of Montreal – Aureate Gloom (2015)

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Kevin Barnes fala da separação da muher em novo álbum e volta ao rock/pop psicodélico, mas não vai além disso

Por Lucas Scaliza

Depois de pisar no freio com Lousy With Sylvianbriar (2013), que foi um álbum feito com produção mais despojada e com estilo mais clean (e resultado apenas OK), o of Montreal volta a soltar a maluquice envolta em boas melodias para letras surreais. E a mesma alta dose de afetação que se espera do líder e compositor do grupo, Kevin Barnes, como a capa já indica.

É um álbum com altos e baixos. Se você gosta da afetação carregada que é marca da banda, poderá adorar Aureate Gloom, mas se você é do tipo que já conheceu bem esse lado e espera que isso sirva para fazer uma música diferente do que eles têm feito antes que tudo sature, o álbum poderá não ser tão marcante. E se você é do tipo que espera a volta ao som do início da carreira, bem… não parece que Barnes e sua turma estejam planejando essa “volta”. Não há grandes sinais de amadurecimento e nem de novas propostas, mas pelo menos há boas músicas, como “Virgilian Lots”, “Apollyon of Blue Room” e a metamórfica “Like Ashokas’s Inferno Memory”.

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Há canções menos viajadas e com mais destaque para a guitarra, mas que ainda mantém o apelo pop, como “Estocadas”, e climáticas como “Aluminium crown”. E há também “Chthonian dirge for Uruk the Other”, uma faixa que quase se resume a uma grande mancha sonora cheia de ruído.

“Bassem Sabry”, a primeira do disco, é aquela música que tem tudo em seu devido lugar, mas é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que dá uma impressão de caos (sem falar na pegada funk e afrobeat que temperam a canção).

Acaba soando como um disco divertido e animado que tenta usar diversos estilos dentro de seu caldeirão, mas não contém nada que realmente capture sua atenção a longo prazo. A princípio, esse estilo psicodélico e melodioso de Barnes era algo a se prestar atenção, mas Skeletal Lamping (2008), False Priest (2010) e Paralytic Stalks (2012) já mostraram muito bem até onde esse jeitinho vai. Aureate Gloom é uma fase já cansada de si mesma. A falta de unidade estética contribui para que seja uma coleção de canções e não um álbum consistente como os citados.

Todo processo foi bastante rápido: depois que Barnes gravou algumas demos das novas canções e trabalhou o que cada um na banda fariam, o grupo foi para o estúdio Sonic Ranch, em El Paso (Texas), e gravaram todas as músicas em apenas 11 dias. A mixagem também não levou mais tempo do que isso. Ou eles sabiam exatamente onde estavam indo ou faltou mesmo tempo para refletirem se queriam algo diferente dessa vez.

O of Montreal é uma banda criativa, principalmente para arranjos e para a estrutura de suas canções, e produtiva (Aureate Gloom é o 13º disco do grupo em 19 anos de carreira). Mas essa produção não é regular, tendo vários altos e baixos que pisam e repisam sempre o mesmo terreno indie rock psicodélico. Se um dia pareceu que a música do of Montreal era uma aposta arriscada, hoje o risco se converteu em conforto, a imprevisibilidade em recorrência.

Ao Stereogum, Barnes disse que se trata de um disco em que expõe bastante a sua vida privada. Cita a recente separação de sua mulher após 11 anos de convívio e uma busca por sua identidade fora do casamento. Ele diz que ainda fala com a esposa todos os dias e que ainda ama ela – e ela o ama também – mas a relação chegou naquele ponto em que nada mais funciona bem entre os dois. “Então, sim, de certo modo o disco sou eu escrevendo sobre tudo o que estava acontecendo”. E Barnes avisa que as canções não são direcionadas para um ou outro elemento da história. Segundo ele, um verso pode se referir a ele, outro a esposa, outro a outra situação, e assim vai. Bem confuso.

Mas Aureate Gloom – nome que designa um paradoxo, algo que é bonito e feio ao mesmo tempo, como algo que é feito para causar má impressão, mas ainda assim tem sua beleza – não tem aquela proximidade com o ouvinte que os álbuns confessionais geralmente têm. É bem mais explosivo, é animado. Você não se sente tomando parte desse fim de relação de que Barnes tenta falar no álbum. Se a música não ajuda, as letras confusas ajudam um pouco menos. Diferente da Björk que acabou de lançar Vulnicura, disco que consegue ser experimental e emocional nas medidas certas, evoluindo tanto a técnica e expressão musical da islandesa quanto conseguindo enredar o ouvinte na narrativa do luto de seu casamento.

Vulnicura e Aureate Gloom: Dois álbuns que saem muito perto um do outro e praticamente movidos pelo mesmo tema e mesma história real de seus compositores. Björk teve mais tempo e soube o que fazer para inclusive recuperar a empatia de sua música. Kevin Barnes fez tudo bem rapidamente e se repetiu. Aureate Gloom não é um álbum ruim, de forma alguma, só não ultrapassa a linha média que poderia ultrapassar e se contenta em ser apenas legal.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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