FKA Twigs – M3L155X (2015)

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Ainda mais madura, FKA Twigs mantém a pegada futurista de seu trip hop

Por Lucas Scaliza

O trip hop de FKA twigs sempre teve um caráter espacial. Espacial também como um som que parece vir do espaço ou emular uma viagem de ficção-científica, mas falo aqui do espaço físico mesmo, do espaço entre uma nota e outra, de uma batida a outra, de como sua voz preenche um canal aparentemente vazio da música. É uma trilha sonora e tanto para coreografias de dança contemporânea, sempre dispostas a inovar na questão espacial, diferente do balé clássico e neoclássico que dependem tanto da cênica de um palco. É provável que o lado dançarina da inglesa influencie a organização estrutural de sua música. Isso tudo estava presente em seus dois primeiros EPs (de 2012 e 2013), em seu primeiro álbum completo, LP 1 (2014) e continuam fortes como estilo em M3L155X, seu recém-chegado EP.

Nele, temos um breve resumo (menos de 20 minutos) dos sons que formam a música de Tahliah Barnett, que não se resume a hip hop e eletrônico, como podemos ser levados a crer a princípio. Ela fez aulas de canto de ópera, balé clássico (ou seja, foi exposta por muito tempo à música erudita), jazz (seu pai era muito fã), tinha contato com a Vogue desde sempre e curtia a música punk. Se pensou em Björk, saiba que essa associação já é feita há três anos pelo menos, e tem motivo para existir: embora você não confunda o som de uma com a outra, e nem a voz, há a mesma tensão nas obras das duas, há mesma vontade de incluir o que é diferente e inesperado. Além disso, a performance ao vivo, a dança e o vídeos são tão importantes quanto a música em si, algo que também completa o trabalho da islandesa. Aliás, o DJ Arca já contribuiu com Barnett em seu LP1, ele que também deu uma mão para a Björk em Vulnicura.

fka twigs 1

“Figure 8”, que abre M3L155X (também chamado de EP3), é um exercício de espacialidade musical. Você sente o vácuo nos espaços entre as batidas, formadas não só por um bumbo eletrônico, mas também por sinais percussivos e ruídos. E o compasso, que passa de 4/4 para 9/4 em seu segundo ato, só aumenta a impressão de que a música se desenvolve de uma forma diferente. “I’m Your Doll”, que ela começou a compor ainda antes do primeiro álbum, é econômica a princípio, mas basta passar da metade de seus 3 minutos para que um delicado amontoado de ruídos formem a harmonia irregular da música, incluindo aí uma pesada distorção. E a letra, cantada de forma frágil e quase sussurrada, é sobre tudo o que ela não é: a boneca de alguém.

“In Time”, escrita logo depois do lançamento de EP1, é a música que mais aproxima seu som do R&B neste novo EP e, apesar de toda a estranheza que pode causar, é a mais acessível do trabalho, já que a estrutura é menos… hummm, digamos, caótica que as duas primeiras faixas. “Glass And Patron” se sustenta no ótimo vocal de FKA twigs (que lembra os momentos mais experimentais da Madonna) e em batidas sintetizadas que são também muito bem utilizadas pela Björk. A linha vocal que ela escolhe para essa faixa não segue nenhum padrão, aumentando a diminuindo a dinâmica sem prévio aviso. Um som digno de filme futurista, como é toda a sua discografia até agora.

“Mother Creep” poderia ser um R&B padrão e bastante radiofônico, principalmente pela beleza de seu refrão, mas nada é tão simples na arquitetura sonora de Tahilah Barnett, e ela frustra qualquer propensão ao pop mainstream com batidas que não são constantes, efeitos eletrônicos caóticos e distorcidos e um final seco.

De forma geral, é como se faltasse uma base, um alicerce para a música de FKA twigs, fazendo com que todas as faixas pareçam flutuar livremente, presas a métrica musical de maneira muito frágil. Isso ressalta aquela sensação de espacialidade que evoquei no primeiro parágrafo. É tanto uma viagem quanto uma sensação de queda livre. Em seus outros trabalhos sentíamos leves flertes com o jazz, e até a utilização de baixos acústicos, mas essa vertente de suas influências não faz parte deste terceiro EP.

M3L155X é, de fato, Melissa, nome que Barnett diz dar a sua energia feminina. Não é uma alter-ego, segundo ela, mas só uma forma de se referir a essa “energia” de modo a não confundi-la com o seu eu mais aparente e visível.

Mais uma artista que tenta tomar o máximo de rédeas possível de sua carreira, contando aí administração e direção artística, ela não só cria a música e o conceito por trás de todos os seus lançamentos como também está a frente de todos os vídeos que faz. Para M3L155X, por exemplo, fez um média metragem de 15 minutos dirigido por ela mesma. Começa com uma velha misteriosa, assustadora e vaidosa, passa para a cantora representada como boneca inflável (e aí entendemos de que tipo de boneca ela está realmente falando – e que tipos de abusos poderia sofrer), torna-se uma mulher grávida, cenas de dança hip hop e dança contemporânea e chega até o meio de um bosque com uma passarela de desfile de moda. Tudo artisticamente muito bem cuidado e dando conta de quase todos os elementos que orbitam ao redor de FKA twigs e sua música.

M3L155X é um ótimo EP que mostra uma constante maturação na forma como a cantora, compositora e performer manipula os aspectos artísticos e técnicos ao seu dispor para criar uma música que é pop, mas difícil de digerir. Entre as artistas contemporâneas, FKA twigs é aquela que mais coragem tem de impor a personalidade. Além de ser uma música impossível de ser reproduzida ao vivo por uma banda, é um tipo de criação sonora que ninguém mais, além dela, reproduziria.

spotify:album:7rSESybi14vAuEVzkipODD

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Comentários

    Halsey – Badlands (2015) | Escuta Essa!

    (26 de agosto de 2015 - 20:11)

    […] bem, dá até impressão que Halsey vai tentar umas batidas diferentes e caóticas, na linha da FKA twigs. Mas conforme a faixa e o disco seguem, percebemos que ela não está tão interessada em fazer sua […]

    […] pelo menos não para um álbum inteiro, nem que seja curtinho como HITnRUN, que tem só 38 minutos. FKA Twigs por outro lado está experimentando como gente grande em EPs de 15 minutos tão complexos que […]

    Raury – All We Need (2015) | Escuta Essa!

    (16 de outubro de 2015 - 13:07)

    […] que sua musicalidade abarca. Criativo e experimental, mas sem ser um virtuoso do experimento como FKA twigs, carismático sem fazer música que grita por atenção mainstream. O disco chega a ser estranho […]

    Arca – Mutant (2015) | Escuta Essa!

    (5 de novembro de 2015 - 17:27)

    […] de ponta da música eletrônica alternativa, ainda mais depois de produzir boa parte do LP1 da FKA twigs, seis músicas para Yeezus do Kanye West e de dar uma mão para Björk em seu Vulnicura, o que […]

    […] a rainha do drama e do retrô; Lorde e sua economia de meios para fazer dream pop nada alienado; e FKW twigs como a outsider criativa que une R&B e eletrônica de maneira […]

    […] Ou ainda mais moral, pois suas habilidades como produtor já haviam sido usadas por Kanye West e FKA Twigs, além de terem sido usadas como complemento aos visuais de Jesse Kanda em uma exposição no MoMA […]

    […] Outra sacada está em “Chance”, música de batidas esparsas e clima onírico (ecos de FKA Twigs). Em um dueto, Dev Hynes e Kelsey Lu  cantam sobre um negro no meio de uma plateia de brancos que […]

    […] T ⚄ ⚄”   tem batidas pesadas e processamento de voz que fazem a faixa parecer mais Björk ou FKA Twigs do que Bon Iver. É a coisa menos folk que Vernon já gravou (mas nem por isso deixe de conferir). […]

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