onde há muita repressão da mulher e do feminino e até a música pop ocidental acaba reprimida. Mas não é um disco só sobre ser mulher, mas dos aspectos femininos que existem nos homens e nas mulheres, sobre homens e mulheres conectados com a natureza, com o poder, com a sexualidade, renascimento e regeneração.

É provável que Natashan Khan leve um pouco da experiência com o Sexwitch para o Bat For Lashes, que continua sendo seu projeto principal. O novo disco deverá sair ano que vem e será conceitual, ligado a um filme que a compositora escreveu. Seu trabalho solo é calcado na música eletrônica, embora ela se apresente ao vivo com apoio de músicos reais, mas vê-la em um ambiente totalmente diferente fazendo música obscura é um lembrete de que, mesmo no pop, ela sempre foi diferenciada. SEXWITCH é alternativo demais, mas cumpre bem seu estranho papel: propor uma experiência pessoal para a banda e para o ouvinte também.

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