Of Monsters And Men – Beneath The Skin (2015)

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Na mesma trilha e soando ainda melhores como instrumentistas

Por Lucas Scaliza

Quatro anos separam Beneath The Skin do ótimo My Head Is An Animal (2011), a estreia dos islandeses do Of Monsters And Men. Nesse tempo, eles foram arremessados para dentro do mundo global indie, participaram de festivais em diversos locais do planeta, marcando presença inclusive no importante circuito de festivais e mercado dos Estados Unidos. Mas apesar do longo tempo entre um e outro, percebe-se que o novo disco caminha no mesmo sentido do trabalho anterior, com pouquíssimas diferenças na sonoridade. O jeito sonhador e fantástico das composições continua presente, mas dessa vez há mais canções introspectivas e uma incursão maior pelo “som da Islândia”, efeitos e instrumentos que soam profundos e criam uma ambientação especial para as composições. Bandas como Sigur Rós, Sólstafir e até mesmo Sóley usam esse recurso, que virou uma marca de suas sonoridades.

As melodias de voz e o bom gosto para arranjos bem elaborados continuam sendo o forte do Of Monsters And Men. A alternância vocal entre Nanna Bryndís Hilmarsdóttir e Ragnar “Raggi” Þórhallsson funciona ainda melhor em Beneath The Skin do que já era bem-vinda em My Head Is An Animal. E como quase todos os integrantes são multi-instrumentistas (só para citar um exemplo, o baterista Arnar Rósenkranz Hilmarsson também é capaz de tocar piano, teclado, glockenspiel, acordeão, escaleta e ainda contribui com os backing vocals), o álbum está melhor servido de novos sons que vão surgindo ao longo das faixas, o que contribui com o caráter dream pop do grupo. Isso também indica que os islandeses estão mais cientes das possibilidades em estúdio e confiantes quanto ao formato ao vivo.

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No entanto, enquanto o primeiro disco era ilustrado pelos belos clipes que contrastavam imagens em preto e branco com outras extremamente coloridas, este segundo se aprofunda no contraste e chega um pouco mais intimista, um pouco mais etéreo e também mais noturno. É uma diferença sutil, mas que é muito parecida com a apresentada pelo Alabama Shakes com Sound & Color (2015) em relação a Boys & Girls (2012).

Entre as músicas mais animadas está a cativante “Crystals”, que além de abrir o álbum já será projetada como uma das principais do novo repertório do grupo por sua riqueza sonora e ótimo refrão. A bateria de Hilmarsson é muito bem sucedida em criar um ritmo quebrado e mais tribal, o que se encaixa bem na proposta folk do grupo. “Wolves Without Teeth” é outra com pegada folk que evoca a mistura entre indie rock e o lado mais étnico da banda. Já a bela “Human” é a música que vai ganhando corpo aos poucos e revelando as habilidades do guitarrista Brynjar Leifsson de um modo como ele não se revelava no primeiro disco.

“Empire” é uma das canções mais acessíveis do álbum, com letra simples construída a partir de aspectos da natureza e um coro de “Oh ohs” que a banda sabe planejar muito bem para causar empatia. Apesar do tom melancólico, “We Sink” chega a um refrão cheio de distorção de guitarra que ofusca todo o resto da banda. O reverb, efeito que contribui para a sensação de aprofundamento dos instrumentos, está sendo muito bem utilizado na guitarra para criar uma camada especial para ela. Por fim, “Winter Sound”, presente apenas na versão deluxe de Beneath The Skin, é uma música simples, direta e talvez a mais animada, embora esteja longe de ser a melhor.

E há ótimas músicas nas seções mais tristes, melancólicas e intimistas do disco. A começar pela ótima “Hunger”, com uma bela letra sobre o fim de uma relação e sensação de se afogar nesse sentimento. “Slow Life” traz uma batida mais moderna ao repertório do Of Monster And Men. É possível reparar na atuação individual de cada músico e perceber como contribuem para a construção de uma das melhores músicas do disco. Além de todos os ótimos fills carregados de reverb da guitarra de Leifsson, o baixo de Kristján Páll Kristjánsson é uma delícia de se ouvir separadamente. “Organs” é a música mais íntima que a banda lançou até agora, toda baseada em violão e piano, mas também com cellos complementando os arranjos, o que torna a música triste um pouco mais dramática. “Thousand Eyes” é climática e praticamente atesta a origem islandesa da banda, indo do idílico ao rascante conforme a dinâmica da orquestra aumenta.

“I of The Storm” é outra candidata a melhor música. Terna e descomplicada, a voz aveludada de Nanna conquista fácil no refrão. E “Backyard” traz novamente a modernidade para o som folk rock do grupo com seus efeitos de estúdio.

Não há nenhuma música tão pegajosa quanto “Little Talks” em Beneath The Skin, com riffs reconhecíveis a milhas de distância, mas em compensação há mais momentos catárticos e crescendos que funcionam, como em “Hunger” e “Black Water”, entre outras. No entanto, há momentos que são únicos na discografia, como a pessoalidade de “Organs” e a atmosfera de “Thousand Eyes”.

Embora não se afastem da estética com que se apresentaram para o mundo em 2011, após vencerem um concurso nacional de bandas na Islândia, há o que se ouvir de novo. Além disso, todos os integrantes estão mais músicos, cada um fazendo seu instrumento soar não apenas para que juntos façam uma música, mas para que cada um também consiga se destacar tecnicamente. Por isso, Beneath The Skin é melhor do que My Head Is An Animal e mostra que Of Monster And Men não era uma banda aproveitando um sucesso repentino. A qualidade musical que despertou o interesse de milhões há quatro anos tinha uma base calcada em músicos e artistas de verdade.

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Comentários

    Halsey – Badlands (2015) | Escuta Essa!

    (26 de agosto de 2015 - 20:11)

    […] voz dela cai bem para a melancolia, como a da Nanna Bryndís Hilmarsdóttir do Of Monsters And Men, e fica muito bem também para as partes mais R&B de suas faixas. Talvez não tenha o alcance […]

    […] melhores músicas do disco do ponto de vista da composição, com uma interpretação que lembra Of Monsters And Men e até os melhores momentos de Kyla La Grange e Lykke Li. O instrumento de sopro é particularmente […]

    Osmana

    (5 de janeiro de 2016 - 13:11)

    Amooooooooooooooooooooo

    […] a única com vocais em inglês, é cantada por Nanna Bryndís Hilmarsdóttir, do Of Monsters And Men, com alma e entrega. “Dalur” é obra erudita com Arnalds no piano, dentro de uma espécie de […]

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