Gary Clark Jr. – The Story Of Sonny Boy Slim (2015)

Blues, rock e música negra de Austin, Texas

Por Lucas Scaliza

Gary Clark Jr. lançou alguns EPs a partir de 2010 que culminaram com o sucesso de Blak And Blu (2012), seu primeiro álbum completo. O ótimo disco concorreu ao Grammy e expôs a boa mão do guitarrista para o blues e como poderia incorporar elementos do hip hop e da black music nele. Ao destaque do homem e de seu produto, seguiu-se uma longa turnê. Em 2014, Gary Clark Jr. voltou para casa: Austin, Texas.

O primeiro disco foi gravado na grande Los Angeles com a ajuda dos experiente Mike Elizondo e Rob Carvallo. Elizondo, que já produziu Dr. Dre e Eminem com sucesso, também co-escreve músicas com Jay-Z e Snoop Dogg, entre outros artista do rap. Ele também ajudou Gary a escrever boa parte de seu primeiro disco. Mas o músico não é nenhum menino e, já com 31 anos e boa experiência na música, principalmente agora que está voando solo, resolveu fazer um segundo disco inteiramente seu.

Em março de 2014 ele entrou no estúdio Arlyn, em sua cidade natal, e por lá ficou até maio, quando o novo disco foi mixado e masterizado. Além de si próprio, usou o engenheiro de som de seus shows, Bharath Cheex Ramanath, e o próprio engenheiro do estúdio, Jacob Sciba, para completar o time principal de produção. Como Gary não é bom compositor de estrada, todas as músicas novas foram compostas por ele no estúdio. Entre um verso e outro, uma sessão com sua guitarra ou microfone, ele tirava um tempo para cuidar do filho recém-nascido, Zion, que teve com a modelo Nicole Trunfio. E assim, no aconchego de um local que lhe é muito familiar, The Story of Sonny Boy Slim foi gerado, novamente misturando o blues a outros ritmos de origem negra. Gary não é um purista, afinal, mas mostra muito respeito pela música de que se apropria.

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“The Healing” já abre com uma canção antiga de lamento blues, para depois cair em um blues rock com Gary dizendo “Yeah” como um rapper, fazendo uma ponte entre a música negra do século 19 com a música negra de hoje. Tem algo de épico nesta faixa e um jeito meio ameaçador. Ele canta sobre o blues, a música que o liberta e que o cura, indo além da liberdade de expressão, tratando o essa música quase como um direito do homem. Em “Grinder” ele mantém o senso ameaçador, colocando sua guitarra no caldeirão com mais proeminência, solando ao longo da faixa toda. Aqui Gary mostra como faz bends, esticando as cordas até por dois tons ou mais (e segurando-as lá em cima). Para o final, o melhor e mais virtuoso solo do álbum. Não é uma faixa acelerada, o que faz suas notas soarem ainda mais urgentes e rascantes.

“Star” e “Cold Blooded” são funkeadas e levemente dançantes; “Our Love” é um soul. Nessas três faixas a voz dele vira falsete, como a do Prince. Certas namoradas(os) ao ouvirem “Our Love” poderão sacar o lado sensual da música e achar que ela combina com um strip tease. O R&B de “Hold On” produz um dos melhores ritmos do álbum e termina com um acorde ressoante, bonito e estranho, uma inspiração meio Hendrix. Mas a excursão de Gary pela música negra mantém tudo bastante acessível e com muito potencial comercial.

 

Em “Church” ele volta ao passado. A faixa é nova, mas sua roupagem é um pouco rústica de propósito, para emular as antigas e rurais músicas gospel dos EUA. Ele usa sua voz limpa e mais grave aqui, um violão em 3/4 com uma batida bem seca, uma gaita para os arranjos melódicos e versos que pedem a intervenção do Senhor. “Shake” é a mesma volta ao passado, mas agora trocando o violão pela guitarra. Soa como uma dessas canções retrô que Tarantino usaria em seus filmes.

“Wings”, com seu ótimo refrão, é uma das melhores do disco, reunindo o melhor de Gary Clark Jr.: o senso de ritmo e de arranjos, o complemente vocal de um coral de vozes femininas e o baixo que não acompanha a percussão. Enquanto o baterista enche de batidas o seu ritmo, o baixista se mantém no controle com poucas notas, pontuando a harmonia mais do que completando o ritmo. “Can’t Sleep”, logo na sequência, é excelente também. Mais uma linha de baixo legal e a Epiphone semiacústica de Gary no comando, marcando o ritmo com uma levada bem solta. O disco volta ao blues rock e ao senso de perigo com “Stay”. Timbres mais sujos e sopros distorcidos que nos levam até viradas mais doces. A guitarra do cantor polui todos os versos com fraseados bluseiros duros. “Down To Ride” foge do clima do álbum, trazendo uma produção mais eletrônica e moderna ao disco, mas também com um pouco de sensualidade.

De um lado, temos a música de Kendrick Lamar e Thundercat, que no meio de seus álbuns recentes colocam tantos temas comerciais e radiofônicos como faixas mais complexas e que exigem muito mais do ouvinte. De outro, podemos traçar um paralelo com Jack White, outro bluseiro, cantor, compositor e guitarrista que mantém o estilo vivo misturando-o ao country e ao rock, acenando sempre com respeito para o que foi criado anteriormente. E ainda temos D’Angelo fazendo o soul e o funk mais avançado do mundo usando zero de produção eletrônica. E o Prince ainda está por aí, aproveitando-se tanto do eletrônico quanto das habilidades orgânicas de seus músicos. Gary Clark Jr. é parte disso tudo: toca bem, canta bem, compõe bem e não afasta o público. Apesar de The Story Of Sonny Boy Slim ser muito acessível, suingado e cheio de groove, não parece um lançamento adolescente e nem chiclete. Está mais para um álbum cheio de vida e que reaproveita o passado mostrando como a história da música negra é forte.

Voltamos a “The Healing”: o Sonny Boy do título, que pode ser Gary, White, D’Angelo, Lamar ou Prince, é o garoto que aprendeu a amar a música e não a encara como mero entretenimento. É algo que lava sua alma, que tempera sua vida. E Sonny Boy, pegando elementos de dois séculos de música negra, nos lembra que estamos lidando com um bem cultural que transcende o mero produto. Mas é preciso ir além do disco e do artista para entender essa mensagem. Quem não quiser mergulhar nesse contexto, pode encarar The Story Of Sonny Boy Slim como entretenimento puro. Também serve muito bem para isso.

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