The Fratellis – Eyes Wide, Tongue Tied (2015)

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Feel good, animado, criativo e com certa malandragem

Por Lucas Scaliza

A banda The Fratellis é mais um grupo de rock escocês que mantém a tradição da cidade de Glasgow de sempre nos apresentar uma banda que vale a pena ouvir. São conterrâneos do Franz Ferdinand e do Mogwai, duas bandas importantes, cada uma a seu modo, e nenhuma delas parecida. O The Fratellis é um grupo que mistura rock inglês, country e western americano e uma boa dose de indie que não é amargo, nem derretido de amor e nem faz alusão ao britpop. Conseguem manter um som que mistura tudo isso de uma forma muito fluida. Após alguns EPs e três discos, chegam a Eyes Wide, Tongue Tied sem precisar repetir fórmulas passadas. Só seguiram com a malandragem.

O disco não é a explosão de energia e êxtase que foi We Need Medicine (2013), e nem tem todas aquelas guitarras altas. É um conjunto de músicas boas, criativas e que não deixam antever que o trio que as compôs é escocês. Parecem, de certo modo, americanos saídos de algum lugar entre Nova Iorque e Ohio. Ao mesmo tempo, a energia e o bom aproveitamento do formato trio está mais para os ingleses do The Cribs do que para os conterrâneos do Franz Ferdinand.

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“Me and The Devil” é a música mais diferente que já gravaram. As guitarras arrefecem e deixam baixo e piano conduzir a canção. O clima é o mesmo que o Jack White impõem às faixas que interseccionam o blues e o country em seu repertório, como “Three Woman”. Uma música muito boa e que não remete imediatamente aos trabalhos anteriores do grupo. Agora imagine um filme independente. Bicicletas, uma rua, um subúrbio, casas coloridas. Imagine-se vendo esse filme em Sundance. É esse clima que passa o country indie que é a música “Impostors (Little by Little)”. Tente não ser contagiado por seu refrão. “Desperate Guy” é outra cheia de feel good. Não há como se sentir envolvido. É a faixa que dá seguimento a aquele hipotético filme independente de Sundance.

“Baby Don’t You Lie To Me!” é a primeira a colocar guitarra mais à frente. Bem jovem e quase dançante. Não é a toa que foi escolhida para ser o primeiro single do álbum, pois é a que mais se parecesse com o que o The Fratellis fez em Costello Music (2006) e Here We Stand (2008). “Thief” é difícil de descrever de forma eficiente, mas é muito legal. A princípio achei ela um pouco estranha, mas ouvindo o disco repetidas vezes a faixa subiu no meu conceito até eu considera-la uma das melhores de Eyes Wide, Tongue Tied. Esses escoceses sabem manter o ouvinte interessado.

“Dogtown” parece que não vai chegar ao nível das outras, mas aí vem o seu solo de sopros para resgatar a dignidade criativa do trio. “Slow” é a balada do disco que talvez tenha a estrutura mais normal para os padrões do rock feito nas ilhas britânicas, porém trabalham muito bem o crescendo, colocando não só sobra de distorção de guitarra, mas teclados para complementar o som. E a voz frágil de Jon Fratelli dá um charme especial ao resultado final.

“Rosanna” parece até uma faixa do Manic Street Preachers. “Too Much Wine” não tem tanta imaginação quanto o resto, mas ganha em agito e em excelentes timbres de guitarra e baixo. E assim como o disco começou de uma forma inesperada, ele termina com “Moonshine”, outra que não fazíamos ideia do que seria até ouvi-la.

“Me and The Devil” e “Desperate Guy” mostram como os arranjos ficaram mais sofisticados e os efeitos de estúdio podem ser bem vindos para complementar a sonoridade do grupo. Afinal, não é preciso ser uma banda ambiciosa de rock progressivo para ter soundscapes que funcionem bem. Ou então podemos usar “Moonshine” como exemplo, que se baseia toda na capacidade de Jon de cantar e fazer belos arranjos de guitarra, misturando licks, dedilhados e uma base rítmica ensolarada.

O Wilco é a banda que faz um som que, no substrato, é bem fácil de acompanhar. É sua superfície que acaba arranhada por solos, dedilhados, arranjos e efeitos que subvertem a canção, levam alguma estranheza a algo que seria comum. E aí está o “tcham” da banda. O Fratellis é ligeiramente diferente: eles constroem a música não nessas duas camadas, mas em apenas uma fazem a base conter as diferenças que nos parecerão interessantes, como mostram “Dogtown”, “Getting Surreal” e “Thief”. Existe um fator de imprevisibilidade na composição deles.

Ainda assim, o rock do trio não é sofrido e nem down, nem mesmo desesperado como o do Titus Andronicus. É feel good e inofensivo, mas vivaz e cheio de personalidade. Embora tenham ganhado prêmios britânicos de banda revelação entre os anos de 2007 e 2008, o The Fratellis ainda não é um major act. Falta de potencial criativo e comercial é que não deve ser a causa. Ou então o público está tão acostumado com as músicas retilíneas e previsíveis do pop que as viradas malandras dos Fratellis podem lhes parecer excêntricas.

O guitarrista e vocalista Jon Fratellis (John Lawler), o baixista Barry Fratellis (Barry White) e o baterista Mince Fratelli (Gordon McRory) mantiveram a personalidade e o humor em Eyes Wide, Tongue Tied, colocaram algumas surpresas na produção do som (veremos como serão executados ao vivo) e assim não precisaram fazer mais do mesmo. O produtor Tony Hoffer, o mesmo de Costello Music, foi um dos responsáveis por acompanhar a banda durante as gravações em Los Angeles e ajudou o trio a encontrar a melhor expressão para cada faixa. No final das contas, é um álbum diferente dos demais, mas veja, ainda é a cara da família Fratelli.

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Foto: Tom Oxley

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