Jessica Pratt – On Your Own Love Again (2015)

On Your Own Love Again

Folk gentil com uma leve textura psicodélica

Por Lucas Scaliza

Toda a beleza de On Your Own Love Again reside naquela habilidade de transformar a aparente simplicidade em algo digno de nota. Nenhuma das nove faixas do segundo disco de Jessica Pratt mira a grandiosidade ou a explosão. A menina também está sozinha nessa empreitada de beleza, intimidade e fofura: sua voz, seu violão dedilhado, um segundo violão para diversificar os arranjos e um teclado para fazer uma cama sonora para a harmonia. Percussão quase inexistente. Os únicos baixos existentes aqui são as notas graves do violão tocados pelo dedão de Jessica.

O resultado é um folk parecido com aquele praticado pela dupla norueguesa Kings of Convenience, só que mais cru (embora não tão cru quanto o Crush Songs de Katen O). A crueza tem explicação: Jessica gravou o disco em sua casa ao longo de dois anos. Para isso ela usou um aparelho de apenas quatro pistas, um Tascam 424 Mk Portastudio 4-Track. Só a mixagem teve a ajuda de Will Canzoneri. Como artista folk, Pratt é autora de tudo o que toca, uma atitude que sempre é muito valorizada nesse estilo de música.

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Com poucos recursos, ela consegue fazer uma música que parece menos western e mais viajante, com um leve sabor de psicodelia. A harmonia e o teclado de “Wrong hand”, que inaugura On Your Own Love Again, já deixa isso bastante claro. A influência das experiências dos anos 60 se acentua na forma como conduz as vocalizações na hipnótica “Strange melody”. Já “Game that I play”, com uma acentuação mais pop e um dedilhado cuidadoso, sem falar na guinada de seu terço final, é o que há de mais acessível e também de mais legal no disco.

Embora tenha vivido por sete anos em São Francisco e more em Los Angeles desde que seu primeiro disco, Jessica Pratt (2012) lançou sua carreira e recebeu atenção do público e da crítica, Pratt já viveu em Seattle, no Iowa e no Novo México antes de montar barraca na California e ser reconhecida como parte da cena musical do local. Os detalhes mais experimentais e viajantes localizariam por si só sua sonoridade ao ensolarado estado dos EUA, mas há uma falta de seriedade e uma escapatória de ritmos mais “tradicionais” do estilo que logo nos deixariam saber que não é parte da cena de Nova York ou do meio-oeste. Embora tenha seu colorido, o disco dela parece bastante nublado e um pouco triste, mas nada de cortar os pulsos ou desnecessariamente dramático. Entre as músicas que ouvia – e que não exatamente a inspiraram, mas está em seu repertório de qualquer forma – estão Iggy Pop e Frank Zappa. Teve uma fase fanática por Rolling Stones e admira Marianne Faithful. E quando comprou seu primeiro violão aos 15 anos, tirava T. Rex e Donovan e não tardou para começar a compor suas próprias músicas. Aliás, seu primeiro disco é totalmente composto de músicas que ele tinha na gaveta, canções que não foram planejadas para um álbum.

A voz soprano de Jessica Pratt é tanto um enigma quanto uma atração à parte. Você sente que há muito mais voz para colocar em cada frase, mas o contexto da música folk pede sobriedade na interpretação, e é o que ela nos entrega em canções como “On your own love again” e na ótima “Jacquelyn in the background”. Embora ela seja jovem (se aproximando dos 30 anos agora), seu jeito de lidar com o amor, com os rompimentos, com o amor ausente são mais maduros do que outras artistas de mesma idade contam em um contexto mais pop. Mas sua voz tem aquela qualidade de soar macia, suave e reconfortante. “Greycedes” e “Moon dude” são bons exemplos disso, mas nada supera a maneira como canta em “Back, baby”, principalmente quando diz “If there was a time…” e “Sometimes I pray for the rain” bem no finalzinho.

Pratt não é uma artista que entrou com um pé na porta das paradas musicais. Apesar dos elogios que vem recebendo – e com razão –, ela ainda é uma artista indie que não lota estádios ou estacionamentos. E sua música nem combinaria com grandes produções. Em todas as faixas é possível imaginar quanto corpo cada composição ganharia se houvesse uma bateria, um baixo e um solo de guitarra aqui ou ali. Mas a economia de recursos é parte do show. Manter composições tão boas apenas com voz, um par de violões e um teclado deixa espaço para a imaginação.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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