The Tangent – A Spark In The Aether (2015)

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Nem todo dream team faz um álbum dos sonhos, mas ainda assim vale a pena

Por Lucas Scaliza

O rock progressivo, famoso no final dos anos 60 e até meados de 70, nunca morreu completamente. E a virada dos anos 90 para o século 21 apresentou diversas novas bandas que carregam a bandeira do estilo, seja voltando a ele na forma como era executado há 40 anos ou atualizando-o. Também já dissemos diversas vezes em outras resenhas do Escuta Essa! como a Escandinávia tem sido um ótimo celeiro de bandas progressivas, como as suecas The Flower Kings, Pain of Salvation, Opeth, Beardfish, Anekdoten, entre tantas outras. Sem falar no estilo que continua vivo na Inglaterra com a volta de King Crimson, Yes e Van der Graaf Generator ou com o novo impulso que o estilo ganhou com os esforços criativos do Porcupine Tree e o excelente trabalho solo de Steven Wilson.

Agora imagine formar uma banda em que cada músico vem de uma outra banda famosa (para o progressivo e para a Europa). Já vimos esse tipo de dream team criar coisas muito pretensiosas, como é o caso do Transatlantic (capitaneado pelos americanos Mike Portnoy, ex-baterista do Dream Theater, e pelo tecladista Neal Morse, ex-Spock’s Beard) e do Flying Colors. O The Tangent é outro desses dream teams do progressivo. A bateria é do sueco Morgan Agren, (que já tocou com Frank Zappa, Kaipa e Devin Townsend). O baixo é do ótimo Jonas Reingold, do Flower Kings. Os sopros ficam a cargo de Theo Travis, músico de fuzion inglês que já trabalhou com Robert Fripp, Gong e Steven Wilson. O guitarrista é Luke Machin (da banda Maschine), uma novidade para a cena. E há o líder do projeto, o tecladista e vocalista Andy Tillison. A cada novo álbum, alguém entra ou sai da banda, mas Tillison figura nos oito discos do The Tangent.

Apesar dos ótimos momentos, A Spark In The Aether poderia empolgar mais. É bonito, é bem feito, mas carece de força. No final das contas, o álbum não soa tão fresco e nem tão desafiante, mas é OK. Não chega a ser fraco como o Sattyg (2014), do Kaipa, e vale a pena ser ouvido.

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Foi dado um subtítulo ao trabalho: “The Music That Died Alone Volume 2”, uma referência ao primeiro disco do The Tangent, The Music That Died Alone (2003). Tanto lá como cá, a banda deixa os temas sociais de lado e falam sobre a música em si. Tillison diz que lá no início do novo século ele achava que a música (progressiva, pretensiosa, que buscava caminhos mais criativos) iria degringolar. Mas viu uma geração de novos músicos e bandas preocupados com essas questões que não deixaram que isso ocorresse (lembra das bandas que voltaram e das que surgiram citadas no 1º parágrafo?). Então A Spark In The Aether é uma reflexão sobre isso.

“Codpieces and Capes”, a primeira música progressiva do disco, aborda diretamente o assunto com bastante alegria. Enquanto o teclado de Tillison pode ser ouvido quase que a todo momento fazendo o principal riff, ouvimos também o baixo criativo e preciso de Jonas Reingold, que sempre caminha na direção do rock, mas com fraseados jazzísticos. E a mixagem da faixa destaca bastante seu instrumento. Leva mais de cinco minutos para que a guitarra de Maschin comece a fazer a diferença, até explodir em um solo estridente. Já a faixa-título é bem direta e sem surpresas. Se apoia em um único riff, executado por teclado, baixo e guitarra.

Theo Travis usa clarinete, flauta e saxofone ao longo do disco. Não é soturno como sua parceria com Fripp e nem jazz como nos discos de Steven Wilson. Ele aposta em linhas melódicas mais softcore que lembram bastante a música popular brasileira.

“Clearing the Attic” é bastante feel good e mais jazz, usa a boa condução de Agren e o baixo criativo de Reingold para manter o ritmo pulsante até sua metade, quando a música dá uma guinada e apresenta um trecho instrumental mais denso em que cada músico tem sua chance de mostrar o que sabe. “Aftereugene” é a faixa mais experimental do álbum e dá espaço para que todos os músicos mostrem seu lado mais abstrato. É a participação mais legal de Theo Travis. Fãs de progressivo não deverão estranhar, já que estranhezas fazem parte do estilo. E tudo volta ao normal na longa “The Celluloid Road”, com seus 21 minutos de duração.

Deixando tudo nas mãos de Tillison e de Reingold, que carregam boa parte da faixa, Luke Maschin fica livre para improvisar fraseados ágeis ao longo dos versos. A faixa, que é boa, mas poderia ter mais força em sua primeira metade, flerta com o blues, com o jazz, com o rock americano e até com o funk (que ocupa quase toda a segunda metade da faixa). Isso parte de uma admiração que o líder do The Tangent tem pela forma de prog que os americanos desenvolveram e também por bandas como Earth, Wind & Fire e Tower of Power. A letra também faz referências diretas à América (os EUA, no caso) e a São Francisco.

Por fim, terminam A Spark In The Aether de uma forma que tem a ver com o conceito do álbum: com a quase instrumental “A Spark In The Aether (part 2)”. The Tangent é sobretudo uma banda de bons instrumentistas. E já que o disco é sobre a música em si, nada mais coeso do que deixar os instrumentos falarem por si. A única exceção é a recuperação do refrão da primeira faixa.

Para que fique claro: apesar dos bons momentos, das boas idéias e das good vibes, o novo trabalho do The Tangent não é nada ambicioso. Com exceção das passagens mais funkeadas, há poucos elementos novos para a discografia. Até mesmo as orquestrações que estavam no disco anterior, Le Sacre Du Travail (2013) , form tiradas, em favor de um som mais orgânico e que privilegie a instrumentação dos cinco músicos. Não vai entrar para os clássicos do gênero, mas mesmo assim é bom de ouvir. Não é pesado e, dentro do progressivo, é bastante acessível, apesar das seções mais tecnicamente intrincadas. Além disso, é uma voz que atesta a qualidade da música contemporânea, que vai contra a ideia de que “hoje em dia não se faz música boa como antigamente”. Só não acha música boa hoje quem não quer ou quem tem preguiça. Afinal, se o ouvinte se acomodou, o problema não está na música.

 

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