Blind Guardian – Beyond The Red Mirror (2015)

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Músicas grandiosas com muitas passagens progressivas e um boost de duas orquestras completas

Por Lucas Scaliza

O heavy metal é um grande caldeirão. Embora o peso seja uma característica de todos os gêneros derivados, cabe sonoridades de todos os tipos: flertes com o blues, com a música clássica, com hard rock, com música folclórica, etc. Seus temas também são os mais variados possíveis. Em Scenes From a Memory (1999) o Dream Theater contou a história de um homem que acessa sua vida passada e descobre uma trama de ciúme e morte. Em The Devil’s Hall of Fame (2002), ótimo disco do Beyond Twilight, um homem descobre um chip implantado na cabeça e que suas memórias e vida foram uma mentira – e quais as consequências humanas disso. E o que dizer do clássico thrash metal …And Justice For All (1988), do Metallica, e todas as suas letras sobre justiça social?

Já na estirpe do metal melódico e power, há uma certa procura por temas mais épicos, mais fantasioso, mais cavaleiro-mago-reis-espadas-dragões. Não é sempre que esses temas são usados por essas bandas, mas sempre poderemos citar o Rhapsody (ou Rhapsody of Fire) como exemplo de banda que seguiu a cartilha medievalesca e conseguiu um bom público em torno dessa temática. Quem desde sempre se entrincheirou nesse segmento foram os alemães do Blind Guardian, que congregaram thrash metal, metal sinfônico e melódico e influências folclóricas para compor trabalhos pesados, épicos e cheios de fantasia e mitologia. (Nos anos 90 e início de 2000 era comum encontrar fãs da banda entre jogadores de Magic The Gathering e de RPG). Eles já fizeram discos inteiros sobre O Senhor dos Anéis, de J. R. Tolkien, já adaptaram a obra de As Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones), de George R. R. Martin, e até Paraíso Perdido, de John Milton, e partes da Bíblia para sua forma musical.

Sem lançar nada desde 2010, os alemães estão de volta com Beyond The Red Mirror, um disco conceitual de fantasia e ficção científica que dá sequência ao álbum Imaginations From The Other Side, lançado há 20 anos. A suposta história do disco pode ser uma salada literária, já que o disco de 1995 era uma colagem de referências a livros como O Senhor dos Anéis, Alice no País das Maravilhas, Peter Pan, O Mágico de Oz e até Crônicas de Narnia.

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Sei que estou me alongando demais e que essa resenha parece só ter preâmbulo e não análise musical, mas acho interessante dizer que o Blind Guardian abriu muitas portas para diversas outras bandas. Assim como o Helloween havia criado o metal melódico e apontado um caminho estético antes deles, eles colocaram todos os seus interesses nerds a serviço de sua música. Esses alemães sempre aglutinaram elementos ao som deles, nunca perdendo a identidade. Depois que passaram a usar músicas tradicionais europeias e até do Oriente Médio, nunca mais as abandonaram, por exemplo. O disco de 2010, At The Edge of Time, é uma síntese de todos os elementos que a banda dispõe sem medo de misturar batidas pesadas com flautas, guitarras distorcidas com orquestração e muitos corais que remetem ao Queen.

Se você não gosta de metal melódico e power metal deve ser porque já prevê que todo esse som e todos os vocais em coro vão soar meio farofa. E geralmente é um metal meio farofa mesmo, com toda a temática aventuresca sem lastros com a realidade e com todos os clichês do gênero (o power metal é o subgênero do heavy metal mais cheio desses pequenos problemas, mas muita gente ama e parece não se importar). Hammerfall, Manowar, Dragonforce e tantas outras seguem pelo mesmo caminho. Portanto, se prefere uma temática mais adulta e um tom menos escapista, prefira um Mastodon, um Queens of The Stone Age (embora não seja metal), Black Sabbath, Slipknot, Haken, Opeth ou até mesmo os últimos trabalhos do Iron Maiden, que possuem uma gravidade maior.

Mas isso é só um aviso para quem tem problemas com o estilo ou não conhece a banda ou prefere passar bem longe de uma farofa. Porque do mesmo modo que o último disco do Dragonforce foi mais do mesmo, como eu já sabia que seria, este Beyond The Red Mirror conseguiu me surpreender exibindo novas ideias sem deixar as que já acompanham a banda há 20 anos de lado.

A primeira faixa, “The ninth wave”, é épica e grave. Seus 9 minutos e meio são muito bem distribuídos entre cantos gregorianos, passagens climáticas, bons solos de guitarra e momentos até de metal progressivo. Levou muito tempo, mas a banda conseguiu se encaixar melhor com os equipamentos de gravação e de mixagem, ao que parece, pois os timbres de guitarra estão muito mais claros, assim como o baixo também soa melhor (sempre tive a impressão de que esses instrumentos não tinham o devido destaque em vários álbuns do grupo).

“The holy grail”, “Sacred mind” e “Twilight of the gods”, a música de trabalho do momento, são power metal bem vigorosos, mas sem surpresas. “Prophecies” lembrou-me de bons momentos do Angra no disco Temple of Shadows (2004). Com quase 8 minutos, “The throne” parece saída dos anos 80, mas sabe se mesclar bem ao clima épico de trilha sonora e se manter bastante animada, não descambando totalmente para a conhecida farofeira com suas camadas cheias de vozes.

“At the edge of time” tinha potencial para que os guitarristas André Olbrich e Marcus Siepen voassem baixo, mas a faixa progride com classe, sempre mudando o ritmo e fugindo dos clichês do power metal, se aproximando muito mais do progressivo e do sinfônico. Uma faixa que não há como deixar de prestar atenção. “Ashes of eternity”, também interessante, termina com uma demonstração muito boa da musicalidade do baterista Frederik Ehmke.

Hansi Kürsch, o vocalista desde o nascimento do grupo, continua cantando tanto quanto nos primeiros discos. Embora sua voz e seu estilo tenham sido bastante copiados com o passar do tempo, é sempre bom ouvir o original novamente, principalmente quando se propõe a novos desafios.

Quatro anos depois do último disco, que já tinha dado claros sinais de amadurecimento, o Blind Guardian soa familiar e renovado ao mesmo tempo. Se as orquestrações parecem muito grandiosas é porque foram projetadas para ocuparem um espaço de destaque no disco. A banda gravou com duas orquestras completas, com 90 músicos ao todo. E os coros foram gravados por grupos de Budapeste, Praga e Boston. Apostaram alto e conseguiram um resultado muito bom, nos mesmos moldes do Nightwish.

É um disco divertido, acima de tudo. Não tem pretensão de tratar temas atuais e importantes, mas honra o histórico da banda e mostra que ainda há como desenvolver o power metal, que o estilo não se resume a pauladas em ritmos insanos nos instrumentos a qualquer custo. Poderiam ter forçado as barreiras do estilo ainda mais, mas faixas como “The ninth wave” e “At the edge of time” fazem valer o esforço.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Jefferson

    (31 de janeiro de 2015 - 16:10)

    Gostei da sua resenha. Blind Guardian é minha banda favorita dentro do power metal e o melhor é que nunca repetem uma fórmula o tempo todo, sempre inovam algo a cada álbum.

    Link

    (8 de fevereiro de 2015 - 06:32)

    Mto top sua resenha, parabéns, Blind Guardian pra sempre!!!

    Eryvelton Alves Sousa

    (16 de fevereiro de 2015 - 12:44)

    Isso cara! Parabéns! Lendo a matéria e ouvindo o disco novo rsrsrs…….

    […] anos, criando inclusive a subcategoria de metal sinfônico, da qual Nightwish, Epica, Moonspell, Blind Guardian e tantos outros fazem parte. Ainda é interessante ver como o headbanger tradicional abraçou a […]

    […] seja feita justiça: houve muitos bons discos de heavy metal até aqui, como o do Blind Guardian, do Sirenia, do Between The Buried And Me e do Sylvan, mas Haven se destaca pela evolução em […]

    […] pesadas alternando os humores da música. Opeth, Sirenia, Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Blind Guardian e até mesmo Slayer e Dimmu Borgir logo se deram conta disso e souberam trabalhar bem suas […]

    marck

    (26 de agosto de 2015 - 17:03)

    excelente resenha. Diferente da maioria que simplesmente ouve o BG eu também achei o álbum muito bom, apesar de trazer o de sempre a banda insere novos elementos que tornam a audição bem mais agradável e como defensor da premissa de que não há motivo para repetir glorias passadas, passo a confiar em um futuro de inovações para a banda.
    Gostaria de fazer um adendo, eu demorei( e muito) para assimilar essa temática de espadas, dragões e castelos, mas no fim acho que são apenas temas e se eles existem qual a razão para não utiliza-los ? até porque nem sempre uma musica que fala sobre um castelo ou algo assim esta passando a mensagem que imediatamente percebemos. continuem assim

    […] Lost Saga” é a faixa mais épica do disco, lembrando muito o Rhapsody e o Blind Guardian. Em outras palavras, é a música que lembra a versão musical de alguma batalha medieval da […]

    […] A alternância entre três tipos de vozes também é algo que pesa a favor da Epica. Simone Simons mais uma vez nos entrega uma voz bela e emocional, que vai do suave até lírico operístico. Na contramão, Jansen contribui com vocais guturais e não é pouco não. Em alguns momentos ele rouba a cena, nos levando para o lado mais sombrio e agressivo da história de mentiras e ilusões que o álbum nos conta, como em “Tear Down The Walls”. E há também os corais de vozes masculinas e femininas que imitam os cantos gregorianos de outrora. Esses corais não estão apenas sempre enfeitando os arranjos, como em “Edge Of The Blade”. Eles ganham proeminência e são encarados como um elemento importante de The Holographic Principle em faixas como “Divide And Conquer”, “Beyond The Matrix” e a faixa-título. Sempre bastante dramáticos, os corais fazem o som da Epica parecer uma versão metaleira da trilha sonora de O Senhor Dos Anéis, ou então uma versão holandesa do Blind Guardian. […]

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