The Chemical Brothers – Born In The Echoes (2015)

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Dupla de Manchester continua avançando, mas sempre dando aquela olhadinha para trás

Por Lucas Scaliza

Faz 20 anos que Exit Planet Dust (1995), o primeiro disco do Chemical Brothers, foi lançado, uma obra seminal para compreender para onde a disco e a música eletrônica havia evoluído até meados dos anos 90 e como ela começou a se desenvolver a partir dali. Era tudo eletrônico, mas tínhamos a impressão de ouvir uma banda real tocando, principalmente bateria e baixo. Havia algo de banda de rock, não nos moldes do Prodigy, mas bastante jeito inglês de ser criativo e experimentar. E já no primeiro álbum víamos que a dupla de Manchester Tom Rowlands e Ed Simons seguiam diretrizes diferentes, mas a mesma intenção artística que os franceses do Daft Punk.

E faz 10 anos que lançaram Push The Button, quando a mudança no status quo da música eletrônica e dance já estava consolidado (graças ao Chemical Brothers, ao Daft Punk, ao DJ Fatboy Slim, ao Prodigy e a tantos outros DJs e produtores): o bate-estaca era palavra de ordem na pista e chegou à música mainstream, um elemento que perdura até hoje e invadiu os refrãos de artistas pop e até de rock.

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Há 5 anos sem lançar nada novo, eu estava meio cético quanto ao novo disco do Chemical Brothers. Mas Born In The Echoes me traz a mesma sensação que tinha ao ouvir Exit Planet Dust: um duo eletrônico que faz música que parece metade banda, metade máquina, cheia de vontade de pular alguns anos e alcançar logo o futuro. A única diferença é que, ouvindo novamente a estreia da dupla inglesa, fica claro como lhes parecia o futuro. E agora que o futuro chegou, não temos mais essa preocupação. Mas há experimentação (eles ainda estão tentando propor novos meios para o gênero em que se inserem) sem nunca tirar os quatro pés do chão. Isso faz com que Born In The Echoes seja bastante acessível a qualquer ouvinte (inclusive aos novos) e ainda entrega músicas para que velhos fãs e interessados em música eletrônica sintam que eles continuam interessantes.

Eles já possuem oito álbuns de estúdio, um ao vivo e uma trilha sonora de filme (Hanna, de 2011).  Assim como no début havia ótimas faixas como “Leave Home”, “Chico’s Groove” e “Life Is Sweet”, havia outras que dependiam mais da paciência. Born In The Echoes também segue alternando momentos bastante empolgantes com outros mais burocráticos, mas as boas faixas superam as não tão boas em larga medida, felizmente.

 

“Sometimes I Feel So Deserted” é aquela faixa de abertura típica dos irmãos químicos que brinca com ritmos, ruídos e sinais eletrônicos que vão constituindo a melodia da canção. Uma faixa construída com os anos 90 em mente, até parece. Mas a força do álbum surge mesmo com “Go”, com ótimo vocal de Q-Tip (que também participou de Push The Button), sempre completado por uma linha excelente de baixo. Essa é a faixa que te faz enxergar porque você precisava de um novo disco dos ingleses. Lembra também uma daquelas boas faixas do Moby dos anos 90. “Under Neon Lights”, com vocais de St. Vincent (creditada com seu nome real, Annie Clark), é outro acerto, mantendo um clima mais tenso e arrastado. Já o acid-house “EML Ritual” e “Just Bang” exige um pouco mais de paciência.

“I’ll See You There” é outro desses momentos iluminados de Rowlands e Simons. Uma bateria incrível, um sintetizador (ou seria guitarra com efeito de sintetizador? Não sei dizer!) fazendo escalas indianas enquanto o baixo vai encaixando linhas melódicas na base. Uma visceralidade que faz a música eletrônica se comportar da música feita por uma banda de rock, soul ou funk. Eles não tem medo de fugir do formato quadradinho e conseguiram com “I’ll See You There” uma das melhores músicas da carreira.

“Reflexion” também pode desagradar ao ouvinte mais impaciente, mas é uma composição com camadas sobrepostas de teclado e sintetizador que fica entre o ambiente e a experimentação. “Taste of Honey” tem a piração de colocar como um dos elementos da música um zumbido de abelha. É bem arrastada e parece uma experiência sonora que o The Flaming Lips faria em um de seus mais recentes álbuns.

“Born In The Echoes” traz o big beat e o groove que o Chemical Brothers ajudou a desenvolver há 20 anos com vocais da galesa Cate Le Bom. Uma faixa mais interessante do que marcante. “Radiate” é quente e convidativa, o momento mais lento e terno do álbum e que menos carrega em si o DNA dos anos 90. A acessível “Wide Open”, com vocais de Beck, concluí Born In The Echoes deixando a certeza de que o Chemical Brothers avança, sim, mas sempre virando a cabeça para olhar para trás e ver o que podem reciclar ou desenvolver a partir do que foi feito há 10, 20 anos.

Diferente do Prodigy que com The Day Is My Enemy mostrou vigor, mas a mesmíssima música de sempre, Rowlands e Simons tentam equilibrar novas sonoridades com o que já são formas conhecidas de longa data do público. Mas mesmo com sua música mais acessível, o Chemical Brothers nunca cai na música eletrônica comercial, nunca é uma entrega de músicas simplistas como faz o David Guetta. Há muita música para pistas, sim, mas músicas que o DJ deverá saber executar e/ou remixar para que cumpram bem seu papel.

Resumiria o disco em quatro ótimas faixas: “Go” e seu poder de batida e de refrão, juntando o hoje e o ontem; “I’ll See You There” e sua caótica fuga do eletrônico, mesmo sendo eletrônica (ouça e descubra porque tantas bandas, como Metallica, já quiseram colaborar com a dupla) ; “Radiate” e seu clamor por transcendência; e “Wide Open”, acessível mas não besta, bem construída e capaz de te convidar para dançar uma última vez. Mas todo o resto também conta, pois, como Dorian Linskey notou muito bem para o The Guardian, “o coração do Chemical Brothers reside nesses pequenos barulhinhos” que permeiam todas as faixas e estão ali para serem notadas. E se você notar, vai ver que o bate-estaca está presente, só que é muito menos importante para eles e para a música agora. Sem querer, o recurso é muito mais importante para DJs e produtores mais preocupados em serem celebridades do que artistas.

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Comentários

    Rafael Fidelis

    (25 de julho de 2015 - 06:15)

    Ow, review maneiro! Pra mim “EML Ritual” tá lado a lado com ‘Go’ como destaque nesse album, o baixo de ambas as músicas são muito ritmicos e bastante dançantes, mas ‘EML Ritual’ é bem mais caótica e sinistra.

      Lucas Scaliza

      (25 de julho de 2015 - 11:28)

      Tem razão. Eu ouvi o disco outras vezes após escrever a resenha e prestei mais atenção à EML Ritual. Está mesmo incrível.

    […] boas surpresas e novidades ainda não acabou. Já tivemos os excelentes Currents do Tame Impala, Born In The Echoes do The Chemical Brothers, The Beyond/Where The Giants Roam do Thundercat, Estado de Poesia do Chico […]

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