Lana Del Rey – Honeymoon (2015)

Lana Del Rey - Honeymoon

Jazz noir e tragédia pop

Por Lucas Scaliza

A moça mais retrô do pop é também a mulher que trata o trágico com mais glamour. A Lana Del Rey que tratava de dinheiro, sexo e drogas de forma glamourizada em Ultraviolence ainda é a mesma, mas agora com ares ainda mais acentuados de drama e diva do cinema dos anos 20, 30 e 40. As notas agudas de violino em “Honeymoon”, acompanhas apenas por um discreto piano e pela voz trêmula da cantora, nos transportam diretamente para o mundo cinematograficamente preto e branco de Lana. É quase como um filme de suspense que se passa numa melancólica lua de mel (mas poderia ser um funeral também).

Meses atrás, ao anunciar que lançaria Honeymoon, um novo disco de inéditas, apenas um ano após Ultraviolence, Lana Del Rey disse que seria uma volta ao jeito de seu segundo disco, Born To Die (2013). Conforme novas músicas foram liberadas, previmos que: 1) não, não seria como Born To Die, já que não havia interferências perceptíveis de hip hop, R&B e pop rasinho; e 2) tampouco lembrava a produção orgânica que Dan Auerbachh (guitarrista e vocalista do The Black Keys e do The Arcs) produziu em Ultraviolence, combinando banda e orquestrações de uma forma bastante esmerada, mas ainda pop. Honeymoon é um grande álbum de baladas, todas lentas e com orquestrações, um acesso ao que há de mais essencial no estilo de Lana Del Rey, traçando um caminho ora mais pop dramático (como “Music To Watch Boys To” e “High By The Beach”) e outras mais jazz trágico (como “Terrence Loves You”).

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“Terrence Loves You”, aliás, é uma das melhores músicas do álbum. A interpretação sussurrada de Lana, o saxofone que nunca faz um solo propriamente, mas se esconde ali nos arranjos, tão frágil quanto a voz dela, e a gravidade do piano trabalham a favor da música. Se a abertura triste de “Honeymoon” não te convenceu, é “Terrence Loves You” que melhor opera um túnel do tempo até os anos 20 e o lado mais jazz de Lana.

Existem alguns detalhes melódicos espalhados pelo disco que ajudam a criar sons que identificam as faixas por si próprios. Contudo, é um disco bastante baseado em harmonias (sequência de acordes que compõem a música). Em todas as faixas percebemos sempre um instrumento marcando esse território: o dedilhado de “God Knows I Tried” serve tanto como uma espécie de marca como o enunciado da troca de acordes. As teclas do piano também são abaixadas no início de cada novo compasso, marcando novamente as trocas de acorde. As orquestrações ficam um pouco mais livres, mas ainda assim complementando as harmonias. Também não há bate-estaca.

“High By The Beach” dá um tempo no drama e coloca Lana em um ambiente mais viajado e levemente lisérgico – saem as bebidas destiladas de Ultraviolence e entra a erva. O clipe da música (que você já deve ter visto a essa altura) é segue a glamourização do crime mais uma vez. “Freak” parece pender para o clima noir também, mas com uma abordagem mais trip hop. “Art Deco”, mais uma viagem surreal, tem um sintetizador e um sax para apimentar a lentidão da faixa. Ela pesca referências aqui e ali, fazendo da faixa em parte um trip hop viajante com detalhes mais jazzísticos. Há quem diga que seja uma música para a amiga Azealia Banks.

Leitora de poetas americanos como Walt Whitman e Allen Ginsberg (ela recita Eu Canto o Corpo Elétrico, de Waltman, e partes de Uivo, de Ginsberg, no curta Tropico, em 2013), ela encontrou no curto interlúdio “Burnt Norton” um meio para citar o poeta T. S. Eliot (pode ser que “Honeymoon também seja inspirado no poeta, que escreveu um poema em francês chamado Lune de Miel). Se quiser se aprofundar nessas questões literário-musicais do mundo de Lana Del Rey, confiram os textos que a Raphaella Paiva publicou aqui 1 e aqui 2).

Eu tenho uma relação complicada com “Religion”, mas como trata-se de Lana, acho que isso é comum. Não acho uma das melhores faixas do disco. Não chega a empolgar, não é deprimente, não tenta pintar uma vibe específica como “High By The Beach”. Parece uma faixa padrão, com a letra bem dentro dos temas que ela gosta de desenvolver, como o amor obsessivo. “Não era sobre o dinheiro ou as drogas/ Por você, só há amor/ Não era sobre a festa ou os clubes/ Por você/ só há amor”, ela canta. Mas passo a gostar da faixa conforme ela se desenvolve. De qualquer forma, não está entre as melhores que ela já criou. “Salvatore” se dá melhor, com um clima bastante enigmático, uma vocalização bastante bonita e uma ótima utilização da capacidade vocal de Lana (ela é mezzo-soprano) na ponte para o último refrão. E não dá para deixar de notar como tudo fica mais dramático e italiano quando, sobretudo quando ela diz “Ciao amore”.

“The Blackest Days” é outra das minhas preferidas deste disco, com uma melodia bem trabalhada e que fica cada vez mais envolvente, sem deixar de pintar um quadro bem sombrio sobre um término de relacionamento. Cabe até um verso para citar Billie Holiday como meio de mergulhar ainda mais na fossa. Ele canta “The Blackest Days” sussurrando, em falsete e até com a voz entorpecida, uma interpretação dos estágios do luto, indo da negação até a aceitação na última estrofe. “24” não anima nada para ouvinte. Pelo contrário, até aprofunda o sentimento de abandono. E a voz dela quase some ante cantar o grave e lúgubre refrão de “Swan Song”, com a orquestração  acompanhando a dinâmica da voz. Por fim, um cover de “Don’t Let Me Be Misunderstood”, uma famosa canção de Nina Simone gravada em 1964. A versão de Lana vem com tons de matte, envelhecida cosmeticamente. Não é outro ponto alto do disco, mas mantém a veia jazz do disco. “The Other Woman”, que está em Ultraviolence, é um cover de Jessie Mae Robinson e também uma música que Simone cantava ao vivo.

Não há muito o que discutir ao considerarmos Ultraviolence uma obra mais madura que Born To Die. Em uma coisa Honeymoon tem méritos de sobra: mesmo que diferente do anterior, tem uma coesão estética bastante sólida. Sem histrionismos e sem precisar de nenhum hit pop açucarado ou pronto para a pista de dança. Embora sua música pareça sempre sépia ou um grande quadro em preto e branco, ela cita cores aos montes nas letras. Vermelho, amarelo, violeta, preto, azul, azul escuro, blues. São nuances que fazem parte do minimalismo que ela escolheu para envolver Honeymoon de sentidos e significados.

Doze das 14 letras do álbum são de autoria de Del Rey e do produtor, letrista e multi-instrumentista Mick Nowels, que co-escreveu com a cantora seis músicas do álbum do ano passado e coproduziu seus dois últimos trabalhos. Apenas com Lana e com o reforço do coprodutor Kieron Menzies, Nowels conseguiu secar os excessos da música dela e, enquanto a instrumentação está mais séria e expressiva em sua lentidão, dedilhados e saxofones que nunca solam, a interpretação vocal da mezzo-soprano salta ainda mais para o primeiro plano. Esperamos que toda essa performance de estúdio esteja presente ao vivo.

Born To Die guarda músicas que já fazem parte do repertório dos fãs de LDR, como “Video Games” e “Summertime Sadness”, mas como formato álbum é muito irregular. Os dois últimos são muito melhores nesse sentido. Além disso, Lana parece se distanciar da imagem dúbia que sempre carregou: agora ela se mostra um pouco mais compositora e artista do que a garota que sempre desconfiamos ter uma imagem projetada e bem cuidada por um time de RPs e publicitários. Veja bem, ela ainda tem uma assessoria que cuida milimetricamente de sua imagem, mas agora parece, com relação ao álbum, muito mais despida de artifícios. O clima transmitido pela capa (levemente ensolarado, litorâneo) não é exatamente o que encontramos nas músicas, muito mais próximas de Goldfrapp agora do que seguindo os erros de Madonna ou caindo no pop com pretensões radiofônicas. Até esse passo de maior maturidade e autenticidade pode ser planejado, mas o que importa é que Honeymoon é bem sucedido no que se propõe. E se esperava um pop mais raso, ele vai surpreender.

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Lana-Del-Rey_2015

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Comentários

    Lisa

    (18 de setembro de 2015 - 01:43)

    Apenas queria fazer uma observação, Lana não é Contralto, longe disso. Ela é uma Mezzo-Soprano, ela acessa várias notas gravíssimas, porém a voz dela não tem peso nem coloração de contralto, é uma Mezzo com facilidade em graves, apenas. Quer ver um Contralto de verdade? Ouça Cher ou Grace Jones e depois volte para a Lana, e veja a diferença. Ambas (Cher e Jones) tem a voz andrógina, pesadíssima, imponente, diferente da Lana. Beyoncé é uma Mezzo-Contralto que também tem a voz bem diferente da Del Rey. Madonna e MO, essas sim são da mesma classificação da Lizzy. Se duvida de mim, veja alguma live de Off To The Races, ela canta com uma voz infantil/ sexy. Se um Contralto fizer isso quebra a voz ao meio kkk, aliás, Contraltos, têm a voz quase masculina (às vezes até parece homem), diferente (de novo) da Lana. No mais, concordo com 90% da resenha, a minha música preferida desse álbum é Music To Watch Boys To. 🙂

      Lucas Scaliza

      (18 de setembro de 2015 - 03:07)

      Oi, Lisa. Obrigado pelo embasamento no comentário. Eu dei uma outra pesquisada no assunto e realmente, a maioria das fontes a consideram mezzo-soprano. Uma das discussões que acompanhei diziam que ela tinha os graves bons, de contralto. Enfim. Há uma lista de cantoras fora do clássico que são contralto e mezzo-soprano e Lana está em ambas. Acabo de perguntar para quem é do ramo e me explicaram que fora do canto erudito essas categorizações não são tão precisas, mas essa pessoa também considera Lana mais mezzo. Então obrigado pelo alerta, vou substituir o trecho. Já as minhas preferidas de “Honeymoon” são “The Blackest Days” e “Terrence Loves You”.

    Luís

    (18 de setembro de 2015 - 13:55)

    Adorei o álbum. Parece uma versão mais teatral, mais clássica do BTD. Em qüestão de letra, acha que essas são mais leves em relação ao Ultraviolence. Já a sonoridade é a melhor que td que ela já fez(o engenheiro de som que ela contratou fez ótimo trabalho!) Freak é a minha preferida, é a que mais combina com a temática de som do álbum, e é a mais madura e orgãnica de todas as faixas. Destaque tbm para Salvatore, Art deco, The Blackest Days, Terrence loves you, High by the beach e Swang Song(que também define mt bem o temática do Som)

    Raphaella Paiva

    (19 de setembro de 2015 - 00:32)

    Morta quando me avisaram que eu era citada aqui na análise hahauahu
    Aliás, ótima crítica, meus parabéns!

      Lucas Scaliza

      (19 de setembro de 2015 - 22:47)

      Obrigado, Raphaella. O seu texto sobre a Lana e as conexões literárias e audiovisuais dela também ficaram bem completas. Achei legal compartilhar.

    Henrique

    (20 de setembro de 2015 - 03:02)

    Uma das coisas que eu mais gosto nos álbuns da Lana del rey, é que eu posso imaginar uma história escutando o álbum. E é como se cada faixa fosse um capítulo da história. E Honeymoon não foi diferente. Se eu fosse um produtor de um filme de suspense, escolheria este álbum como a trilha sonora deste filme de suspense. Neste filme iria surgir um mistério em meio há uma Lua de Mel em que o marido morre, e a caberia a noiva descobrir o assassino de seu marido no meio de sua lua de mel em que se passava num hotel numa ilha no norte da Califórnia, E toda a história se passando na década de 70 hm…. É fácil sentir isso nas faixas de “Honeymoon”. O espaço sonoro que este álbum proporciona a quem escuta, é incrível! Ainda mais quando a pessoa imagina essa história de mistério escutando e sentindo o álbum. É espetacular o álbum.

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