Muse – Drones (2015)

muse drones

Com temática atual e som poderoso, Muse volta a ter uma pegada mais agressiva

Por Lucas Scaliza

Drones, a nova empreitada do trio inglês Muse, tem um tema certeiro em sua mira: as guerras modernas, os drones e a ética que este tipo de combate envolve. São questões que já vem sendo debatidas há algum tempo e até geraram ótimos livros teóricos, sociológicos e filosóficos como Teoria do Drone, do filósofo francês Grégoire Chemayou.

Assim, a análise de Drones, o disco que marca uma volta à uma pegada mais agressiva e mais direta da banda sem perder o feeling da produção esmerada adquirida nos últimos dois álbuns (The Resistance, de 2009, e The 2nd Law, de 2012), deve começar por sua capa: em uma tela, uma série de sombras marcham, como soldados. Todos idênticos, repetindo um movimento padronizado. Do lado de cá da tela, um sujeito controla um joystick, como um jovem oficial treinado para guiar drones Hellfire, as máquinas de combate norte-americanas armadas com mísseis de ataque. Mas esse sujeito, que está descabeçado, é controlado por uma mão ainda maior. Seria o governo? Seria o Sistema? Seria o “The Globalist” de que fala uma das faixas? Seria alguma(s) força(s) oculta(s) por trás de toda a indústria da guerra? Embora a ética do combate teleguiado seja um dos temas, substituir a cabeça do soldado que controla o drone por mais um joystick indica que a banda não está pensando no assunto apenas superficialmente e vê as ligações necessárias que se deve fazer entre as estruturas do poder para vasculhar o assunto. A questão não envolve apenas as máquinas chamadas de drone, mas também todo o controle mental que acaba transformando os indivíduos em seres também programados ideologicamente e alienados.

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Muse é uma banda de rock que arrasta milhares de fãs para os campos de futebol onde tocam. E como parte do cenário pop, é difícil saber até onde vai o poder do grupo em propor um debate sobre uma questão como essa, mas essa temática já acompanha Matthew Bellamy (vocal e guitarra), Christopher Wolstenholme (baixo) e Dominic Howard (bateria) há bastante tempo. Black Holes and Revelations (2006), o melhor disco da banda até agora, já estava carregado de mensagens que perpassavam o estado caótico da sociedade e dos indivíduos. The Resistance era sobre os efeitos nocivos da globalização desenfreada aceita passivamente como “modernidade”; e The 2nd Law lidava com todas essas questões e, de lambuja, vinha algumas reflexões sobre o colapso de recursos naturais. Todos eles com inclinações para teorias da conspiração e paranoia.

“Dead Inside” é a típica faixa do Muse: eletro-rock levada pelo baixo, bateria bem marcada e um teclado para completar. É só após a metade que a faixa ganha força e mais pegada. É o início da história e apresenta nosso personagem e a lavagem cerebral a que é submetido. A letra é clara em sua mensagem: “Você me ensinou a mentir, sem deixa vestígios/ E a matar sem remorso/ Por fora sou uma ótima pessoa/ Agora, estou morto por dentro”, Matt canta.

“Psycho” é um eletro blues com riffs poderosos que poderia muito bem figurar em algum ponto da carreira de Marilyn Manson. Acompanhada por vozes de atores que fingem ser um sargento e um soldado dos tipos encontrados em Nascido para Matar, testemunhamos a quebra mental do soldado para se tornar o assassino psicótico e frio que as forças armadas precisam para poder “matar por um controle remoto”. “Mercy” é a primeira balada de Drones e apresenta a teoria da conspiração, com “homens encapuzados”, “fantasmas e sombras” que controlam tudo por trás dos panos ou dos poderes estabelecidos (“Powers that be”). Uma faixa com refrão forte, mas no geral não apresenta criatividade, repetindo estruturas já amplamente testadas pela banda.

A poderosa e guitarreira “Reapers” é a melhor faixa que Matt, Dominic e Christopher compuseram nos últimos anos. Rock’n’roll em um nível bastante alto, cheia de riffs e agressividade, com boas viradas e um solo que faz uma ótima utilização do pedal de Whammy. Aquele tipo de música que fica ótima ao vivo. A letra assume o ponto de vista de uma vítima dos drones, perseguida por um inimigo sem rosto, sem nome, armado com mísseis e capaz de transformar qualquer lugar em um campo de batalha. Ouça “Reapers” com a melhor equalização de graves que tiver à disposição para sentir o pulso firme de Wolstenholme e de Dominic enquanto a guitarra de Bellamy imita o disparo de um Hellfire. O que há de épico em “Knights of Cydonia”, há de caótico e pulsante nesta faixa.

Longe de ser uma das grandes faixas do disco, “The Handler” contribui com a pegada mais direta planejada pelo grupo e tira o baixo de Wolstenholme da zona de conforto, dando-lhe espaço para explorar a escala do instrumento, podendo deixar de apenas tocar repetidas vezes as mesmas notas para marcar a cabeça tonal dos acordes da harmonia. O estilo mais glam e o lado mais Queen do Muse se revelam dessa vez nas boas “Defector” e “Revolt”. São as faixas que equivalem a outras boas misturas que resultaram em “Supermassive Black Hole”, “Panic Station” e “I Belong To You”. No entanto, havia mais entrega ao glamour e ao pop descarado nas faixas anteriores. Mas se “Defector” e “Revolt” perdem em brilho, ganham em peso e uma pegada levemente mais rock, principalmente “Defector”. “Revolt” tem o único refrão dançante de Drones.

“The Aftermath”, a segunda balada do disco, apresenta uma orquestração que permia toda a faixa e até rouba espaço do som da banda. Mas Matt Bellamy consegue incluir ali um solo bastante sensual na introdução e a escolha de notas de Wolstenholme faz a diferença. Se por um lado a orquestração é bem feita e evita o melodramático e o épico, não faz muito mais do que apenas acompanhar e dar mais corpo à harmonia da canção ao invés de propor alguma outra ideia melódica ou harmônica, como acontece com o sopros em How Big, How Blue, How Beautiful de Florence + The Machine.

“The Globalist”, com 10 minutos de duração, é a maior música já gravada pelo Muse em seus sete álbuns. O assobio western e a escala musical usada por Matt no solo de introdução a fazem parecer uma irmã mais velha de “Knights of Cydonia” dividida em quatro seções. A princípio uma balada triste levada pelo violão, logo depois uma faixa grave com um riff encorpado e agressivo e, por fim, uma faixa sentimental ao piano. De certa forma, lembra as três partes de “Exogenese” em The Resistance. Embora “The Globalist” empolgue em sua intro e com os riffs de Matt, termina soando um pouco autocomplacente demais, como se precisasse terminar um disco mais direto de forma mais doce e amena. O tema dessa canção é o fim do mundo, em uma terceira grande guerra por meio de… drones, claro. Assim como “Exogenese”, é uma faixa que mira alto demais e não entrega algo à altura da expectativa. Pelo menos a última faixa, “Drones”, é quase uma elegia em forma de música sacra. Mais precisamente, é um canto que adapta o hino “Sanctus et Benedictus”, datado do século 16.

Desde que entraram em estúdio, a banda disse que seria uma “volta ao básico”. Bem, digamos que é uma volta ao som mais direto, pulsante, calcado realmente na capacidade de três músicos (mais um tecladista ao vivo) de fazerem os falantes do seu aparelho de som e fones de ouvido saltarem com força, mantendo sempre um ritmo empolgante. Ou seja, o som que fez a banda ser amplamente reconhecida com Absolution (2003) e Black Holes and Revelations, mas que ficou mais diluído em baladas e experimentação eletrônica e orquestração nos dois últimos discos. Contudo, os elementos eletrônicos continuam presentes, assim como as orquestrações, mas em menor quantidade. Vale ressaltar que o riff de “Psycho” data de improvisos ao vivo feitos pelo grupo desde 1999.

Drones foi gravado no The Waterhouse Studio em Vancouver (Canadá) com o produtor Robert John “Mutt” Lange, que já trabalhou com AC/DC (incluindo os álbuns Highway To Hell e Back in Black), Maroon 5, Nickelback e Def Leppard, entre outros. Ao que parece, Mutt fez um bom trabalho: manteve a pegada rock do grupo aliada à modernidade de timbres que o Muse sempre presou para a guitarra Mason de Matt Bellamy e para os baixos de Wolstenholme, que também são incrementados com efeitos para ganhar maior presença e uma calibragem característica.

Entre o final da última turnê do Muse e a gravação de Drones, Matt separou-se da atriz Kate Hudson, com quem era casado. No entanto, segundo o cantor, o término não o inspirou a escrever novas canções, mas longas caminhadas sim. Ainda assim, há quem veja a letra de “Dead Inside” como um cutucão na atriz.

Drones dá muita munição para o Muse fazer shows exemplares e manter a plateia pulando e batendo cabeça. Não é o melhor disco dos ingleses e nem o mais criativo (soando até mesmo meio frio às vezes), mas é seguramente o álbum mais pesado e que resgata a posição de banda vigorosa. Se não fosse o alarmismo com que denuncia a lavagem cerebral que pode transformar toda a humanidade em marionetes, drones de drones, o disco poderia até mesmo virar um bastião do pop com conteúdo. Mas no frigir dos ovos, o senso de espetáculo ainda é maior do que a seriedade da denúncia.

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Comentários

    Ejaculador

    (4 de junho de 2015 - 05:14)

    Blog legal o de vcs.
    Não são desses cuzões que esperam 30 soltarem uma resenha pra dar uma opinião. Disco vazão ontem e vcs já tão aqui metendo pica nessa porra. Achei corajoso e bem honesto.
    Meus parabéns! Precisamos de menos gente medrosa comentando música. Vcs estão focados e frenéticos. Novamente, só elogios.

    Sugiro 2 bandas pra vcs:

    1) Dead Sara – Pleasure To Meet You

    O Dead Sara já excursionou com Bush, Muse, Offspring e The Doors.
    Já foi elogiada pelo Dave Grohl (Foo Fighters) como a próxima grande banda e pela Grace Slick (Jefferson Airplane) como a melhor vocalista da atualidade. A vocalista também fez backing vocals no último disco do Hole.

    Nesse clipe do Beck, a vocalista é a protagonista: Beck – Heart Is A Drum (2014)


    http://en.wikipedia.org/wiki/Dead_Sara

    2) ​Future User – SteroidsOrHeroin

    De dissidentes do Audioslave e Rage Against the machine.
    No clipe de um dos singles, aparece o Geddy Lee do Rush e o Tom Morello (Audio e Rage)

    3) Coal Chamber – Rivals
    Voltaram com um discaço: Rivals

    4) Roisin Murphy – Hairless Toys

    Ex-Moloko. Tá bem simples e bem feito.

    5) Local H – Hey, Killer

    Esquecido dos anos 90, mas tá legal

    Ejaculador

    (4 de junho de 2015 - 05:25)

    6) Moraes Moreira e Davi Moraes – Nossa Parceria

    Tocando com o filho dele.

    7) Matanza – Pior Cenário Possível

    Ainda uma resistência no rock brazuca.

    8) Kate Pierson – Guitars and Microphones

    Comédia sempre.

    Aquino Batista

    (5 de junho de 2015 - 14:38)

    Preciso ouvir logo, isso.

    brunochair

    (7 de junho de 2015 - 15:51)

    Ouvi o Muse aqui, e posso dizer que achei o início do disco meio morno. Depois, há uma sequência de músicas mto fodas, e como vc msm disse Lucas, uma sequência matadora de riffs. Reapers realmente é a melhor do disco.

    Geneuronios

    (17 de junho de 2015 - 14:21)

    Grande banda rock-pop. O Blu-ray deles na Itália é DEMAIS. Mas dizer “Ouça “Reapers” com a melhor equalização de graves que tiver à disposição…” é uma grande besteira. O correto é ouvir qualquer CD sem equalização nenhuma, tudo flat!. Se o CD é bem gravado e seu sistema de som é bom, você vai ouvir o som qua banda quis.

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    […] Em Crimson, o rock da banda está ainda mais melódico, como anuncia tão carismaticamente a guitarra solo em “Graduation”. E os refrãos na voz de Mica Tenenbaum (que também é a tecladista do grupo) são todos bem construídos e capazes de fazer baixarmos a guarda em cada faixa, mesmo quando desconfiamos da proposta de aliar o pop ao progressivo. Na verdade, faixas como “Unspun” e “Atlas” reforçam a multiplicidade de referências do grupo e enriquecem a amplitude do progressivo. A primeira tem batidas eletrônicas, uma guitarra com delay, o baixo de Edu Zighelboim funciona independentemente do resto faixa e tem até um sample de percussão brasileira. Já “Atlas” tem mudanças de compasso durante os versos, um recurso comum no prog, mas as diferenças estão tão bem encaixadas na melodia que o ouvinte menos matemático nem vai sentir a diferença. “No One Else” também merece destaque, com sua dinâmica que vai subindo utilizando teclados e efeitos eletrônicos ao estilo do Muse. […]

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