Hiatus Kaiyote – Choose Your Weapon (2015)

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Escolha suas armas. Quantas quiser.

por brunochair

Hiatus Kaiyote, banda australiana de Melbourne, chamou a atenção de muita gente na música quando do seu début de 2012, Tawk Tomahawk. A banda conseguia mesclar, com muita competência, elementos da soul music, r&b, funk, eletrônica e uma pitada de ritmos tribais (aborígenes), oferecendo o toque final de originalidade neste caldo musical. Portanto, o disco foi tratado como grande pérola musical daquele ano, recebendo comentários positivos de músicos tão competentes, ecléticos e distintos quanto Flying Lotus e Erykah Badu. No entanto, parecia que o disco de estreia soava como um aperitivo, apenas um teste do que poderia vir. No próximo, a banda poderia desenvolver (ainda mais) as suas potencialidades e o seu ecletismo.

E agora, em princípios de maio, temos o lançamento de Choose Your Weapon, o novo disco da banda. E, realmente, trata-se de um arsenal de excelentes músicas. A sintonia dos músicos parece perfeita, assim como a intenção de promover uma sonoridade que consiga agradar diversos ouvidos: retrô, contemporâneo, de soul, jazz, música eletrônica, r&b, e principalmente o público que não tem estilo definido, e que gosta de boa música. E é para esse público que o Hiatus Kaiyote consegue atingir a sua musicalidade com maestria.

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Se o disco anterior contava com pouco mais de meia hora de duração em onze músicas, Choose Your Weapon possui sessenta e nove minutos, distribuídas em dezoito músicas. É um álbum que consegue elevar o nível de experimentação do antecessor. O trabalho dos músicos é de se destacar: o groove do baixista Paul Bender continua em alta, ora apresentando distorções eletrônicas, ora in natura. O baterista Perrin Moss é um monstro, certamente é o maior responsável pelo grupo conseguir desenvolver, com competência, essa miscelânea de estilos.

O tecladista Simon Mavin é quem mais ganhou destaque neste álbum novo: sua vertente eletrônica (com teclado, sintetizadores) foi bastante aproveitada, e seus fraseados tornaram-se protagonistas de muitas músicas. Por fim, a cantora e guitarrista Nai Palm: com um potencial na voz inconfundível, bonita, carismática, para alguns excêntrica, ela é a cara da banda. E, apostando nas habilidades individuais de cada um e na intenção experimental e eclética, é que o Hiatus Kaiyote entrega para a cena musical um excelente disco.

Pela sua extensão, Choose Your Weapon deve ser ouvido com cuidado para perceber quando e quando as influências ficam mais perceptíveis. Por exemplo, a segunda canção do disco, “Shaolin Monk Motherfunk” tem uma pegada da soul music muito perceptível. Mas é aquele soul mais suingado, que o aproxima do funk. Alguns elementos eletrônicos nesta música, embora menores que em outras faixas do disco.

Interessante que, quando a crítica musical procura definir o estilo musical da banda, conceituam-na como “neo-soul” e “future soul”, por aliar outros elementos ao soul. Embora com outras pretensões musicais, é o que também ocorre nos recentes trabalhos de D’AngeloCurtis Harding e Alabama Shakes – banda esta que deu uma guinada interessante na carreira, do primeiro para o segundo álbum.

“Borderline with My Atoms” segue a mesma tendência de “Shaolin Monk Motherfunk”, por apresentar uma característica mais orgânica, menos eletrônica. Aliás, nesta música a guitarra da vocalista corre um pouco mais solta e perceptível que o de costume. “Laputa” traz (não sei se intencional ou não) uma confusão sonora, promovida pelos arranjos psicodélico-eletrônicos e distorção em todos os instrumentos, inclusive na voz de Nai Palm.

“Swamp Thing” tem uma forte presença do groove eletrônico do baixo, tornando a música uma das mais dançantes do álbum. A transição desta música para a próxima, “Fingerprints”, é muito gostosa de ouvir. E, nesta, temos um soul mais tradicional, aproximando-se bastante de algumas canções do D’Angelo. “Jekyll” começa também num soul tradicional, e aos poucos evolui para um jazz bastante experimental, com ótimo trabalho de percussão. “Atari” é a música mais eletrônica do disco, e tenta imitar a sonoridade dos joguinhos. E, para quem conhece bem o Mombojó, sabe que ela não tem nada de original.

Outros destaques do disco são as duas últimas canções, “Molasses” e “Building a Ladder” – esta última com características da funk music. O que torna Choose Your Weapon interessante é que tem espaço para todos os integrantes aparecerem, experimentarem. Nai Palm canta limpo e claro por todo o álbum. Os instrumentos também seguem esta linhagem. Não há confusão instrumental, a não ser quando há uma intenção estética para que isso ocorra.

Nesta entrevista, Nai Palm faz uma análise interessante sobre a música criada na Austrália. Quando indagada sobre o Hiatus Kayiote criar música com poucos elementos australianos, ela ressalta que os estilos hoje apreciados por lá não foram criados na Austrália. É o caso do soul, blues, jazz, funk, rock e etc. No fim das contas, consegue sobressair-se quem desenvolve uma sonoridade criativa (diferente) com estes elementos “estranhos” à sua cultura. Na Austrália, temos exemplos (na cultura pop) de artistas bem sucedidos: Nick Cave, INXS, Silverchair, Wolfmother, AC/DC e outros tantos que poderiam ser mencionados.

Ou seja, emprestamos os estilos que hoje estão mundializados, e devolvemos com uma nova roupagem, uma nova perspectiva. O Hiatus Kaiyote entra no rol desses bons artistas australianos, curiosos e originais. E, se você curte uma banda que não liga para fronteiras entre estilos, vai gostar muito de Choose Your Weapon. Escolha suas armas. Quantas quiser.

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