Enfant – Ellipsism (2015)

enfant elipsism

O que poderia ter sido e não foi

por brunochair

Nas pesquisas musicais web afora, de vez em quando me deparo com novidades inusitadas. Geralmente, encontro bons trabalhos por aí, num contexto “fora do eixo”. Artistas que trazem (na bagagem) influências da música universal, e que sobretudo conseguem adicionar a ela um sem-número de referências regionais, que dão o toque criativo necessário para impulsionar a música, elevá-la a outras condições e patamares. Neste sentido, o Lucas Scaliza possibilitou a nós conhecermos bandas islandesas como Sólstafir e Árstíðir, enquanto eu apresentei os italianos do Barock Project e a world music australiana do Hiatus Kaiyote.

A banda da qual iremos tratar agora também foge um pouco do convencional. O Enfant é uma banda criada em La Paz (Bolívia) em 2008. Na realidade, trata-se de um projeto musical que envolve dez músicos, provenientes de um coletivo artístico boliviano conhecido por El Otro Baile. Neste álbum Ellipsism (o segundo disco deste projeto) além dos integrantes já existentes, o Enfant convidou outros artistas para participaram da gravação, como é o caso da cantora Verónica Pérez e o saxofonista Afonso Ugarte. O disco foi composto por três dos integrantes do Enfant: José Auza, Bernardo Paz e Christian Ayllón.

Banda boliviana… interessante, não? O mais interessante é a quantidade de arte que consumimos de países como Estados Unidos e Inglaterra, e quando temos que listar artistas sul-americanos temos dificuldade de chegar ao número de quinze, vinte. Procuro lembrar um artista boliviano que eu tenha conhecido, e não chego a nada. Só consigo lembrar da cultura popular boliviana, um misto de cores, aromas e flautas. Sinceramente, antes do Enfant não conhecia uma “persofinicação” da música boliviana. Uma pena… música criada próxima a mim, próxima a nós, que desconhecemos completamente. E música de qualidade, como poderei observar adiante.

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Sobre o nome do disco: Ellipsism é uma palavra criada por John Koenig, em seu projeto chamado “The Dictionary of Obscure Sorrows”. A ideia deste projeto é criar palavras que consigam oferecer uma ideia sobre sensações e sentimentos. Ellipsism transmite a ideia de algo que poderia ter sido e não foi, por conta de escolhas individuais.  Outra coisa que chama a atenção são os nomes das músicas: todas elas possuem nomes de mulheres. “Edvarda”,”Gretchen”, “Cristina”, “Camila”, “María”, “Leonora” e “Victoria”. Todas estas mulheres são personagens de livros do escritor norueguês Knut Hamsum, prêmio nobel de literatura em 1920.

Poderia ter sido e não foi. Ellipsism. O que poderia ter sido é um vazio, perene e (em alguns momentos) perturbador. É esta a sensação que o Enfant procura passar, através das músicas de Ellipsism. É este o quadro que podemos notar, música após música. A inquietação, o silêncio. A música universal aliando-se à música regional, para dar vazão ao que é – a música reelaborada e personificada do Enfant.

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É perceptível a influência da música tradicional (e autóctone) boliviana em alguns arranjos de violão e na percussão, mas é igualmente perceptível o quanto o coletivo traz de influências bandas como o Genesis na fase de Peter Gabriel (nos momentos mais introspectivos) e do The Mars Volta, nos momentos em que as músicas tomam um caminho mais primitivo. Pelas referências internacionais, podemos dizer (portanto) que é um álbum de rock progressivo? Na falta de uma designação mais precisa, sim. Embora não seja suficiente para precisar o que o Enfant é, de fato.

Pode-se dizer que o álbum é conceitual, por tentar trabalhar várias concepções artísticas. As referências ao vazio da palavra e das emoções, dispostas em música. O que poderia ter sido, e não foi. Ellipsism. Além disso tudo (que não é pouco) o álbum possui a produção de ilustração de Rosemary Mamani, que confeccionou a capa e toda a arte gráfica que envolve o disco. Enfim, um excelente disco criado por nossos irmãos da América do Sul, que deve ser apreciado com bastante atenção.

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Comentários

    Marcelo

    (8 de agosto de 2015 - 23:35)

    Já que esse texto é sobre uma banda boliviana sugiro a estoniana Tartu Popi Ja Roki Instituut.Em inglês,Tartu Pop and Rock Institute.Pop neo psicodélico de excelente qualidade.Eles tem 3 discos pela gravadora Minty Fresh,conheço os de 2013 e 2014,cantam em estoniano e inglês.O disco mais recente é Marienbad ,lançado em 2015.

      brunochair

      (8 de agosto de 2015 - 23:41)

      Vou conferir, Marcelo. Muito grato pela indicação. Espero que tenha gostado do Enfant. Abraços

        Marcelo

        (9 de agosto de 2015 - 12:45)

        Esse disco do Enfant é interessante pela idéia de fusão de estilos,que é uma tendência atual, mesmo no mainstream.Tem hard rock,música regional ,folk ,partes instrumentais que lembram a música produzida pelos grupos do movimento rock in opposition nos anos 70/80 e talvez mais coisas ,é um disco pra se ouvir mais vezes.
        Ainda sobre o grupo Tartu Popi,um link de acesso rápido para ouvir um disco deles está no Bandcamp .
        http://seksound.bandcamp.com/album/biidermeier-ps-hhedeelia
        Aliás também é possivel ouvir todo o disco elipsism do Enfant lá.
        http://filiumexmachina.bandcamp.com/

    brunochair

    (10 de agosto de 2015 - 01:21)

    ouvirei. espero resenhá-lo em breve para o blog. abraço

    […] e ver o que mais vem por aí. (Se quer uma dica de rock com influências regionais, confira o Ellipsism dos bolivianos do […]

    […] discos sem qualquer referência, e foram gratas surpresas, como é o caso de Barock Project e Enfant. Neste caso, ouvi a canção “Why ii Love The Moon” do Phony Ppl e fiquei bastante […]

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