Florence + The Machine – How Big, How Blue, How Beautiful (2015)

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Menos excêntrica em álbum que retrata mais alguns capítulos dos dias de cão de Florence Welch

Por Lucas Scaliza

Se Ceremonials (2011) era todo ritualizado e com aura celta permeando todo o trabalho (chegando a fazer a música “Seven Devils” virar perfeita trilha sonora para trailer de temporada do épico Game Of Thrones), How Big, How Blue, How Beautiful já chega com os dois pés no peito e sem perder tempo. “Ship to Wreck” já mostra um foco maior na canção e no formato banda, com uma pegada mais animada, iluminada e pop, em contraste com o clima misterioso, lânguido e carregado de chiaroscuro que dominava o álbum anterior.

Outra diferença que evidencia uma mudança de direção sonora: durante a turnê de Ceremonials, ficou claro que o principal papel da guitarra de Robert Ackroyd era fornecer texturas etéreas e para as músicas da banda, acompanhando as orquestrações. Dessa vez, o instrumento é usado de uma forma mais convencional, com riffs e ritmos, podendo até exibir novas nuances e levadas, como em “Long & Lost”, deixando para o teclado de Isabella Summers, os backing vocals e os instrumentos de sopro a função de complementar as composições. Ao ouvir a animada “What Kind of Man”, com o mesmo poder de fogo de uma “Dog Days are Over”, a sonoridade mais pé no chão fica bem clara.

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Mesmo a faixa título, “How Big, How Blue, How Beautiful”, parece que vai ser mais etérea, mas basta atravessar o primeiro refrão para ela se tornar uma boa balada de banda, que se beneficia da ótima voz da cantora e compositora Florence Welch e de camadas de teclado e sopros, enquanto guitarra, baixo e bateria mantém os ritmos e andamento regular da faixa. O final dessa faixa e o início de “Queen of Peace” são dominados por orquestrações bonitas e coloridas, como as que já vimos em faixas da Björk no passado. Provavelmente é uma contribuição do produtor Markus Dravs, que tem no currículo trabalhos junto do Arcade Fire, Coldplay, Brian Eno, Mumford & Sons e a própria Björk.

“Queen of Peace” é uma das melhores músicas de HB HB HB. A harmonia é um ciclo dos mesmos acordes, um esquema bastante usado por Florence + The Machine neste álbum e em outros também, mas os arranjos de sopro criados por Will Gregory roubam a cena e dão à faixa as camadas melódicas que tornam a composição mais interessante. O mesmo esquema é seguido animada “Delilah”, que deve muito de seu balanço dançante ao ritmo da bateria de Christopher Lloyd Hayden.

Para quem gosta do clima ritualístico do álbum anterior, há “Various Storms & Saints”, faixa menos pop do disco, mas muito bonita, que utiliza um dedilhado na guitarra, muita orquestração e um ótimo trabalho de backing vocals. “St. Jude”, é basicamente uma batida eletrônica de fundo, acordes de teclado e um naipe de metais fazendo uma cama para a voz de Florence. “Caught”, uma das músicas-de-fossa da banda, é uma balada bem leve e que marca presença no álbum por conta das vocalizações e “Uh, uh, uh” que aparecem em sua metade final. Florence sempre teve bom ouvido para arranjos vocais que fazem a diferença e não é diferente em HB HB HB. “Third Eye”, que vem logo na sequência, é outra das melhores do disco e não vai demorar para impregnar na mente do ouvinte por conta de seu ótimo refrão e do acompanhamento “Uô, Uô, U-ô” que os backing vocals cantam em resposta.

O rock de “Mother” encerra muito bem o álbum, dando novas nuances para a banda trabalhar tanto seu lado mais atmosférico quanto a parede de som cheio de camadas que sempre foi uma das marcas do Florence + The Machine desde Ceremonials. A versão deluxe do disco conta ainda com a pop “Hiding”, o melhor lado Kate Bush de Florence, e a direta “Make Up Your Mind”.

Florence diz que tirou um ano de férias antes de trabalhar no próximo disco de sua banda, já que Lungs (2009) e Ceremonials foram confeccionados um após o outro, sem pausa. Segundo a cantora, foi um ano esquisito: ela continuou se afastando e tendo constantes recaídas com a bebida e vivia achando que algo estava errado, que estava vivendo em meio ao caos. É uma situação que está bem retratada nas letras de “Ship to Wreck” e “St. Jude”. Aliás, Welch é do tipo que não consegue deixar de falar de si própria e de colocar suas perturbações nas letras que escreve. Portanto, nem é preciso desconfiar da pessoalidade de seus versos e de perguntas como “Que tipo de homem ama desse jeito?”

Há uma série de potenciais singles em How Big, How Blue, How Beautiful e mesmo as músicas mais lado B são ótimas. Embora todas sigam a cartilha do pop e não tenham muitas mudanças estruturais, há um vigor sonoro maior em evidência que não depende mais tanto apenas da atuação vocal de Florence – embora continue sendo o maior destaque da banda.

As letras são interessantes por retratar essa mulher que ainda está vivendo seus dias de cão (é, eles não acabaram em Lungs) e busca compreender como viver em meio a esse fenômeno caótico chamado Vida. Há mais diversão e as faixas soam menos excêntricas, o que consequentemente as torna mais acessíveis. Se Florence e seus músicos já tinham uma boa presença de palco antes, agora têm a chance de transformarem em uma banda pop com uma energia rock ainda maior.

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Comentários

    Muse – Drones (2015) | Escuta Essa!

    (3 de junho de 2015 - 12:10)

    […] ao invés de propor alguma outra ideia melódica ou harmônica, como acontece com o sopros em How Big, How Blue, How Beautiful de Florence + The […]

    Ejaculador

    (4 de junho de 2015 - 05:37)

    Achei legal os metais, mas podiam ser mais climáticos.
    A parte tribal da banda com a batera pesadaça … acabou.
    Florence era sombria e .. agora, tá ensolarada e romântica.
    Pra mim, caiu de nota 11 pra nota 6. Não é ruim, mas os dois outros são bem melhores.
    Ship to wreck tem uma guitarra totalmente The Cure, assim como Shake it off era bem Annie Lennox.
    O que mais desagradou é que não tá com aquela pegada CELTA carregada de antes …

      Matheus Kortz

      (16 de junho de 2015 - 00:10)

      Pois é, se a florence tinha uma pegada folkrock antes do Lungs e no próprio (já com um pézinho no pop) e em ceremonials ela usou e abusou de orquestração, principalmente nos acústicos (heartlines acoustic foi pra mim a melhor música e talvez ainda seja do “popular” em anos, quiça décadas), aqui a florence não foi pra um lado nem outro, há elementos disso e daquilo. De fato queen of peace é das melhores (digno de tocar em um kill bill 3) e various saints and storms, em que a musicalidade e o timbre da Flo chega a lembrar o de simone simons/Epica. Which Witch esbanja criatividade com batidas que lembram o folk, gritos-pop e um coro quasi-barroco. embora a finalização sinfônica de HBHBHB seja demais, ficou a desejar como What Kind of man, embora não seja a pior. Ship to wreck é salva pela versão acustica (uma quasidogdays). E delilah tbm é muito boa, mas indefinida e com composições claramente inferiores às de Ceremonials e às possibilidades de performance de Lungs, é um álbum mediano, só não chega a ser medícore porque se trata da Florence.

        Lucas Scaliza

        (16 de junho de 2015 - 01:07)

        Eu acho que ela já tem um bom repertório folk e puxadinho para o celta. Então entendo que dessa vez ela queira mostrar que pode ser diferente, carregar algo que já é dela e aplicar no pop/rock. Se ela tivesse continuado naquela pegada do Ceremonials, talvez viesse coisa boa também. Mas respeito a decisão dela de dar um passo não à frente, mas para o lado. Ela não desbrava o horizonte, mas amplia seu espectro.

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