Cradle of Filth – Hammer Of The Witches (2015)

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Pancadas repetitivas e de pouca imaginação

Por Lucas Scaliza

Sou da opinião de que o peso e os elementos pesados na música devem ter uma intenção. Do contrário, o peso pelo peso soa esvaziado de sentido e de significado, tornando-se meramente um exercício de técnica, de afinação, de volume e escolha de pedais. Mesmo dentro do heavy metal, as experiências mais sofisticadas estão em bandas que sabem ser pesadas alternando os humores da música. Opeth, Sirenia, Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Blind Guardian e até mesmo Slayer e Dimmu Borgir logo se deram conta disso e souberam trabalhar bem suas músicas, fugindo de uma linearidade sem graça, como faz o Dragonforce.

Em diversos momentos de sua carreira no metal gótico, o Cradle of Filth soube utilizar as alternâncias de dinâmica e as atmosferas de teclados e orquestrações para criar nuances diferenciadas em sua música. Mas este recurso estilístico está muito pouco presente em Hammer Of The Wtches, novo trabalho dos ingleses mascarados.

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De um black metal mais cru no início dos anos 90 eles se tornaram uma banda mais gótica, com bastante influência de formas mais extremas do metal, e diversificaram o som gravando com orquestras e colocando mais sintetizadores nos álbuns. Hammer Of The Witches tem todos esses elementos: o power metal de “Yours Immortaly”, o thrash em “Enshrined In Crematoria”, as belas passagens góticas em “Walpurgis Eve”, “The Monstrou Sabbat (Summoning)” e “Blooding The Hounds of Hell”, mas nada que diferencie o disco dos demais trabalhos do grupo e, mais do que isso, que evidencie a força criativa da banda frente a tantas outras bandas de power, thrash e black metal.

Hammer Of The Witches tem os méritos técnicos de ser bem tocado e bem produzido, mas é um álbum sem imaginação no geral. 80% das faixas se apoiam em pancadarias insanas (“Deflowering The Maidenhead, Displeasuring The Goddess”, “The Vampyre At My Side”, “Onward Christian Soldiers” e até a música bônus “King Of The Woods”), o que tornam a audição penosa, repetitiva e até mesmo burocrática. O foco está obviamente na velocidade da bateria, da guitarra e do acompanhamento do baixo. A entrada de dois novos guitarristas – Richard Shaw e Marek ‘Ashok’ Šmerda – permite que várias músicas voltem a ter as harmonias dobradas, mas a falta de foco nas composições faz com que a beleza das escolhas de acordes se percam em meio a tantas pancadas e distorções.

Sobra para poucas faixas o papel de mostrar uma visão um tantinho mais ampla, como é o caso da faixa-título “Hammer of the Witches”, de “Right Wing of the Garden Triptych”, a música bônus “Misericord” e partes de “Black Magick In Practice”. Dani Filth, o vocalista e líder do Cradle Of Filth, continua se apoiando em temas obscuros, satânicos e mágicos para fazer suas músicas. No entanto, como já é de conhecimento geral, as ideias de seus álbuns são mais para entretenimento do que uma crença pessoal dele ou de seu séquitos de músicos (e fãs), o que pode ser incômodo para o ouvinte mais ideologicamente exigente, por assim dizer.

Dani Filth também continua cantando com sua voz magra e abusa irritantemente de gritinhos histéricos, sobretudo em sílabas finais. Além de soar como um maneirismo que já cansou, é um recurso brega, um grito sem sentido de existir. Imagine o Bruce Dickinson ainda hoje soltando aqueles agudinhos que eram tão característicos do Iron Maiden da década de 80. Não, né?

Hammer Of The Witches vai agradar quem está mais a fim de peso do que de uma real intenção, um motivo para soar pesado. As passagens mais sombrias, que a banda soube criar tão bem em trabalhos anteriores, também são escassos. Neste disco tudo soa mais como uma representação cinematográfica do que como um verdadeiro ritual de magia negra ou bruxaria. Um disco que não assusta, a menos que você seja obrigado a ouvi-lo mais uma vez.

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Comentários

    Ejaculador

    (13 de julho de 2015 - 01:26)

    Putz, um post de uma banda assim … em pleno 2015 … é uma gota de hombridade no oceano de hipster e viadagem do mundo de hoje. Anos que não ouço falar da banda.

    Escuta isso aqui: http://laboutiquemusic.blogspot.com.br/2015/07/asian-dub-foundation.html
    Som de macho!

    Iskra – Ruins (2015) | Escuta Essa!

    (23 de julho de 2015 - 19:36)

    […] na forma seca como soam todos os instrumentos. É tudo muito direto. Diferente do metal do Cradle of Filth, por exemplo, que busca uma aproximação maior com o power metal e inclui elementos mais […]

    […] faz muito tempo, resenhei o Hammer Of The Witches, novo álbum do Cradle of Filth. Abri o texto falando sobre a intenção do peso na música – […]

    Hélio

    (7 de agosto de 2015 - 17:20)

    Que review pretensioso e retardado.

    Ghost – Meliora (2015) | Escuta Essa!

    (13 de agosto de 2015 - 23:29)

    […] Não podemos esquecer que várias bandas alinhadas ao black metal e metal extremo, como o Cradle Of Filth, já deixaram bem claro que não são participantes e nem advogam em favor de nenhuma seita, apenas […]

    […] de Todd Jones, do Nails) que são muito mais assustadores do que a pauleira de várias passagens do Hammer of the Witches do Cradle of Filth, mesmo sendo uma gravação muito mais direta e crua do que a dos ingleses. O […]

    mestre leao

    (31 de agosto de 2015 - 17:21)

    ‘power metal de yours immortaly’????? é sério isso???

      Lucas Scaliza

      (31 de agosto de 2015 - 17:25)

      Espera aí, mestre. Deixa eu conferir de novo.

      Sim, power. Quer chamar de black por causa da velocidade e tal, pode chamar. Há outros (vários) elementos a se considerar.

    […] é claro, o black metal de pose, mas sem grandes ideologias, para entretenimento, como é o caso do Cradle Of Filth. E há o black metal que é aberto a todo tipo de tema, levando seu tom agressivo ao extremo a […]

    […] do Abbath, do Ghost, do Cradle Of Filth e da maioria das bandas de black metal, os membros do Rotting Christ não usam máscaras ou pintam […]

    […] e prog Between The Buried And Me; a tecladista Ashley Ellyllon é egressa das bandas de black metal Cradle Of Filth e Abigail Williams; o cantor Adam Fisher era da banda experimental Fear Before The Marcho of […]

    Doom

    (16 de setembro de 2016 - 00:52)

    Que resenha mais bosta.

    […] Pois é. A coisa é pesada com o Deathspell Omega, do tipo que faz correr quem ainda “acredita” no black metal de Cradle Of Filth. […]

    […] de ter lançado um disco fraco em 2015, o Hammer Of The Witches, Cryptoriana – The Seductiveness of Decay restaurou minha fé na banda. Se há dois anos ouvi […]

    Anônimo

    (26 de setembro de 2017 - 00:25)

    Cara, respeito opiniões, mas esse álbum é foda! Você é a única pessoa que não gostou

      Lucas Scaliza

      (26 de setembro de 2017 - 00:27)

      Cara, realmente não vi muita coisa nele, mas o novo de 2017 achei beeem massa! Tem resenha aqui também.

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