Steven Wilson – Hand. Cannot. Erase. (2015)

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Steven Wilson mostra de novo porque é um dos compositores mais interessantes do momento e do rock progressivo

Por Lucas Scaliza

Steven Wilson está ficando mais pop? E essa música eletrônica? Essas foram algumas perguntas que fãs do cantor, multi-instrumentista, produtor e compositor inglês se fizeram após ouvirem as duas faixas mais acessíveis de seu novo disco, Hand. Cannot. Erase. O medo – ou o julgamento – implícito nas questões era apressado. O álbum cobre um amplo terreno sonoro que vai sim do pop ao eletrônico, mas não deixa nenhuma das características de Wilson e sua ótima banda de fora do produto final. Além disso, desde Porcupine Tree e do projeto Blackfield (com o israelense Aviv Greffen), SW mostra que faz pop de qualidade e com a sua cara. Já o eletrônico é algo que surge como estética, não como estilo em si.

Hand. Cannot. Erase. é o primeiro disco conceitual da carreira solo de Wilson, no sentido de que todas as faixas, letras e o enorme projeto gráfico que acompanha o CD ajudam a contar a história de uma mulher que vive na cidade grande e experimenta uma profunda isolação, ao passo que começa a sofrer alucinações e visitas estarrecedoras em um processo de se auto apagar e parecer invisível à sociedade. Antes do disco sair, o cantor lançou um blog como um diário que complementa a narrativa e a experiência do tema. A história foi inspirada pelo caso de Joyce Carol Vincent que, morando em Londres, permaneceu morta em seu apartamento por dois anos sem que ninguém sentisse sua falta. O caso é retratado no documentário Dreams of a Life (2011), que SW assistiu.

Foto: Lasse Hoile
Foto: Lasse Hoile

Em suas recentes entrevistas, SW tem deixando muito claro sua opinião sobre esse tipo de sociedade apática e sem vínculos entre as pessoas nas grandes cidades e o músico até faz um paralelo com sua própria vida entre as fases em que morou em Londres e no subúrbio (onde voltou a viver recentemente, muito mais feliz, segundo ele). Também fez questão de ressaltar que a sonoridade do novo disco teria outros elementos, já como uma forma de não dizer que não avisou os ouvintes mais impressionáveis. No entanto, com ou sem avisos, o que ele e sua banda entregam é um disco que mais uma vez se equilibra perfeitamente entre a técnica e emoção, virtuose e momentos mais introspectivos.

Logo em “3 Years Older”, faixa de mais de 10 minutos, que inaugura Hand. Cannot. Erase. Steven Wilson já mostra a miríade de formas que sua música pode tomar. Assim como em The Raven Tha Refused To Sing (2013), seu rock progressivo tem uma banda para carregar a canção e ele sabe dar espaço para cada músico ter o seu momento. Dois solos de baixo, dois solos de guitarra e ritmos que variam da balada – como nos versos e refrãos – para uma dinâmica mais elevada em diversas partes instrumentais. Enquanto o primeiro solo de Adam Holzman é no piano, mais doce e sentimental, seu segundo momento assume teclados bem mais abstratos e cheio de notas fora da escala. Uma montanha russa.

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“Hand. Cannot. Erase.”, a faixa título, é uma das canções mais acessível que Steven Wilson já compôs. A banda, buscando ainda mais abertura e variedade musical, conseguiu fazer um pop eletrônico em tom maior, mas não é banal como pode parecer se julgada apressadamente. O compasso de “Hand. Cannot. Erase.” é, durante versos e refrão, 9/4, enquanto o solo de guitarra é tocado sobre um compasso de 4/4. Esse tipo de alteração é bastante incomum para a música pop eletrônica em geral que preza pela regularidade, mas totalmente de acordo com a estética do rock progressivo e que SW cultiva desde sempre. “Perfect Life” segue na mesma linha, um eletropop de batida mais regular e mais bem marcada. Wilson se limita a cantar apenas o refrão e uma voz feminina narra um trecho do blog de sua protagonista solitária.

“Routine”, que inaugura os vocais da israelense Ninet Tayeb, tem a mesma pegada de “The Watchmaker”, do disco anterior. Wilson dá vazão a ritmos mais regionais e uma boa interação entre violão de aço e o piano mais clássico de Holzman. A característica guitarra de Guthrie Govan faz sua entrada no segundo ato da faixa. Um primeiro solo sem pressa e um segundo bem mais carregado de efeitos e priorizando notas de duração mais longa. A interação de toda a banda – as viradas da bateria de Marco Minnemann, os grandes teclados de Holzman e as notas graves de Nick Beggs – com o vocal de Ninet Tayeb fazem uma das melhores seções da composição.

Assim como Grace For Drowning (2011) estava cheio de momentos tensos e abstratos, lidando com temas pesados que tentavam encontrar uma forma de serem expressos em música, SW e sua banda encontram o mesmo desafio no novo trabalho. Mas dessa vez, sem jazz. “Home Invasion” é quase toda construída em torno de suspense e tensão. O clima só abre quando a voz aparece e chega ao refrão, um breve momento mais melódico de alívio que lembra os anos mais psicodélicos do Porcupine Tree. A faixa encontra uma continuação na instrumental “Regret #9”. Interessante reparar como SW e sua banda encontraram um jeito de incluir a música eletrônica em sua sonoridade sem parecer feita por computadores. Os efeitos de sintetizador que dominam a primeira parte de “Regret #9” são uma grata novidade ao espectro sonoro de Wilson e lembram as passagens mais experimentais que vão tanto de um Pink Floyd quanto de um Daft Punk. O operador da máquina não se furta a criar fraseados marcantes e subir e descer escalas como um virtuose de notas e timbres. Na segunda parte, Guthrie Govan faz seu solo mais marcadamente rock’n’roll do disco – e ele tem um amplo espaço para fazê-lo, já que a harmonia e a dinâmica da banda ajudam a conduzir a evolução do solo, como fizeram na marcante “Drive Home” de The Raven That Refused To Sing.

A curta duração de “Transience” dava sinais de que seria mais uma música de passagem, mas tem brilho próprio. Uma faixa carregada de clima e mais uma participação do violão de aço. “Ancestral”, com mais de 13 minutos, é soturna e faz ótimo uso de elementos eletrônicos – como os cliques percussivos –, complementados com destreza por Nick Beggs em seu Chapman stick. Holzman, de longe o músico que mais contribui com a atmosfera urbana, noturna, misteriosa e claustrofóbica do disco, deixa uma mão no piano e outra no teclado. Uma faixa dessa magnitude você pode, como é previsível, esperar mais uma montanha russa de emoções, com mais uma participação de Nina, passagens mais pesadas e tensas, outras mais tranquilas, e mais mudanças de compasso. Há uma seção lá pelos oito minutos de música em que Beggs e Guthrie fazem um dueto bastante heavy metal e Marco Minnemann contribui quebrando os ritmos, mantendo apenas as acentuações para localizar a banda no tempo da música. É a faixa mais King Crimson de Hand. Cannot. Erase. Para efeitos de comparação, a faixa lembra a dinâmica imposta em “No twilight within the courts of the Sun” e “Remainder the Black Dog”, outras duas da vertente mais virtuosa e perturbadora de Steven Wilson.

A melodiosa “Happy Returns”, que recupera um tema encontrado no início do álbum, é uma bela interpretação de SW no violão. Ele até cita trens na música e faz uma vocalização com “tururus e laralaus”. Depois de um álbum cheio de momentos tensos, a opção de terminá-lo com “Happy Returns” não soa estranho. Em Grace For Drowning, a jornada de dois discos desembocava na luminosa “Like dust I have cleared from my eyes”, assim como The Raven… acaba com a faixa título, que é lúgubre, mas romântica de certa forma. O piano de Holzman e o coral de meninos – ideia que Wilson assumidamente pegou emprestado de Kate Bush – finaliza de vez a obra em “Ascendant here on…”.

Como grande parte da história que SW quer contar no trabalho está no blog de sua protagonista, a ênfase no disco é, mais uma vez, as composições, cheias de longas passagens instrumentais. Leva mais de três minutos até que possamos ouvir o primeiro verso do cantor em “Home Invasion”, por exemplo. E essa ênfase termina colocando os limites do rock progressivo a prova: de um lado, seu estilo de música se aproxima mais do pop e do eletropop (“Hand. Cannot. Erase.” e “Perfect Life”), de outro faz uma ótima incorporação de elementos eletrônicos que são o principal fator que diferencia Hand. Cannot. Erase. de seus outros discos e faz valer a máxima da “não repetição” que o compositor tem apregoado não é de hoje em diversas entrevistas. E mesmo assim, não deixou faltar as características progressivas que a maioria de seus ouvintes esperam e direcionamentos mais sombrios.

Tanto em estrutura como em resolução da obra como um todo, Hand. Cannot. Erase. é mais próximo de Grace For Drowning do que de The Raven…, mas a sofisticação empregada utilizando o melhor de cada músico – mesmo que com exceção dos elementos mais jazzísticos – só seria possível após a empreitada que criou o denso The Raven… e sua exitosa transposição para os palcos.

Foto: Lasse Hoile
Foto: Lasse Hoile

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Sidney

    (26 de janeiro de 2016 - 01:28)

    Parabéns, essa foi a melhor resenha que li sobre este maravilhoso álbum!!

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