Torre de Babel – O Homem da Montanha (2015)

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Banda chega ao 3º disco autoral com rock do bom e letras espertas cheias de metáforas

Por Lucas Scaliza

Atenção, atenção! Sirenes anunciam a falta de paz em nossa vida cotidiana. Mas anunciam também o rock e a volta da banda Torre de Babel em um trabalho inspirado, bem feito e tão preocupado com a mensagem que sua música é capaz de transmitir de forma simples quanto com a beleza dos arranjos, mas sem abrir mão de canções diretas. Acesse o site da banda para encontrar parte do material novo e discos antigos.

Torre de Babel é uma banda baseada em Barra Bonita, interior de São Paulo, e já teve diversas formações. Mas em seu centro, carregando desde os anos 90 o bastião do rock’n’roll autoral, está Aquino Batista. Ele é o guitarrista, letrista, vocalista e compositor do grupo, assumindo também o coração e alma do trabalho, como ocorre já há muito tempo com Billy Corgan em relação ao Smashing Pumpkins ou Daniel Gildenlöw em relação ao Pain Of Salvation, bandas cuja formação original não existe faz tempo, mas o homem fundador ainda carrega a personalidade da banda.

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O Homem da Montanha é o terceiro disco de estúdio da Torre de Babel, mas já é o quinto disco da carreira de Aquino (que lançou dois LPs, um solo em 1983 e outro em 1992 sob o nome de República F.). Além disso, talvez valha a pena ressaltar que Aquino é um colecionador de álbuns de dar inveja a qualquer colecionador, tendo gavetas e mais gavetas de CDs além de um cômodo só para guardar vinis adquiridos ao longo de uma vida toda. Rock psicodélico, rock progressivo, blues, soul, Bowie, MPB, rock clássico… uma miríade de estilos, bandas e épocas.

Mas com tantas referências pessoais em casa pode parecer que O Homem da Montanha é um aglutinado de tudo isso. Com certeza toda essa experiência musical está presente, de um modo ou de outro, na concepção da música feita por Aquino Batista. No entanto, para este álbum, notamos uma pegada bem direta e que desvia-se pouco do rock. Com quase uma hora de som e 14 faixas, é uma obra coesa e que não engana e nem enfada o ouvinte.

“Toda Paz”, a música das sirenes, martela o baixo de Matheus Brentan na orelha, batidas fortes de Eli Maciel e uma guitarra que se divide entre riffs e acordes power. Uma música animada e para cima enquanto a letra cai bem em nossa realidade brasileira com tantos escândalos, corrupção e ataques de polícia sobre professores, perturbando a paz e sem deixar claro se somos “heróis ou sobreviventes”, como diz a letra.

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Aquino Batista. Foto: Lucas Scaliza

“O Pinguim e o Urso Polar”, com toda a pegada do hard rock anos 90, é recheada de riffs e não dá trégua para o ouvinte. Como “Toda Paz”, por baixo de sua guitarrada nervosa, está uma letra até mesmo engraçada, mas que não retrata uma situação exatamente positiva, em que o urso polar (grande predador) leva uma vida de pinguim. Em um contexto freudiano, a letra poderia até ser entendida como a hecatombe da masculinidade neste complicado mundo contemporâneo.

“O Homem da Montanha”, faixa-título, é a música de trabalho e o único rock rural do álbum. Um tipo de som que está cada vez mais difícil de encontrar, mas a Torre de Babel encarou no melhor cruzamento entre Raul Seixas e Zé Geraldo. A letra também muito adequada à música, praticamente uma fábula em que tudo é metáfora e alegoria. “No alto da montanha mora um homem/ Com seus conflitos e seu dragão/ De vez em quando parece um anjo/ Outrora é apenas um selvagem cão”, canta Aquino.

Anderson Lima. Foto: Lucas Scaliza
Anderson Lima. Foto: Lucas Scaliza

“Brincando de Sonhar” tem um dos ritmos mais gostosos do disco, violões brilhantes e um uso interessante da guitarra com wah-wah. “E Aí Tudo Bem” tem um estilo quase indie rock e o refrão mais sing-a-long do disco, sem falar em fraseados espertos do baixo e violão. Já “Emoção Sublime” tem uma cara mais barroca e a guitarra de Sálvio Ery “Chalaça” carregada de overdrive que salta para o primeiro plano. Não é uma faixa pesada, mas a guitarra é quem comanda a faixa, soando novamente como o hard rock dos anos 90, como Roy Z em Balls To Picasso, do Bruce Dickinson. Ao longo de seus mais de 5 minutos, vários arranjos vão sendo inseridos, dando até mesmo um aspecto mais viajante a certos trechos. De certo modo, contrasta bastante com “Rock do Almoço”, guitarreira também, mas de uma forma mais convencional dentro do rock nacional, embora tenha um interlúdio cheio de efeitos que traz um risco saboroso ao som. Mais um solo de Chalaça que cai como uma luva ao rock da Torre e sem a necessidade de fritar.

Grande parte das faixas tem versos com melodias intuitivas, cuja letra é encaixada na métrica da harmonia. Esse recurso dá um aspecto bastante espontâneo e orgânico a O Homem da Montanha, mas acaba fazendo sobressair alguns vícios vocais. Ao longo do trabalho, o recurso torna os versos um pouco previsíveis, mas nada que incomode. Apenas os refrãos – todos muito bons – tem melodia mais desenvolvida e característica. “O Blues da Varanda”, anunciado com trovoadas, é uma das músicas em que a melodia de voz mais perfeitamente se encaixa na métrica da música. Também guitarreira com seu blues de Chicago, é uma das músicas que mais podem agradar quem procura rock do bom.

O disco é bem servido de baladas também, como “Eu e o Tempo”, que traz o gosto do rock do grupo, e a bela “Princesa do Sol Brilhante”, com um trabalho de arranjos muito bom, mas que sofre com os vícios da melodia de voz. E tem “Sorriso Antigo”, sobre saudade, que reúne Aquino aos vocais de sua filha, Júlia Lemes. Ela tinha apenas 15 anos quando gravou a música e o resultado é uma das canções mais destacadas de O Homem da Montanha. O excelente refrão tem a melhor melodia planejada da obra e o vocal de Júlia, sem agressividade e sem a pretensão de subir oitavas, faz a música funcionar muito bem. Não é uma participação qualquer, pois Aquino dá espaço para Júlia mostrar a voz plenamente. Aliás, “Sorriso Antigo” tem um enorme potencial radiofônico.

De modo geral, quem ouvir O Homem da Montanha vai perceber um quê de rock rural misturado com toda a herança do rock nacional, tanto aquele que vem de Brasília como o de São Paulo. Outra referência que vem a mente é a de Humberto Gessinger. Às vezes, o jeito de encadear as palavras e o timbre de voz de Aquino Batista lembra bastante o do vocalista do Engenheiros do Hawaii, como na regionalista “Olhando os canaviais”. Mas acredito que o tipo de preocupação do tipo soar pop/rock e ainda ter conteúdo, cheio de metáforas, é o que mais aproxima o estilo de Aquino de se expressar do de Gessinger. Não é o estilo mais cerebral de Jair Naves e Marcelo Camelo, Aquino aposta em algo mais despojado e com palavreado facilmente reconhecível por qualquer público.

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Joel Martins. Foto: Lucas Scaliza

Torre de Babel é uma banda independente. Seus integrantes, apaixonados pela música, se lançam a tocar por aí e fazer músicas próprias conforme a vida lhes dá espaço. Para que O Homem da Montanha fosse concluído foi preciso seis anos de dedicação. Aquino compõe as músicas e escreve as letras, deixando espaço para os músicos que chama para as gravações criarem arranjos e solos. A gravação começou em Jaú, no estúdio do experiente Carlos Francischini, que além de ajudar Aquino a dar forma às composições, contribuiu com arranjos, gravação de violões, guitarras e teclados.

Músicos de fora da banda também participaram, como o baterista Alexandre Barbosa e o baixista Norberto “Norba Rock And Roll” nas faixas “O Pinguim e o Urso Polar” e “O Blues da Varanda”. As outras faixas tem bateria competente de Eli Maciel, da banda Rotor, que também possui três discos de músicas autorais. Chalaça, que já dividiu as guitarras da banda com Anderson Lima (que faz um ótimo trabalho em “Toda Paz” e “Eu e o Tempo”), divide os vocais com Aquino em “Todo Mundo Tá Certo”, uma música bastante direta e com interlúdios alterando o compasso de 4/4 para 3/4.  E o baixista Joel Martins, também membro da banda e fã de U2, é responsável pelos baixos bem marcados de “Princesa do Sol Brilhante”, a climática “Emoção Sublime”, “O Homem da Montanha” e a animada “Rock do Almoço”. O baterista Adriano Volff completa a banda, mas ele esteve fora no período de gravações de seu instrumento.

O processo de gravação foi terminado em Lençóis Paulista, no estúdio Gênesis Hi Tech. Um processo árduo de criação artística que precisou ser conciliado dia após dia, semana após semana, com as ocupações profissionais “oficiais” dos músicos. Para se ter uma ideia, o disco anterior da banda, Não Tenham Pressa… é de 2006. Essa é a realidade da maioria das bandas realmente independentes e que bancam tudo de seus bolsos. O que fica claro é que não faltam meios de produção e nem criatividade, mas tempo para se dedicarem mais a isso.

Se há um ponto positivo em O Homem da Montanha, é ser um disco alternativo e divertido. Aquino e sua banda não pretendem fazer rock moderninho e adocicado como o Imagine Dragons, nem tentam flertar com a MPB e nem se limitam a ficar presos nos anos 90. As letras não são histórias de amor enfadonhas. Pelo contrário, elas carregam muitas provocações, algo de que carece o rock nacional. A única pretensão é fazer música que não seja vazia – e isso está garantido. Embora a capa seja um homem com asas, seus pés estão no chão, e a Torre de Babel não erra a direção musical que escolheu seguir. E a guitarra na mão não te engana: é um disco de rock. Simples assim e não é preciso ir mais longe do que isso para querer ouvir tudo outra vez.

Adriano Volff. Foto: Lucas Scaliza
Adriano Volff. Foto: Lucas Scaliza

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