REM by MTV (2014)

rem-mtv

REM ganha documentário que repassa a carreira e define porque a banda entrou para a história

Por Lucas Scaliza

Em setembro de 2011 a internet foi tomada por uma onda de pesar, lamentação e saudades instantâneas pelo que havia acabado de chegar ao fim, sem aviso prévio: o fim do REM. Eu fui um daqueles que descobriu a banda tardiamente, em 2000, por meio de um The Best Of e, logo depois, pelo álbum Reveal (2001), ambos de minha irmã mais velha. Mas acabei explorando a discografia pregressa e vindoura dessa banda americana com uma curiosidade e voracidade maior do que a dona daqueles CDs que ouvi até riscar, até o encarte amassar, até a embalagem plástica quebrar.

Quando a banda anunciou que ia se separar – e era sério –, logo depois de lançar o incrível último disco, Collapse Into Now (2011), que nem turnê teve, eu quase chorei por Michael Stipe (vocal e letras), Bill Berry (bateria), Mike Mills (baixo) e Peter Buck (guitarra). Quase.

Recentemente a saudade foi abrandada pelo lançamento do REM by MTV um documentário que aproveita entrevistas e aparições da banda na emissora musical para recapitular toda a história de um dos grupos mais ímpares do rock alternativo.

rem624

Para começar, Michael Stipe e Peter Buck se conheceram em uma loja de discos, onde o guitarrista trabalhava e o cantor comprava os discos. Se uniram ao baixista Mike Mills e ao baterista Bill Berry (que estudavam na Universidade da Georgia e tocavam juntos desde o colegial) para formar uma banda bem despretensiosa, apenas para tocar em uma festa de aniversário que seria comemorada em uma igreja abandonada. Logo no primeiro ensaio, em 5 de abril de 1980, já compuseram 3 músicas. Após a tal festa não se separaram e saíram tocando em tudo quanto era lugar, inclusive em boates gays de música disco. Segundo contam no documentário, começaram a perder muitas aulas e alguns membros do REM foram convidados a sair da faculdade, mas perceberam que poderiam viver da música, um dilema que tantas bandas enfrentam até hoje em todo o mundo. Aliás, o primeiro single da banda saiu em 1981, o mesmo ano em que a MTV foi criada.

É fato que não faz tanto tempo assim que a banda se separou e alguém pode questionar a validade de um documentário sobre eles. Mas há uma série de fatos sobre o REM que o filme traz à tona e pode servir de inspiração para muitas bandas novas ou experientes. A cena de abertura, muito bem escolhida, mostra um jovem Michael Stipe, ainda com cabelo, dizendo que poderiam fazer músicas fáceis e acessíveis que toda rádio adoraria tocar, mas eles simplesmente decidiram não seguir por esse caminho. Eram alternativos por opção.

O Stipe dos anos 80 tinha uma dicção complicada, o que tornava muitas das letras quase que ininteligíveis. Além disso, nunca fica muito claro sobre o que exatamente são as letras do REM. No caso de “Losing My Religion”, por exemplo, já vi uma interpretação afirmando que fala de virgindade e outra que acha que é sobre a perda da fé. O próprio Stipe diz em uma entrevista que língua e música são misturas estranhas à ele, por isso ele cantava as palavras mais como um meio para produzir sons do que para transmitir um significado. Para ele, as letras eram como mais um instrumento da banda, mais um elemento da música, “como o baixo”, “nada mais especial do que isso”.

Há dois momentos no documentário que atestam estratégias brilhantes que deveriam servir de guia para qualquer banda. : embora Stipe seja o letrista, fez questão de registrar cada música do grupo como uma composição coletiva, e não de membros individuais. O cantor conhecia a história de muitos grupos e sabia que direitos autorais causam discórdia e separa as bandas. : quando assinaram com a gravadora IRS levaram em conta os artistas que a empresa já tinha no catálogo (todos alternativos) e um estilo de administração que permitiria à banda fazer o que quisesse, controle criativo total.

REM é a sigla para rapid eye moviment (movimento rápido dos olhos), uma das fases do sono. Eles estavam desesperados por um nome para o grupo e nenhuma ideia parecia se encaixar. Queriam algo curto e fácil. Encontraram REM no dicionário às 3 da manhã. “Na época as bandas não usavam siglas ainda”, dizem no filme.

Depois de tocarem muito pelos EUA, gravaram Murmur (1983), o primeiro disco do REM. Diminuíram propositalmente o volume da bateria e do vocal, na contramão das mixagens da época que faziam tudo parecer disco music, e aumentaram o volume de todo o resto da banda, usando bastante reverb. Murmur figurou naquele ano nas páginas da Rolling Stone como promessa de disco do ano. Foi aí que perceberam que o REM estava acontecendo. Reckoning (1984) foi gravado em apenas 11 dias, todos bastante bêbados. Michael acha que nem dormiram durante esses dias. “Foi insano”, ele comenta. Fables of the Reconstruction (1985) quase fez a banda se separar. O disco mais sombrio e estranho do grupo até ali, mas chegou ao topo das paradas mesmo assim.

Nos primeiros quatro álbuns, a REM foi beneficiado pelas rádios universitárias dos Estados Unidos, que tocavam suas músicas. Era o ambiente perfeito para o rock alternativo encontrar o seu público. E foi só com Document (1987), o quinto da carreira, conseguiram aliar o estilo que já praticavam com as rádios comerciais, emplacando o primeiro grande hit: “One I Love”. A certeza da banda é que não se trata de uma canção de amor. Mas como ninguém sabe realmente sobre o que ele é, Peter Buck resume, dizendo que para ele é sobre Mi menor, Dó, Sol e Ré, fazendo alusão aos acordes usados na música.

Está no documentário também, por exemplo, como a fama foi aproveitada por Stipe para que ele levantasse bandeiras importantes, como a questão ecológica, os rumos da política dos EUA, o desarmamento, entre outras questões, tornando-se um ativista, muito diferente das várias celebridades que aproveitam a fama para meramente ostentar um estilo de vida arrogante e vazio. Também veio a tona a homossexualidade do cantor, que acabou evidenciando como suas músicas não tinham gênero – nunca fica claro se é o ponto de vista masculino ou feminino, permitindo que qualquer um absorva a letra para si mesmo.

Há uma história interessante envolvendo Stipe e Thom Yorke que, infelizmente, não está no filme. Durante a turnê de Monster, o Radiohead foi banda de abertura para o REM e Yorke aprendeu alguns truques sobre como ser frontman observando Stipe distanciar-se do público enquanto cantava ao mesmo tempo em que colocava todo o seu ser na performance da canção. “Era uma coisa completamente evasiva. Mas em momento nenhum você achava que ele estava fugindo. Tudo fazia parte daquilo, no palco. As coisas que ele escolhia não fazer, não ser, eram ainda mais poderosas do que o que ele fazia. Havia esse ar deliberadamente um pouco fodido… gostei daquilo”, diz Yorke.

O Radiohead teve a fase pós-Ok Computer em que seus membros trocaram de instrumentos para tentarem buscar novas formas de criar. Antes deles, o REM fez isso e o resultado foi o ótimo Out Of Time (1991). Até mesmo “Losing My Religion”, a principal música do disco e a da carreira da banda, veio deste disco em formato totalmente improvável. Como eles mesmos dizem, o instrumento principal é o bandolim, não tem refrão e dura mais de 5 minutos. A julgar pelas “exigências” do mundo pop, seria um desastre. Mas foi o maior sucesso do quarteto e vendeu 10 milhões de cópias.

E há ainda a amizade que nasceu entre Kurt Cobain, Courtney Love e Stipe (o REM não sabia que Cobain gostava tanto assim da banda até ele citá-los em uma famosa entrevista para a televisão). O grupo estava gravando Monster, mas pararam de trabalhar assim que souberam da morte de Kurt. Segundo Stipe, a morte dele foi “perder um aliado no mundo da música”.

O baterista Bill Berry também deixou o grupo após New Adventures In Hi-Fi (1996). Antes disso, superou um AVC (que sofreu ao vivo, na Suíça) e voltou a tocar com a banda para terminar a turnê. Mas chegou a um ponto em que precisou sair de cena definitivamente. Dali para a frente, o REM nunca colocou outro membro no lugar de Berry, preferindo contratar percussionistas/bateristas para o estúdio e ao vivo. Ainda fizeram um disco roqueiro (Up, de 1998) e outro que foi uma grande mudança, um REM bem mais soft (em Reveal) e voltaram ao rock alternativo e amargo com Around The Sun (2004), cuja música principal, “Leaving New York”, era claramente um mensagem sobre a cidade no pós-11 de Setembro e era Bush. Tiveram mais tempo para gravá-lo, com muitas idas e vindas do estúdio. Stipe, Mills e Buck estavam ficando distantes. O disco teve uma acolhida morna de público e crítica, mas o trio concorda que as composições funcionavam melhor ao vivo do que em estúdio.

Accelerate (2008) é a volta do REM ao rock com guitarras, sem falar que metade das letras do disco guardavam conteúdos políticos. Viviam a ressaca dos anos Bush, afinal. Isso não está no documentário, mas conforme soubemos depois, 2008 foi o início das conversas entre Stipe, Mills e Buck que levariam ao fim amigável da banda três anos depois.

A MTV foi bastante benéfica para o REM, não só por exibir seus vídeos desde o princípio da banda e abrir espaço para os músicos, mas também por ter feito duas sessões acústicas históricas com o grupo. A primeira é de 1991, no embalo do lançamento de Out Of Time. A segunda, de 2001, é calcada no repertório de Reveal (e as músicas funcionam tão bem no formato acústico, quase melhores que no disco original). O material havia sido lançado parcialmente anos atrás, mas em 2014 os dois shows saíram na íntegra no box Unplugged: The Complete Sessions. São 33 músicas e apenas “Losing My Religion” é tocada tanto na sessão de 91 quanto na de 2001. E há muitos lados B também, mostrando que o REM não é uma banda que se prende aos singles e hits para agradar fãs mais acomodados. Conta-se nos dedos os artistas e bandas com essa coragem.

O documentário, dentro de suas limitações (quase tudo material da MTV), consegue deixar claro como o REM conseguiu ser o que qualquer banda séria gostaria de ser: a voz de uma geração. Eddie Vedder, do Pearl Jam, ao apresentá-los na cerimônia do Rock’N’Roll Hall of Fame em 2007, disse que a banda “ajudou a descobrirmos o que tínhamos dentro de nós, e sem saber nada do que ele estava cantando”. Vedder elogiou cada um dos membros e disse que Mike Mills era a arma secreta da banda, sobretudo por causa de seus backing vocals sempre marcantes. No entanto, gostaria de destacar que suas linhas de baixo sempre foram melódicas e conseguiam fugir do óbvio e do simples complemento harmônico, tocando cabeças de acordes. Paul McCartney, por exemplo, levou um tempo até ser “ensinado” a tocar baixo dessa maneira e se soltar de vez nos Beatles.

As leves mudanças de estilo da música do REM (às vezes mais acústica, às vezes mais guitarreira) sem nunca perder a essência ética e estética, a forma como lidavam com o sucesso, a influência que exerceram sobre tantas bandas novas e, principalmente, todos os caminhos que abriram para a música alternativa em rádios e na própria televisão mainstream: tudo isso, mesmo que resumidamente, fica bem marcado em REM by MTV. Um convite para (re)descobrir a banda e lembrar que música não é só entretenimento, mas também pode ser uma poderosa ferramenta cultural agindo na formação crítica e emocional de um indivíduo.

PS: O filme não chega a citar, mas “Country Feedback” é a música preferida de Michael Stipe. Apesar de Out Of Time ser ótimo por inteiro, o disco passou a ser especial para mim justamente por causa da presença dessa canção, que só fui saber que também morava no coração do cantor muitos anos mais tarde. Quando a separação oficial do grupo foi anunciada, uma versão de “Country Feedback” foi resgatada, mostrando o REM e o Neil Young estendendo a canção por nove minutos em 1998. A melancolia e os versos livres (Stipe improvisou quando gravou essa música. Ele não tinha letra, só algumas palavras soltas) serviram para mim como o perfeito epitáfio para uma das bandas mais legais (em discurso e música) que já conheci.

rem 1994 ap 615

escut652_wp Autor

Comentários

    […] faixas gravadas no Brooklyn (Nova York), Los Angeles (Califórnia) e até em Athens, a cidade do REM (na Georgia). Sem falar no famoso e mítico Rancho de la Luna, no meio do deserto de Joshua Tree, […]

    Raury – All We Need (2015) | Escuta Essa!

    (16 de outubro de 2015 - 13:07)

    […] curioso nome Raury, pelo qual foi estigmatizado. Vindo de Atlanta (Georgia), a cidade que nos deu o REM, ainda não é um cara muito conhecido nos Estados Unidos e nem na música alternativa de forma […]

    […] suas músicas de uma forma inesperada, algo que já rendeu uma série de bons momentos com REM, Nirvana, Alice In Chains e até Capital Inicial, entre tantos outros […]

    […] Assim como Port Of Morrow (2012), assim como Wicing The Night Away (2007) e, oras, como Oh, Inverted World (2001), o novo trabalho desses americanos do Novo México é repleto de canções pop com um feeling de rock alternativo que te faz pensar que, se fosse ao contrário (canções de rock, com feeling pop) seriam como o R.E.M. […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.