Funkadelic – First Ya Gotta Shake The Gate (2014)

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33 músicas para compensar 33 anos sem novidades. Quase uma ode à black music

Por Lucas Scaliza

Em 10 anos, o Funkadelic lançou 11 álbuns. O grupo, sempre liderado por George Clinton, fazia um funk e um soul de respeito com uma pegada rock’n’roll. Psicodelismo, alguma progressividade e muito groove eram os ingredientes da estética hippie que fizeram do Funkadelic – e do Parliament também, a banda irmã – uma das principais forças nos anos 70 que tentavam dar uma cara mais ousada para a música negra, indo bem além das pretensões comerciais das gravadoras Motown e da Stax. Com a virada dos anos 80, Clinton ficou menos rock’n’roll e mais voltado para a música negra no geral.

O último disco gravado e lançado logo na sequência foi The Electric Spanking of War Babies, em 1981. Depois desse, saíram apenas o By The Way of the Drum (2007), com músicas engavetadas de 1989 e o Toys (2008), com as sobras de discos de 1970 até 1972. Assim, foram 33 anos sem nada do Funkadelic.

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Para compensar, George Clinton reuniu um grande número de músicos e gravou o triplo de estúdio First Ya Gotta Shake The Gate, com 33 músicas inéditas, uma para cada ano de ausência. Nada de sobras e nada de demos dessa vez. Só material novo. São mais de 3 horas de som, mas não espere aquele Funkadelic da década de 70, uma volta às origens ou coisa assim. FYGSTG é uma extensa ode à black music, recheado de funk e soul, mas com muito hip hop, rap e R’n’B.

O disco físico saiu bem próximo ao Natal de 2014 e não recebeu a mesma atenção que o ótimo Black Messiah, do D’Angelo, que também não lançava nada há 14 anos, desde o aclamado Voodoo de 2000. Ocorre que D’Angelo continuou fazendo soul e funk de vanguarda e comprimindo tudo em um único disco bastante coerente. O Funkadelic, que também tem elementos de vanguarda, dividiu em três discos músicas boas, aquelas mais ou menos e outras um pouco sem graça. Numa extensão sonora dessas, é difícil manter um alto padrão o tempo todo, ainda mais cobrindo quatro décadas de música (sim, há ecos dos anos 70, 80, 90 e 2000 e além). George Clinton poderia ter cortado as canções que são mais do mesmo e lançado um álbum duplo “apenas”, mas em seus três discos que acabaram sendo lançados temos muitas faixas burocráticas, do tipo que dá vontade de pular mesmo.

Mas quando eles acertam, acertam em cheio. Tem muitas músicas excepcionais, daquelas de parar e prestar atenção, encarar a banda bem de frente e lembrar porque você gosta de Funkadelic e como certos grooves, vocais, guitarras e ritmos fizeram falta nesses 33 anos. Ah, e músicas com 7, 8, 9, 10, 11 e até 12 minutos existem e não são poucas.

Das 33 faixas, Clinton só não participou da composição de cinco. A lista de músicos é extensa: são 17 artistas creditados para os vocais, quatro tecladistas, quatro baixistas, dois bateristas, cinco guitarristas e ainda um violinista, um percussionista e um cara que tocou um instrumento aborígene chamado didjeridu.

“Fucked up”, a primeira a chamar a atenção, tem aquele clima gostoso, aquele baixo cheio de nuances e um tecladista tocando os acordes certos, sem falar na bateria, livre para criar viradas e alterar a dinâmica. Começa como um soul com cara de jazz e abarca até um rap ali no meio. Uma faixa que podia ser do D’Angelo, mas é do Funkadelic, no seu melhor exemplo de progressividade soul (!!!).  “Ain’t that fuckin’ kinda hard on you” é mais regular na forma, mas é um bom exemplo de esforço comercial do grupo, diferente de “Get low”, que soa muito planejada para as rádios. E “Snot n’ Booger” tem mais de 10 minutos e é o Funkadelic atualizando sua black music, entregando uma música que tem rap, refrãozinho de menina pop e um toque de soul na instrumentação.

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Com 12 minutos, “Mathematics of love” é uma daquelas faixas pretensiosas que nunca dispensamos. Meio jazz, meio pop romântico, um toque de modernismo e um piano tão alto quanto o vocal. “Creases” é um rap século XXI, cheio de loops e misturando samples de sons coletados a esmo com instrumentação. E logo na sequência vem “Not your average rapper”, que é o melhor rap de FYGSTG, direto ao ponto e sendo acessível sem tentar ser comercial.

No final do segundo disco, mais uma dobradinha que não passa desapercebida. “As in” é linda com sua orquestração e sua progressão de acordes, com sopro e uma interpretação vocal de Jessica Cleaves que é de tirar o chapéu. Sem virtuosismos e sem cantar lá no alto, “As in” é uma dessas músicas bem executadas e sem gorduras que tiram seu poder de uma estrutura bem montada. É ótimo que a faixa seja de uma beleza acima do normal, pois Jessica Cleaves, cantora de um grupo vocal negro na década de 60, faleceu em maio de 2014, aos 66 anos. Logo depois vem “Bernadette”, um soul de dançar e com um refrão de elevar a alma que lembra os momentos mais iluminados de Marvin Gaye. Imperdível. É uma das faixas que não tiveram a mão de Clinton na composição. Sozinhas, essas duas faixas são melhores que todo o álbum mais recente do Prince, Art Official Age.

O que faz “Jolene” brilhar é uma insistente guitarra com overdrive que perpassa todos os quase 8 minutos da faixa, sujando cada versão e refrão com uma pegada rock’n’roll. “Dirty Queen” é a única faixa completamente rock e metal do disco e também não tem o dedo de Clinton na composição. Embora soe deslocada dentro de todo o disco, ela tem brilho próprio.

“Catching boogie fever” é um funk cheio de ritmo e sintetizadores, mas orgânico e não contaminado pelo bate-estaca eletrônico. A climática de “The wall” parece algo que você poderia ver num disco do Kanye West e “Talking to the wall” é uma balada que elege o baixo como instrumento protagonista.

“Where would I go”, mais um soul de respeito, está inundada de vocais e backing vocais competentes e uma banda cheia de feeling. E “Yesterdejavu”é boa de ouvir e vem com ares de canção especial: o tecladista é Bernie Worrel (membro fundador do Parliament-Funkadelic e trabalhou com o Talking Heads); o baixista Michael B. Patterson e o baterista Lawrence Hilson, de quem não se sabe muita coisa, fazem um excelente trabalho. E a guitarra que você ouve e que te deixa curioso é de Michael Hampton, lendário guitarrista do Funkadelic que iniciou sua carreira aos 17 anos carregando seu timbre de fuzz e que substitui o excelente Eddie Hazel. Para ficar perfeita, só faltou um final a “Yesterdejavu” que não fosse fade out.

Por fim, cito “The Naz”, a faixa com os vocais bem graves de Sly Stone, o cara que ajudou a colocar ácido no funk e no soul entre os anos 60 e 70, integrando-se com o Sly and the Stone Family no mapa da psicodelia americana.

Como se vê, um álbum cheio de momentos especiais. Tem várias músicas que não chegam lá, como “Pole power” e “Meow meow” que apesar das boas ideias, se perdem em repetições em vez de suas composições se concentrarem apenas no que é substância. Esse talento para composições que não enrolam e são precisas e sem “gorduras” é o que vimos, por exemplo, o Opeth apresentar com Pale Communion (2014), que acabou eleito um dos melhores do ano.

Não está claro se o Funkadelic voltou para ficar, mas aí está um novo disco cheio de músicas acessíveis, algumas que dá para pular sem problema, passagens virtuosas, muitas boas ideias e uma vontade de ser contemporâneo ao mesmo tempo em que carrega seu DNA dos anos 70. Uma salada R’n’B, é verdade, e mais do que um poderoso funk e soul, é um longo tributo a cinco décadas de black music.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

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