Mark Ronson – Uptown Special (2015)

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Com participações muito especiais e canções bem feitas, Mark Ronson é um branco que faz black music de qualidade

Por Lucas Scaliza

Uptown Special é um disco de black music, cheio de soul, funk e R’n’B, mas arquitetato por um branco. Aliás, um branquelo inglês chamado Mark Ronson que é DJ e guitarrista. Ele praticamente fica invisível no álbum e deixa seus convidados mais do que especiais (Kevin Parker, do Tame Impala, Bruno Mars e Stevie Wonder, entre outros) brilhar e dar a cara toda especial de suas músicas – muitas delas feitas em parceria com seus convidados e a maioria das letras vieram da mente do habilidoso escrito estadunidense Michael Chabon (seu último livro é Telegraph Avenue, que está repleto de referências à música negra).

O disco é comercial, não vamos nos enganar, mas é bem feito. Ele é para as pistas, para a dança, para o groove e para quem gosta de ritmo – como foi o Happy do Pharrel Williams e as partes mais acessíveis do excelente Random Access Memories do Daft Punk –, mas também é aquela black music lançada por white people que sabe não perverter um estilo e se mostra totalmente apaixonado e entregue.

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Quarto disco de Ronson, talvez seu melhor trabalho, com muitas faixas boas para estourar. A primeira a ganhar clipe e que é a ótima “Uptown funk”, com Bruno Mars nos vocais. A canção tem “aquilo” que qualquer produtor ou gravadora procuram numa canção para fazer um álbum vender. Ao final da faixa, você está mesmerizado pela guitarra funk de Ronson e cantando junto dos backing vocals de Mars o mantra “Uptown funk you up, Uptown funk you up”. A faixa começou a ser feita no estúdio do cantor: Ronson no baixo, Jeff Bhasker nos sintetizadores e Bruno Mars na bateria. Criaram o groove básico da canção e seis meses depois finalizaram a faixa.

“Uptown’s first finale”, curta faixa que abre o disco, tem sabor especial para Ronson: além de bonita e climática, tem a harmônica de Stevie Wonder. Só no terço final da canção é que Andrew Wyatt entrará cantando sobre a melodia de Wonder. A história é a seguinte: Chabon fez a letra da música, que seria cantada pela faixa toda, mas quando Ronson cantarolava a melodia pensava em Stevie Wonder tocando cada nota com sua gaita, não em um cantor. Então ele mandou uma carta com a canção para o empresário de Wonder. Alguns meses depois, Wonder gravou o trecho instrumental. “Quando ouvi pela primeira vez, foi uma das experiências mais emocionantes que já tive. […] Já ouvi mais cem vezes e ainda mexe comigo”, conta Ronson.

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“Cracked in the pearl” traz a voz de Andrew Wyatt reforçada por backing vocals cheios de alma e uma melodia muito bem construída. Toda a roupagem é modernosa, cheia de teclados, sintetizadores e bateria eletrônica, criando efeitos sonoros viajantes. Quem disse que soul pop não poderia ser temperado com psicodelia? A última faixa, “Crack in the pearl, Pt. II”, é uma versão mais rápida da introdutória, dessa vez com Bhasker nos vocais, mas ainda com a presença da gaita de Wonder. “Eu tinha que trazê-lo mais uma vez”, diz Ronson. A faixa final acaba sendo um mashup de “Crack in the pearl” com “Uptown’s first finale” com BPM mais alto.

“Heavy and Rolling”, também com Wyatt nos vocais, se desenvolveu a partir da letra enviada por Chabon. A expressão que dá título à canção é usada pelos motoristas de Nova York para dizer às suas centrais que estão com passageiros e no cumprimento do dever. A linha de baixo foi feita pelo próprio Wyatt a partir de uma demo que ele nunca terminou. A melodia também veio fácil, daí foi só trocar uns acordes, conta Ronson. É uma faixa bem tranquila e boa de ouvir, coma guitarra carregada de efeito aveludado e um solo de teclado no final.

Quem também rouba a cena é Kevin Parker, o guitarrista, letristas e cantor do Tame Impala, que empresta sua voz a três faixas – e se dá bem em todas. Se você ouviu a versão que o Tame Impala fez de Michael Jackson e do Outkast – e prestou atenção tanto nas escolhas das faixas quanto na forma de reinterpretá-las – deve ter sacado que Parker é um cara realmente diferente e que se daria bem com soul (fez até um cover de “Thriller” ao vivo). Ronson entendeu isso e usou o timbre gentil do australiano para se adequar à black music e colocou algumas pequenas psicodelias, como a guitarra com timbre zumbido na quase bossa “Summer breaking”, que é a música mais sofisticada do disco. O próprio compositor diz que não sabe o nome de alguns acordes que usou nela.

Já “Daffodils” parece uma mistura de Michael Jackson com o último disco de St. Vincent, o que evidencia um belo trabalho de produção. E “Leaving Los Feliz”, terceira faixa com Kevin Parker nos vocais, é mais pop, mas não deixa de usar os sintetizadores para dar aquela cara mais psicodélica. Afinal, segundo Ronson, Los Feliz é uma área meio artística e hipster de Los Angeles, e a música tem que ser meio hipster também.

“In case of fire” vai te lembrar um bem-vindo Michael Jackson. Não só o vocal de Jeff Bhasker pode causar isso, principalmente quando usa falsetes, mas todo o jogo de riff, baixo e bateria sincopada é muito parecido com o que o Rei do Pop usava em seus discos até virar uma característica de suas marcações rítmicas.

O rapper Mystikal dá as caras em “Feel right” e ajudou Ronson a fazer talvez a melhor canção de Uptown Special. Seu vocal forte e rasgado, o ritmo envolvente e as pausas marcadas pelos instrumentos de sopros fazem dela uma música dançante e de ordem ao mesmo tempo. Animada, é a única que disputa com “Uptown funk” o posto de mais contagiante do disco.

Mark Ronson reuniu alguns brancos ao seu redor e deu espaço para muitos negros contribuírem e fazerem seu disco de soul/funk com pitadas de psicodelia pop soar bem. E tudo isso sem perder de vista o valor comercial. Uptown Special é divertido e é bem feito, cada faixa tem seu próprio valor e todas as participações funcionam. É bom que fique claro que Ronson e seus amigos não queriam ser virtuosos como o Funkadelic e nem partir para a vanguarda de D’Angelo. E para um disco mainstream e que quer emplacar nas rádios, Mark Ronson consegue colocar muitas boas referências em um disco de apenas 38 minutos e que é pop, mas de qualidade.

PS. Ronson dedica o disco a Amy Winehouse, cantora britânica com quem colaborou e que faleceu em 2011. Teenie Hodges e DJ Mehdi são outros que dividem com ela as honras de Uptown Special. As dedicatórias ficaram de fora da impressão do encarte do disco.

MarkRonson Letter

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

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