Leon Bridges – Coming Home (2015)

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Não sei o que dizer, só sentir

por brunochair

Essa é a história de um rapaz do estado do Texas. Ele gostava de ouvir seus ídolos no rádio, e um dia sonhava conseguir fazer sucesso igual a um deles. Para isso, sabia que precisava trabalhar muito. Lavava pratos em dois restaurantes diferentes, pois queria dinheiro para comprar uma guitarra. E aí tocar e cantar, ser famoso, conquistar o coração das garotinhas. Enquanto isso não acontecia, continuava frequentando a igreja. Religião é importante. Assim como os bailes: dançava, se divertia ao som da banda. E queria ser cantor como o cantor. Queria poder ser o centro das atenções.

Após muito trabalhar, conseguiu a tão sonhada guitarra! Não era bem nova, não era bem do jeito que ele queria, mas tocava bem nas mãos do velho senhor, que a vendeu. O rapaz, já um pouco mais velho, começou a abandonar os bailes para lançar-se pelos bares esquecidos da cidade, a fim de apresentar algumas músicas que havia composto. Naquele estilo “microfone aberto”, lá surgia o rapaz com a surrada guitarra. Recebia aplausos de meia dúzia de bêbados que nem sabiam o que estavam aplaudindo. Mas o rapaz era legal, cantava bem, vestia bem.

Numa dessas apresentações casuais (e quanto o rapaz já estava desanimado dessa “vida de artista”) entra num bar qualquer o produtor de uma grande gravadora, e o vê tocando. E gosta dele de cara. E acha que ele será um grande artista. E gosta da letra. E decide apostar nele. E dá ao rapaz um cartão da gravadora. E pede para o rapaz aparecer no dia seguinte, com a guitarra e um punhado de canções próprias. E o rapaz vai, é claro. E o rapaz leva as músicas. E todos gostam da música do rapaz. E decidem apostar no rapaz. E o disco sai, e é um sucesso. O rapaz fica rico, conhecido. Todos imitam o rapaz: a sua voz, o corte de cabelo, o jeito de se vestir.

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A história narrada acima é uma livre interpretação biográfica do cantor Leon Bridges, artista radicado em uma pequena cidade do Estado do Texas, EUA. Parece a história de um garoto americano da década de 50/60, mas não: é a história de um rapaz nascido no ano de 1989, que passou a sua adolescência nos anos 2000, e que agora alcança o sucesso (com a gravação do primeiro disco) no ano de 2015.

Anacronismos à parte, assim é a vida: mesmo diante de uma sociedade (hoje) digital, um mar de possibilidades e acontecimentos, ainda há aqueles que vivem à margem disso, seja por opção ou por dificuldades financeiras/ geracionais. E há ainda os que, mais velhos ou não, olham para as décadas anteriores e veem nelas a pureza que a atualidade não possui – a tal da Era do Ouro (a síndrome) algo que ficou muito bem representado no filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen.

Pela descrição da narrativa acima, podemos presumir que, apesar de Leon Bridges estar situado nos anos 2000, o ritmo de sua vida mais parece a de um garoto das décadas de 50/60 do que das décadas atuais. Juntando a isso um enorme respeito e fascínio pela soul music americana, então temos um artista que, de fato, quer e consegue soar como um artista de décadas passadas.

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Coming Home é o seu disco de estreia. Alguns singles foram lançados antes do álbum, e fizeram grande sucesso nos aplicativos de música, sempre estando nos top 10. “Coming Home” foi a primeira música lançada, e oferece ao ouvinte a impressão de ouvir algum artista perdido da Motown. Há todo um trabalho de estúdio para “envelhecer” ainda mais uma música, que já é bastante retrô. As letras, que geralmente falam de amores e natureza, exalam poesia e inocência. Não há um traço de modernidade em suas músicas.

Seu poderio vocal é, pelo menos em estúdio, comprovado. Tem um timbre de voz parecido com o de Donny Hathaway. As referências que podemos citar são muitas: desde Sam Cooke, Platters, Temptations, Ottis Redding e o começo da carreira de Marvin Gaye. São nomes de peso da soul music, e o rapaz é apenas um rapaz dos anos 2000 em seu primeiro disco.

O disco soa redondinho, não tem uma música fora de prumo. E a proposta é bem definida: soul da década de 60, Motown. Nada além disso. Nenhuma inovação, nenhuma tentativa de flertar com a contemporaneidade. Aliás, será que ele nasceu mesmo em 1989? Há controvérsias. E essa questão de soar, vestir e ser vintage acaba por gerar também muitas críticas, sobretudo quanto a originalidade do seu trabalho artístico.

O trabalho de Leon Bridges tem sido comparado ao do Curtis Harding, que lançou o seu primeiro disco ano passado. Ambos vieram de cidades pequenas, círculos evangélicos, promovem um soul mais “enraizado”. No entanto, o que pudemos observar no álbum Soul Power do Curtis Harding foi uma intensa experimentação: em seu disco, há punk rock, surf music, funk e até um certo futurismo em algumas canções.

Além destes jovens artistas, podemos citar o caso de Lee Fields, artista com sólida carreira na soul/funk music. Lee Fields, mesmo após anos de estrada e familiaridade com a soul music, desenvolve uma sonoridade muito mais contemporânea que Leon Bridges.

No fim das contas, são propostas distintas de música. Resta saber se Leon Bridges continuará com seu vintage soul durante toda a carreira, ou se flertará com outros estilos. Pode ser que a fonte vintage seque nos próximos álbuns de sua discografia (ou não). Leon Bridges corre o risco de tornar-se repetitivo? Sim, se não houver inventividade e boas composições, no decorrer dos anos. Por ora, vamos apreciar o belo disco de 2015.

Ou seria de 1962?

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