Ava Rocha – Ava Patrya Yndia Yracema (2015)

 

Ava desafia os rótulos, mas é um disco cheio de tropicália e originalidade

Por Lucas Scaliza

Após lançar Diurno (2011), a banda Ava se dissolveu rapidamente no ano seguinte. Mas a cantora e compositora Ava Rocha levou à frente seu compromisso musical e estético em carreira solo. O resultado é um impressionante aglutinamento de referências e um estilo musical que desafia os rótulos, mas chama a atenção o quanto há de tropicália e, ao mesmo tempo, um quê acentuado de música brasileira indie. O disco está disponível no site oficial da artista.

A enorme gama de sonoridades é um esquema interessante em Ava Patrya Yndia Yracema, primeiro disco solo de Ava Rocha, filha dos cineastas brasileiros Glauber Rocha e Paula Gaitán. É uma recuperação de um tipo musical dos anos 60 que já se pretendia diverso e referencial a mil outras coisas naquela época. 50 anos depois, continua funcionando muito bem e exigindo criatividade de seus compositores e músicos. Uma faixa nunca é reta: toma desvios, muda completamente de mão e traz algum elemento insuspeito para dentro de si. “Boca do céu”, que abre o trabalho, é exemplar. Começa como uma ciranda de linguagem cifrada, bem ao estilo da Tropicália de Caetano e Gil lá atrás. Depois vira uma bossa nova. Daí, cai no indie psicodélico cheio de efeitos e ruídos para complementar a sonoridade. E tudo isso em apenas 5 minutos.

“O Jardim”, que parece que será uma balada regular, uma MPB mais clássica, tem um interlúdio espanholado que pega o ouvinte de surpresa. “Você não vai passar”, com seus sopros e bateria solta, emula um jazz americano, só que abrazucado e tropicalizado. A tão acessível “Transeunte coração”, que coloca sem medo uma guitarra marota para fazer seu núcleo melódico, é algo que não ficaria mal na discografia de Marcelo Jeneci, sobretudo em seu segundo disco, De Graça (2013). E aí você vai vendo que não há limites para Ava e seu grupo de músicos. “Auto das bacantes”, com sua mensagem mais social e política – e que cabe muito bem ao clima de protestos do Brasil atual – é uma letra de ordem com som mais eletrônico que só vai ficando cada vez mais pirado em ácido (aquele ruído é uma guitarra, mas poderia ser uma chaleira às vezes). The Flaming Lips mandou abraço!

“Hermética”, com sua ironia quanto ao som “cabeça oca” que inunda rádios, programas de TV de domingo e tal, tem seus momentos de Björk, principalmente na forma como usa o naipe de cordas que acompanham a voz. Importante lembrar que os termos Patrya Yndia Yracema do título do disco se fazem presentes o tempo todo. Uma sonoridade que tenta fazer referência a um Brasil mais indígena se evidencia aqui e ali, como no violão e percussão de “Uma” (com direito a participação vocal da filhinha da cantora) ou como em “Beijo no Asfalto”, que é tanto indie rock (repare na guitarra e na bateria) e bossa nova (repare no teclado, no violão, na voz), inicia com uma melodia em flauta e termina em chapação eletrônica. “Doce é o Amor” é uma das faixas mais bonitas do álbum, com arranjos bem feitos e marcantes.

As 12 faixas de Ava Patrya Yndia Yracema são únicas. Tão diversas entre si e tão esteticamente complementares como qualquer bom trabalho de compositores que tentam não se repetir e ainda assim fazer um álbum relevante. As referências à música brasileira e as aproximações com outros artistas atuais do mundo inteiro são inescapáveis, mas se tivesse que bater o martelo (e ainda assim deixar uma enorme margem para reinterpretações futuras), diria que o disco de Ava Rocha é aquilo que os Mutantes poderia ser no século 21 caso tivesse se reunido (inclusive com Rita Lee no elenco) para fazer músicas novas.

Violões, guitarras com fuzz, teclados e sons eletrônicos, ruídos, naipe de cordas, flauta, trompetes e outros sopros, piano, vibrafone, caxixi. Há uma miríade de instrumentos e músicos cariocas a disposição da cantora para tornar Ava Patrya Yndia Yracema um trabalho cheio de méritos e que se afasta da coxice da MPB que se esforça para ser trilha sonora de novela e soar mais pop do que propriamente “antropofágica”. Jonas Sá, que produz o disco, parece ter sido pecha chave nesse processo, mostrando estar em dia com a produção nacional e internacional, deixando o álbum de Ava com uma cara própria e não parecendo uma repetição de fórmulas.

A única fronteira é a própria música. Há experiências em álbuns que ultrapassam até mesmo essa linha demarcatória, mas Ava se mantém musical em todas as faixas, mesmo nas mais experimentais. Entre os discos nacionais de 2015, o de Ava Rocha é certamente um dos mais inventivos e originais. Quem está habituado a Mutantes, à década de 1970, a MPB de antes e de hoje, apreciará com gosto.

 

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.