Modest Mouse – Strangers To Ourselves (2015)

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Após 8 anos de espera, novo disco é criativo e divertido, mas vamos com calma

Por Lucas Scaliza

“Strangers to ourselves”, a faixa, que abre o disco de mesmo nome, é quase como uma pílula (sintética) de calmaria para a festa que a banda fará pelos próximos 54 minutos. Não deixa de demonstrar que o Modest Mouse continua sendo uma banda indie e com muita lenha para queimar. Difícil saber se surpreende o ouvinte, mas com certeza consegue um resultado substancialmente melhor que o Weezer nos últimos anos.

Strangers To Ourselves tem uma influência bastante acentuada de hip hop que não se restringe apenas a “Lampshades on fire”, a primeira música de trabalho divulgada pela banda. “Pistol”, além do jeitão hip hop, é toda eletrônica. Talvez dado a isso ou ao vocal de Isaac Brock, fiquei esperando a hora em que o norte-americano arroz-de-festa Pìtbull ia dar as caras como participação surpresa. :p

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Brincadeiras a parte, é bom deixar claro que o Modest Mouse não abandonou o indie rock. Apesar de a influência eletrônica ser grande, Isaac ainda tem o mesmo estilo vocal espontâneo e com jeito despreocupado, sem parecer melodias cuidadosamente planejadas. “The ground walks, with time in box” é um exemplo de Modest Mouse fazendo o que sempre fez e atualizando o som. E “Coyotes”, outra ótima composição do novo trabalho, vem com os violões e compasso 3/4 que ficaria ótimo também numa obra dos The Decemberists.

Isaac & Cia. continuam também aglutinando referências para criar faixas animadas, com jeito visceral, e dançantes, tudo ao mesmo tempo, tudo na mesma festa. “Sugar boats” desponta nesse setor e parece ser o tipo de música que, se for possível tocar ao vivo, terá um resultado interessante. “Be brave” é outra boa canção, com refrão forte e cara de hino. “The best room” não é exatamente uma ideia inédita, mas cumpre seu papel. Há ainda os momentos mais arrastados, como “The tortoise and the tourist”, “Shit in your cut” e a climática “Of course we know”.

Há muitos caminhos a seguir em Strangers To Ourselves, mas a banda por mais diversificada que queira ser sempre acaba sendo fiel ao seu DNA no modo de encarar suas composições. Pode parecer um pouco estranho a forma como algumas faixas se desenvolvem, mas tudo está sempre no lugar, fica claro que a banda quer manter seu lado alternativo bastante eloquente. São duas características do Modest Mouse que contribuem com a coesão do disco.

É possível, inclusive, traçar diversos paralelos entre a banda e Strangers To Ourselves com o também recém-lançado Smoke + Mirrors do Imagine Dragons. Nenhum dos dois são grandes álbuns, mas os dragões atiram para todo lado tentando acertar todas as tendências pop/rock/eletrônica/indie do momento. Além disso, as composições parecem imperfeitas. Já os ratos tem a experiência a seu favor e uma mão bem melhor para encaixar suas excentricidades. Uma mesma faixa pode começar bem água com açúcar e chegar a passagens bem marcantes com guitarras distorcidas e ritmo mais intenso sem precisar pensar em como entreter multidões em arenas.

A multiplicidade de sons e estilos que encontramos no trabalho é reflexo da nova formação do grupo. Isaac Brock ainda é, é claro, a voz do grupo e uma de suas guitarras. Jeremiah Green na bateria, Jim Fairchild e Russel Higbee estão ótimos na guitarra e no baixo. Lisa Molinaro se divide entre o teclado e a viola, enquanto Tom Pelloso fica com flauta, trompete, teclados e baixo vertical.

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Para uma banda que está na cena desde 1993, o Modest Mouse lançou poucos discos. Strangers To Ourselves é apenas o sexto disco completo de estúdio da banda (existem os EPs também) e sucessor de We Were Dead Before The Ship Even Sank, de oito anos atrás. Foi um longo tempo de espera por um novo álbum, embora a banda não tenha parado suas atividades durante esse tempo. E os fãs terão uma recompensa pela espera? Talvez. É um desses discos que tem aspectos muito bem-vindos e outros em que nos sentimentos indiferentes. Ao longo de 15 faixas, a maioria delas de 3 a 4 minutos e meio, conseguem em poucos momentos colocar ideias e passagens que sejam de fato marcantes.

Futurology, dos Manic Street Preachers, também não é um disco que vá ser lembrado pela eternidade na discografia da banda escocesa, mas tem muitos momentos memoráveis, além de mostrar que os Manics se mantêm criativos e alternativos, sabendo utilizar novas influências em seu estilo próprio. O mesmo ocorre com o novo disco do Modest Mouse: atualização bem feita, criatividade presente e muito divertido, mas resultado apenas bom.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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