Trickfinger – Trickfinger (2015)

Trickfinger

Frusciante perdeu o interesse na composição tradicional e mostra álbum de acid house

Por Lucas Scaliza

Se você espera que o John Frusciante volte a tocar com os Red Hot Chili Peppers ou se espera vê-lo de volta ao rock ou ao funk que o tornaram tão conhecidos, esqueça. Desde que deixou o RHCP, Frusciante passou a se dedicar a tipos de música muito diferentes do que vinha fazendo mesmo solo.

Ele não abandonou a guitarra, mas a colocou em contato com o hip hop, com o trip hop, com música eletrônica alternativa e chapada. Em 2014 ele lançou o ótimo Enclosure, que misturava sua guitarra, seu vocal rouco e diversas batidas eletrônicas quebradas e multifacetadas. Agora, sob o codinome Trickfinger, ele abandona o rock, a voz e a guitarra para fazer música eletrônica.

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Não faz muito tempo, ele declarou que já não gostava de fazer turnês extensas e nem de se apresentar ao vivo, o que era então um martírio para ele enquanto esteve no RHCP. Recentemente, para explicar seu novo álbum, Trickfinger, afirmou que passou a perseguir seu sonho: fazer música eletrônica e ser seu próprio engenheiro, cuidando de todas as etapas da produção de cada música. Tocando com diversos sintetizadores e música baseada em samples por 10 anos (o que vemos em seus discos solo), ele percebeu que esses aparelhos forçaram os programadores a descobrirem (e desenvolverem) um novo vocabulário musical.

Então, em 2007 o próprio Frusciante começou a programar todos esses instrumentos digitais e/ou eletrônicos. Chegou a colocar para tocar até 10 dessas máquinas de uma vez, todas ligadas a um mixer. Era como uma banda, mas tudo programado. O resultado foram faixas de acid house experimental. “Minhas habilidades no rock não tiveram qualquer papel nisso aí. Eu perdi o interesse no jeito tradicional de compor e estou animado com a descoberta de novos métodos para criar música. Me cerco de máquinas, programo uma delas e curto o que foi um processo fascinante do início ao fim”, ele declara.

Você não reconhece Frusciante em nenhuma parte de Trickfinger. Ou pelo menos, não reconhece o cara cabeludo que costumava tocar guitarra. O “truque do dedo” aqui não acontece mais nas seis cordas de uma Fender ou Gibson, mas com diversos botões e aparelhos que disparam batidas, efeitos e melodias diferentes.

É bom deixar claro que Frusciante não faz música para baladas. Embora seja dotado de experiência suficiente para fazer músicas boas e com potencial comercial, ele simplesmente não está mais interessado nisso. Mesmo sua música eletrônica é alternativa, não é cativante de cara. Ainda assim, é acid house, ou seja, é uma música em que você identifica facilmente a métrica, seus loopings e prevê para onde ela vai e quais são seus elementos. Ainda não é uma música eletrônica como Thom Yorke apresentou em Tomorrow’s Modern Boxes (2014), mais etérea e fantasmagórica, descolada de sonoridades que evoquem materialidade.

Em diversos momentos, como em “Before Above”, soa como uma música retrô ou que ficaria melhor localizada nos anos 90. Ecos de Daft Punk e de eurodance também estão presentes como elementos ao longo do disco, mas nunca como estilo. “Rainover” tem bateria e baixos eletrônicos bem feitos e melodias ágeis que se complementam. Dá para ver que Frusciante conhece o panorama da música eletrônica e sabia onde queria chegar com sua experiência. Com uma enorme miríade de sons diferentes a sua disposição, ele aglutina-os e usando a inserção deles como elementos diferenciadores que mantém a faixa interessante. Como há muitos loops, não há refrãos para facilitar a audição. Mas há melodias que se repetem para nos lembrar do que estamos ouvindo.

O grande trunfo de Frusciante é ter reaprendido a ser músico. Não há partitura, não há notação musical rígida. Mas ele realmente “toca” os sintetizadores e máquinas sonoras que estão à sua disposição. Ele precisou aprender a extrair sons, notas, tonalidades e timbres de cada um e programá-los, que é o equivalente a tocar. Não são meramente sons sendo feitos todos por um programa de computador. É um misto de orgânico e eletrônico. Um músico sendo um músico, mas de um jeito diferente do que insistimos chamar de convencional.

Não ouça o disco esperando encontrar o guitarrista. E não julgue Trickfinger com os ouvidos de quem um dia conheceu o cara que gravou Californication, Arcadium Stadium ou The Empyrean. É preciso pensar diferente para avaliar o que Frusciante traz de diferente.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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