The Ghost Of A Saber Tooth Tiger – Midnight Sun (2014)

O dream pop, a psicodelia, Tim Burton, o bizarro, o amor

por brunochair

Em 2014, um casal bastante badalado da cena indie/pop decidiu juntar-se e montar a sua própria banda, incluindo aí o baterista português Fred Ferreira. Trata-se da Banda do Mar, no qual são integrantes o [quase] ex-Hermano Marcelo Camelo e a cantora folk Mallu Magalhães. O motivo para iniciar uma banda, segundo eles, era a de passar mais tempo juntos – já que, em turnês solo, acabavam ficando muito tempo distantes.

No caso da dupla The Ghost Of A Saber Tooth Tiger acontece um processo parecido. Os dois integrantes são Sean Lennon (sim, o filho de John e Yoko) e sua namorada, Charlotte Kemp Muhl. Sean Lennon possui uma carreira solo bastante interessante, além de ser produtor musical. Embora o rapaz sempre seja lembrado como filho de quem é, desenvolve uma música com referências bastante distintas, em boa parte fugindo da acessibilidade do mainstream e dialogando muito bem com passado/presente/futuro. Charlotte, por sua vez, é modelo, escritora e tem bom conhecimento de música (é multi-instrumentista). Aliás, o nome da dupla foi extraído de um título de um conto escrito pela Charlotte.

Pois é. Os dois resolveram unir esforços e criar o The Ghost Of A Saber Tooth Tiger, como forma (também) de passar mais tempo juntos. Desde 2010, funciona assim. No entanto, parece que neste segundo álbum, Midnight Sun, a dupla conseguiu alcançar uma, digamos, personalidade musical – algo que faça lembrar quem são, para que existem. Neste ponto, já podemos referendar que Midnight Sun cumpre o seu papel.

Mas, além disso, o álbum está repleto de boas músicas. O álbum foi produzido pelo casal, além de Dave Fridmann – que já trabalhou com Tame Impala, Flaming Lips, Spoon e tantos outros. O interessante é observar o quanto Fridmann foi importante no processo de produção para fazer a dupla soar “moderna”: a referência ao dream pop psicodélico do Tame Impala é notório, incorporando as já imensas referências que ambos possuem de música. O rock psicodélico da década de 60 e 70, elementos de bossa nova, pitadas de hard rock e um elemento bastante interessante, que é essa suave referência ao sombrio, ao soturno.

Esse clima soturno/sombrio que está inserido nas músicas do The Ghost Of A Saber Tooth Tiger não chega a ser repulsivo: ao invés de deixar os ouvintes com receio, os atraem. Neste ponto, podemos fazer uma associação da música da dupla com os filmes do Tim Burton, que também segue uma linha estética do gótico, do excêntrico, do “estranho” aos olhos comuns, mas que são aceitáveis e cultuados pelo grande público. Qualquer música de Midnight Sun pode figurar na trilha sonora dos próximos filmes do Tim Burton.

As letras da música são econômicas: os integrantes, apesar de serem bons compositores, parecem estar muito mais interessados em criar as atmosferas e essa estética do dream pop psicodélico gótico (definição irônica, ok?) do que propriamente escrever músicas que sejam lembradas ad aeternum. Os dois integrantes revezam no vocal, trabalham mutuamente na escrita das canções. Ou seja, é um trabalho feito para aproximar ainda mais o casal (ah, o amor <3).

Sobre as músicas (as principais):

“Too Deep” – abre o álbum com uma guitarra bastante poderosa, bateria marcante e presente. É a música mais rock do álbum, dá a impressão que poderá ser um álbum com poucos respiros. As próximas músicas do álbum acabam por contrariar essa impressão.

“Xanadu” – já tem um quê de orientalismo, uma cadência maior. Mostra o quê de psicodelia que o álbum trará.

“Animals” – apenas observe o clipe. Um bando de hippies, uma sociedade religiosa secreta, tantas outras bizarrices. A música segue a tendência dream pop psicodélico gótico (gostaram da definição?)

“Johannesburg” – é cantado pela Charlotte. Introduza aí no dream pop psicodélico uma pitada de bossa nova.

“Last Call”, “Porr Paul Getty” e “Great Expectations” também se destacam. A última música do álbum, “Moth to a Flame”, fecha o álbum com maestria e ganhou a sua versão em clipe. Mais um clipe muito “excêntrico” da dupla, que ultrapassa os limites da música, criando uma estética para as composições, atuando nos clipes e outras tantas atividades que desenvolvem. Um álbum de 2014 que vale a pena ouvir, caso não tenham escutado.

Obs: vale ressaltar que encontrei este álbum na lista dos 100 melhores do Embrulhador. Ótima lista, por sinal. 

http://2014.embrulhador.com/

brunochair Autor

Funcionário público, ex-jogador de ping pong amador, curte literatura, música, fotografia, esportes, cervejas artesanais e bons filmes. Meio brasileiro e meio uruguaio, acha que a cidade perfeita é uma mistura de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.