Gal Costa – Estratosférica (2015)

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Gal roqueira, Gal sintetizada, Gal cósmica: o nome dela é Gal!

Por Lucas Scaliza

Dá para dizer que a baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos tem uma carreira irretocável? Com 50 anos de música e 36 álbuns lançados, Gal Costa de fato incorporou o tropicalismo e nunca deixou de fazer o sincretismo entre o novo e o tradicional, o formal e a experiência, o violão à João Gilberto e a guitarra à Hendrix, a orquestração e os sintetizadores.

Dentre todos os artistas que se revelaram no Brasil da década de 1960, no pós-bossa nova, apenas alguns conseguiram ficar em dia com a música que se seguiu não no Brasil, mas no mundo. Gal é uma dessas. Enquanto os Beatles mostravam musicalidade arrojada com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1968) e Abbey Road (1969) e o Pink Floyd já tinha no currículo as pirações de The Piper At The Gates of Dawn (1967) e A Saucerful of Secrets (1968), Gal se mostrava em dia com a estética dos ingleses com os ótimos Gal e Gal Costa, ambos de 1969 e mostrando a cantora jogando a bossa nova e o samba na fumaça do psicodelismo. Isso sem falar nas experiências que já ocorriam com todo o Tropicalismo de Caetano, Gil e dos Mutantes.

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Com Estratosférica, Gal coroa toda essa carreira e continua a apostar em algo novo. Ou melhor, em muitos novos compositores que despontaram na cena nacional da última década. Gal não é uma compositora, mas sempre foi uma grande intérprete e sempre contou com ótimos times para cada álbum (sendo Caetano Veloso uma presença constante em sua discografia). Dessa vez ela gravou criações de Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Céu, Thalma de Freitas, Junio Barreto, Bactéria e Pupilo, Lira e uma parceria de Criolo e Milton Nascimento. Sem falar em outros que já contribuíram antes, como Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Tom Zé, João Donato e, claro, Caetano, mas dessa vez em parceria com Zeca Veloso, seu filho.

Ocorrem duas coisas: primeiro: qualquer um que revisite a discografia de Gal perceberá o quanto ela é atual e sempre propôs uma abordagem estética inquietante. Segundo: em tempos de Tame Impala, muitos jovens são capazes não só de descobrir Gal como também de se sentirem conectados a ela. Recanto (2011), seu álbum anterior de inéditas, produzido por Caetano e Kassin, por exemplo, já era algo bastante avançado para a MPB brasileira: com uma economia de sons e incursão pela eletrônica artística, parecia algo que esperaríamos de Björk – mas era de uma brasileira, já com mais de 60 anos, e aquela voz linda de sempre.

Unindo então a criação de gente jovem contemporânea à voz e à banda de uma Gal que nunca quis ficar presa a uma determinada época, temos aqui um 36º disco que continua acrescentando musicalidade e forma à carreira. Estratosférica faz Gal rejuvenescer, parecer fresca e revigorante. Não é a toa que Ava Rocha bebeu da fonte psicodélica de Gal para fazer o ótimo Ava Patrya Yndia Yracema.

E é talvez remetendo a outra juventude, a da própria baiana em 69, que o álbum abre com uma guitarra nervosa em “Sem medo nem esperança”, composição de Antônio Cícero que Gal chamou simplesmente de “fodástica”. “Jabitacá” e “Estratosférica” são quase como filhas do disco Gal Tropical (1979), com a malemolência e sons etéreos colorindo a primeira (como um céu estrelado do litoral) e a segunda toda cheia de suingue. “Ecstasy”, mais carioca, e ainda assim um timbre moderno e aveludado, mostra que as mãos dos ótimos produtores Kassin e Moreno Veloso pesaram. O que poderia ser uma bossa nova (e é, na verdade, uma bossa nova) acaba não soando tradicional. A linda “Dez Anjos” tem arranjos que fazem a orquestração e a percussão soarem profundos e viajantes. Uma das melhores faixas do álbum, uma parceria de Milton e Criolo. “Espelho D’Água”, de Marcelo e Thiago segue na mesma toada, viajamos na música a cada ciclo completo do dedilhado da guitarra.

O samba com sintetizador “Quando você olha para ela”, composição de Mallu Magalhães, é o primeiro single de Estratosférica. É uma faixa bem leve, estilo Banda do Mar, não uma faixa que manda um recado e marca uma posição, como “Sem medo nem esperança”. É tão possível imaginar a música na voz de Mallu quanto é bom percebermos que gostamos dela no disco da Gal. “Por Baixo” é uma das faixas mais interessantes, quase totalmente sintetizada e com um texto erótico. Não por acaso, é fruto de outra mente inquieta: Tom Zé. Já “Casca” tem todo o jeito de uma música da Céu, mas os autores são Jonas Sá e Alberto Continentino. “Muita Sorte” é como uma continuação de Recanto, só que mais ensolarada. E “Anuviar” trabalha as pausas como arranjos, para chegar a um refrão bastante psicodélico.

A turnê de Estratosférica ainda não tem data para começar, mas após ouvir o disco fica claro que a recriação do ambiente e dos efeitos de estúdio no palco vai ser um dos elementos que deverá chamar a atenção do público. É provável que a banda tenha que fazer várias adaptações nos arranjos.

Se em Gal Costa havia os arranjos modernos do maestro Alexandre Duprat e Gal tinha a produção lisérgica de Manuel Barenbeim – ambos de 1969 e ambos inventivos –, Recanto e Estratosférica mantém a parceria de Kassin e Caetano, conferindo a ambos os trabalhos não só o mesmo nível de criatividade lá da ponta inicial de sua carreira, mas também o mesmo senso de compasso com o mundo, incorporando elementos avançados nos arranjos da música mundial. E não se preocupe: a Maria da Graça baiana e brasileira se faz sempre presente.

Existem fãs que esperam que seus artistas sejam saudosistas de um passado já idealizado e vivem a esperar shows recheados de passado, quase como se lançar um disco novo fosse apenas uma desculpa para sair em turnê com os velhos sucessos. Gal Costa não é assim. O que ela e sua equipe cria é para ser apresentado no palco também. E fico muito feliz ao ver que, ao longo de 50 anos, ela reverencia todo o seu passado sem nunca soar saudosista, sem tentar emular o que já passou. Aos 69 anos – embora a foto da capa do disco, feita por Bob Wolfenson, a mostre bastante retocada e rejuvenescida (o que não deixa de ter a ver com o clima do trabalho) –, Gal não precisa mais do tipo de comparação que mede seus álbuns entre melhores ou não. Basta saber que o bom gosto está presente e a vontade de seguir fazendo algo diferente está viva. Assim, não vamos julgar o novo álbum em comparação com outros, mas sim no contexto de seus outros 35 discos.

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Comentários

    Anderson

    (29 de maio de 2015 - 16:24)

    Falou tudo aquilo que eu pensava dizer sobre o disco… rs
    Eu já o ouço (exclusivamente ele, sem ouvir nada além dele) há uma semana exatamente. E posso dizer que a cada dia mais me apaixono.
    Parabéns pela resenha.

    […] Apesar de toda a habilidade musical dos envolvidos, The Monsanto Years é, musicalmente falando, uma repetição preguiçosa de tudo o que Neil Young já fez. Sejam os álbuns dos anos 70 ou os mais recentes, tudo soa como Neil Young. As pequenas invencionices e mudanças de formato que ele propõe não conseguem fazer sua música soar diferente, mais original ou se reinventar. Digamos que Young não é Gal Costa. […]

    […] 7. Gal Costa – Estratosférica […]

    […] é possível fazer associações com diversos artistas da Tropicália (Caetano, Gil, Tom Zé, Gal Costa) Novos Baianos, Mutantes. Ao mesmo tempo, temos artistas mais contemporâneos, como as bandas […]

    Dario

    (21 de setembro de 2015 - 02:07)

    Mas, meu caro, quer um disco mais saudista do que esse? É puro retrô… Com uma Gal minguada, sem a limpeza e luminosidade de anos atrás.De potência nem falemos. É previsível demais a leitura… (e com esse comentário, não viso desmerecer uma grande como Gal, mas salientar os convencionalismos das crítica, bem fácil de seduzir).

      Lucas Scaliza

      (21 de setembro de 2015 - 02:16)

      Agradeço a opinião, sr. FilhodaLua2000@yahoo. Mas acredito que você tenha que ler com cuidado, pois digo que a atitude dela não é saudosista, ao mesmo tempo em que o novo disco repassa as formas musicais e experimentações que fazem parte da sua longa carreira. E há sedução da crítica? Não sei, só sei que este crítico gostou e o texto MOSTRA porque achou bom. Você talvez não tenha achado tão bom. Acontece.

    […] discos do ano, ainda que a concorrência em 2015 seja fortíssima: Elza Soares, Tulipa Ruiz e Gal Costa também lançaram excelentes […]

    […] lista de vinte melhores de 2015), escreveu uma música em parceria com Alberto Continentino para o Estratosférica, da Gal Costa (“Casca”), e finalmente conseguiu lançar o seu segundo álbum, BLAM! […]

    Kaytranada – 99,9% (2016) | Escuta Essa!

    (2 de dezembro de 2016 - 19:54)

    […] na hora de desenvolver suas ideias. As experimentações vão desde utilizar um sample da voz de Gal Costa – em “Lite Spots”, na qual ele adequa a gravação de “Pontos de Luz” (1973) ao seu ritmo […]

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