Victor Wooten – Soul Circus (2005)

O especial de dez anos do disco mais “ué?” que já ouvi

por brunochair

No ano de 2008 segundo o calendário cristão, o resenhista que digita estas palavras decidiu abandonar de vez a ideia de tocar violão e partiu para um outro instrumento que fosse, assim… mais fácil. Pensou alguns dias, e chegou à conclusão que o baixo seria uma boa escolha.

E qual foi o motivo que me levou a preferir o baixo? Sinceramente, por conta da existência de um menor número de cordas do que o violão (quatro cordas, baixo convencional) e também por causa de um maior espaçamento entre os dedos, já que era comum me enrolar todo pra fazer “um lá que fosse” no violão.

Ou seja, embora baseado em uma certa racionalidade, os motivos não foram assim tão convincentes. Agindo mais por impulso que outra coisa, fui até uma loja de instrumentos musicais e adquiri um modelo de baixo. Estava pronto para ser um grande baixista? Não, tinha certeza que não. Por indicação de amigos, soube de um bom professor que poderia fornecer boas aulas. O básico, apenas para começar a praticar em casa.

E lá fui, para a escola de música. O professor, ao me receber, perguntou se eu sabia tocar violão. A resposta, para evitar maiores constrangimentos, foi NÃO. Ok. Vamos começar do começo: o que você pretende, rapaz: apenas aprender a tocar o básico, ou quer estudar um pouco mais a fundo o instrumento?

Conversamos por algum tempo, e o professor acabou me dizendo que eu era um grande curioso sobre música, mas me deu um tempo pra pensar se eu realmente queria começar as aulas de baixo. “Como incentivo para você ficar interessado em voltar, vou te passar alguns caras fudidões de baixo pra você ouvir. Depois você me fala qual te agradou mais”.

Confesso que não voltei para as aulas. Mas ouvi todas as indicações do professor. Dos brasileiros, os dignos de nota foram Arthur Maia e Nico Assumpção (infelizmente faleceu em 2001 – dos brasileiros, o meu preferido). Dos internacionais, Jaco Pastorius, Stanley Clarke e Victor Wooten. Conheci uma série de outros baixistas após as indicações, e fiquei cerca de seis meses pesquisando os trabalhos desses instrumentistas, seja em carreira solo ou em discos conjuntos.

Um dos primeiros álbuns que eu baixei foi Soul Circus do Victor Wooten. Confesso que fiquei surpreso. Uma surpresa do tipo: “Ué, como assim?” Achei que iria ouvir um disco pedante de um baixista renomado cometendo estrepolias de todas as sortes, mas não. Ouvi um álbum bastante palatável, direto ao ponto, muito gostoso de ouvir e bastante eclético.

Victor Wooten iniciou os estudos de baixo aos três anos por incentivo dos irmãos, e bem pequeno já tocava com os outros integrantes da família na banda The Wootens – o repertório, basicamente, era Motown, James Brown, Curtis Mayfield. Soul Circus, álbum de 2005, é dotado de uma carga de black music que só um grande conhecedor a fundo de gêneros variados como funk, soul e jazz pode oferecer.

Após ouvir o restante da discografia de Victor Wooten, observei que Soul Circus é apenas uma faceta das múltiplas possibilidades que o instrumentista consegue projetar em sua carreira. Por exemplo, Palmystery (2008) o álbum solo subsequente ao Soul Circus, é muito mais complexo, jazzístico e experimental.

Embora não possamos dizer que Soul Circus não seja experimental. O que dizer de uma música primitiva, a evocação de algo que sabe-se lá o quê, em “Natives”? Um hip-hop baseado naqueles toques chatos dos celulares da moda de 2005 (“Cell Phone”)? As belas canções instrumentais (“Can’t Hide Love”, “Ari’s Eyes”) ? Uma canção baseada num sentimento (“Back To India”)?

Victor Wooten em Soul Circus consegue unir os dois elementos essenciais da música para um instrumentista: a técnica apurada (bom, Victor Wooten já foi escolhido por três vezes o baixista do ano, segundo a revista especializada Bass Player Magazine) e o feeling – que é algo mais sensorial, baseado no “fluir” da música.

Tem instrumentistas que são muito técnicos, mas falta-lhes o feeling. Victor Wooten é uma rara exceção, e neste álbum esbanja categoria e vivacidade. Por conta desses fatores, é que esse álbum que completa dez anos do seu lançamento em 2015 merece ser ouvido com atenção – tanto pelos que almejam ser bons instrumentistas no baixo quanto aqueles que apreciam black music de qualidade.

Música de destaque do álbum, “Bass Tribute” é uma ode a todos os baixistas que influenciaram Victor Wooten. Nos refrãos, são citados Jaco Pastorius, Stanley Clarke, Marcus Miller, Larry Graham, James Jamerson. Wooten imita a levada característica, quando o baixista é mencionado. A homenagem de Wooten aos seus mestres acaba por ser uma homenagem a todos os baixistas, e uma frase emblemática consegue expressar boa parte do que é sentir-se baixista: “The bass is center solid as a rock”.

Fato é que não me tornei baixista, mas consegui entender o que é ser um.

E ainda ouvi ótimos álbuns, como Soul Circus.

Outras músicas que merecem destaque:

“Can’t Hide Love”

“Back To India”

“Ari’s Eyes”

Essa não está no álbum, mas deve ser ouvida sempre. Uma versão de “Isn’t She Lovely” do Stevie Wonder, por Victor Wooten:

brunochair Autor

Funcionário público, ex-jogador de ping pong amador, curte literatura, música, fotografia, esportes, cervejas artesanais e bons filmes. Meio brasileiro e meio uruguaio, acha que a cidade perfeita é uma mistura de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

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