Tobias Jesso Jr. – Goon (2015)

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Singelo nas letras e cuidadoso nos arranjos, Tobias Jesso Jr. consegue “comunicar” seus sentimentos

por brunochair

Em 2012, Tobias Jesso Jr. transitava pela cidade de Los Angeles com a sua bicicleta. Decidiu sair por aí para arejar a cabeça, pois havia recém terminado um relacionamento amoroso. Não estava bem, obviamente. O que era para ser uma pedalada despretensiosa terminou em um atropelamento: um Cadillac jogou-o para fora da rua. Machucado, ensanguentado, Tobias ainda pôde ver o motorista do Cadillac passando por ele e acenando. O cara deu um tchau! E vazou.

Como desgraça pouca é bobagem, no dia seguinte o rapaz foi avisado pela família que sua mãe havia contraído um câncer (apenas para constar, ela curou-se da doença). Tobias não pensou duas vezes: retornou à sua cidade natal (Vancouver, Canadá) para ficar próximo da mãe, já que a sua carreira em Los Angeles como músico não estava lá também essas coisas. Ou seja, Tobias estava no fundo do poço. E se houvesse mais fundo para o poço, lá estaria o rapaz.

De volta à Vancouver, Tobias Jesso Jr. experimentou tirar o pó de um antigo instrumento da irmã, instrumento este que ele não possuía muita familiaridade e interesse: o piano. Assim como Kamasi Washington com o sax tenor, Tobias Jesso Jr. descobriu-se, como músico, no piano. Boa parte das músicas desse seu disco de estreia (Goon) foram compostas e criadas tendo como base principal este instrumento de cordas.

E assim, envolvido por este contexto bastante desfavorável da vida que as músicas do álbum Goon foram surgindo, como mote ou válvula de escape, alívio dos problemas que vinha enfrentando. Nesse primeiro momento (por exemplo) o cantor compôs uma das músicas mais belas e interessantes do disco, “Just a Dream”, em que a letra narra algo além de um relacionamento rompido, que é uma criança: o fruto deste relacionamento, enquanto ele ainda reluzia.

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Tobias enviou algumas demos para Matthew E. White, também cantor e produtor. A partir daí, Goon começou a ter o suporte necessário para nascer. O próprio Matthew é responsável pela produção de boa parte do disco, que conta também com os préstimos de Patrick Carney, baterista do Black Keys, e Ariel Retchtshaid, produtor bastante conhecido e que já produziu discos de bandas como Haim e Vampire Weekend, além dos trabalhos solos do Brandon Flowers.

Goon é um disco extremamente sentimental, e reflete o próprio estado de espírito do seu criador. Os arranjos são bonitos e alegres, e iludem facilmente o ouvinte de primeira viagem. Após uma audição mais atenta, o ouvinte pode verificar que o disco fala sobre perdas, tristezas, amores que se vão. As letras são singelas e pequenas, mas tornam-se gigantescas nas melodias produzidas e na voz de Tobias Jesso Jr. A grandiosidade está na singeleza de tudo, na habilidade em trabalhar o piano como base de tudo, dar a ele o protagonismo das canções.

Vez ou outra, surge uma percussão, um efeito de reverb. São poucos, dão um toque contemporâneo para as canções. A música que destoa dessa linha é a ótima “The Wait”, um folk-country que nos remete aos trabalhos do Bread. Falando em influências, Tobias Jesso Jr. parece ter bebido bastante na década de 70: artistas solo como Randy Newman, Harry Nilsson, Elton John e Paul McCartney (pós-Beatles) estão muito presentes em Goon, seja no método de composição, seja nas letras.

Em um ano em que os homens estão à flor da pele, demonstrando seus sentimentos em forma de música (Father John Misty e Sufjan Stevens, cada qual a seu modo, são exemplos disso) o disco de estreia de Tobias Jesso Jr. também consegue alcançar este patamar desejado. Músicas como “Can’t Stop Thinking About You”, “Without You” e “How Could You Babe” transpõem o nível confessional, e conseguem dialogar diretamente com o sentimento das pessoas (independente do gênero) em razão deste amplo cuidado com as palavras e arranjos. A fossa pela fossa não tem muito significado, se o interlocutor não tiver a capacidade de conseguir comunicá-la. Tobias Jesso Jr. conseguiu alcançar o seu objetivo.

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Comentários

    Marcelo

    (19 de agosto de 2015 - 01:51)

    Ouvi esse disco há uns 2 meses e gostei muito.Especialmente da música Hollywood com vocal e piano que lembram Paul McCartney /Wings.O disco tem um clima retrô e melancólico com belas melodias ao piano.Outra favorita é Can We Still Be Friends.

      brunochair

      (20 de agosto de 2015 - 15:40)

      Marcelo, você escolheu as músicas mais McCartney como preferidas! hehehehe. as que ele manda um timbre de voz parecida com a do Paul. Gosto da “Can We Still Be Friends” também, mas “Just a Dream” tem uma letra bem legal. Acaba que é a minha preferida.

    Adele – 25 (2015) | Escuta Essa!

    (19 de novembro de 2015 - 23:42)

    […] (segundo single) é bem mais incorpada que “Hello”: foi composta em parceria com Tobias Jesso Jr., novato cantor que também lançou álbum em 2015. “All I Ask” é uma canção pop […]

    […] que podem ir desde os setentistas Elton John e James Taylor, mas também o contemporâneo Tobias Jesso Jr. Algumas canções chegam até a confundir o ouvinte de primeira viagem (ou mesmo aqueles que não […]

    […] abre com um texto lido por Samuel L. Jackson. “Still Around” é uma parceria com Tobias Jesso Jr., o queridinho de 9 entre 10 cantoras. A quase inocente, mas épica, “I’ll Be […]

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