Belle and Sebastian – Girls in Peacetime Want To Dance (2015)

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Dançante sim, mas também um pouquinho politico e mais maduro

Por Lucas Scaliza

Você pode diminuir todo o novo disco do Belle and Sebastian dizendo que eles estão mais pop e mais dançantes em seu novo disco, algo que já está explícito no nome de Girls in Peacetime Want to Dance. Mesmo que reduzisse, para facilitar a classificação do álbum, você acertaria. Sim, os escoceses de Glasglow (terra de boas bandas como Franz Ferdinand e Mogwai) estão mais pop e dançantes. Mas ainda está ali todo o DNA que faz deles uma banda bonita, melodiosa e que nos faz prestar atenção a cada novo lançamento. Sabe aquela melancolia algo blasé bem europeia mas em roupagem fofa, colorida? Mesmo quando é triste não é de cortar os pulsos, mas de um jeito delicado? Então, tudo isso está em Girls in Peacetime. Acusá-los, como alguns fãs já têm feito, de se “renderem ao pop dançante”, é não ouvir o coração de Stuart Murdoch batendo ali entre as 12 faixas como sempre bateu.

E quer saber? Girls in Peacetime Want To Dance pode ser um dos melhores discos do ano, e olha que tem muita coisa com potencial para ser boa vindo por aí.

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Se o jeitinho é o mesmo de sempre para as letras de Murdoch, é no som que o Belle and Sebastian se deixaram influenciar. Tem até uma canção, “Perfect couples” que a vocalista Sarah Martin diz que tem algo a ver com a Tropicália brasileira. Sem falar em “Enter Sylvia Plath”, inspirada na mulher que está no nome e que chega na forma de um eurodance vibrante de quase 7 minutos. É para dançar mesmo. E “The party line”, que é desde o começo um synthpop, é assumidamente uma música que se constrói ao redor da ideia de colocar uma plateia ou uma pista para se mexer. Principalmente nos grooves e nas melodias de teclado tem algo a ver com o que o Arcade Fire fez em Reflektor (2013), mas os canadenses eram mais soturnos e indiretos.

“Nobody’s empire”, com sua letra narrativa e cheia de ótimos versos, é colorida, não é dançante, mas é cativante. A progressão de acordes e o ritmo gentil acompanhando a melodia de voz inclusive nas acentuações ao final de cada frase, algo que é bastante a cara da banda. É uma música sobre a Síndrome de Fadiga Crônica de que sofre o vocalista, guitarrista e letrista do grupo. E “The power of three” é outra, cantada por Sarah Martin, que é a cara do Belle and Sebastian e tão imaginativa quanto qualquer outra faixa que tenham gravado em seus outros discos.

“The cat with the cream” é uma bonita balada, mas tem aquela linha de baixo e bateria cadenciada que não altera seus tempos e dinâmicas que aliados aos sons de violino parece algo dilacerante e cortante. Aliás, o baixista Bobby Kildea está mostrando um trabalho excelente em todo o disco. Ele já estava bem em Write About Love, lançado pelo B&S em 2010, mas desta vez ele está mais presente do que nunca. Nem mesmo a pegada mais eletrônica de algumas faixas tiram o brilho de seu instrumento.

Eurodance, synthpop, pop, rock indie. Eles não param por aí e sabem diversificar ainda mais, colocando um refrão em ritmo folclórico típico da Escócia e uma ponte bem planejada com cordas e trompete. E não nos esqueçamos da Tropicália em “Perfect couples”: percussão étnica, uma guitarra com distorção na base e efeitos de timbre nos solos e fills.

Geralmente pensa-se o Belle and Sebastian como uma banda de canções, mais focada nos acordes, mas Girls in Peacetime Want to Dance deveria quebrar essa imagem, se Write About Love não conseguiu. Todas as linhas de guitarra e teclados em “Perfect couples”, o ritmo de “Nobody’s empire”, os riffs de “Allie”, os sintetizadores na animada “The book of you” e, para fechar com chave de ouro, o bom gosto do baixo na matadora “Today (This army’s for peace)” indicam que, assim como o Arcade Fire, entre outras bandas do mundo indie, o Belle and Sebastian busca sim um aperfeiçoamento técnico.

Não só por ser um disco sem músicas ruins, mas toda a técnica musical demonstrada em Girls in Peacetime… indicam um refinamento das composições, um passo além na carreira que a banda está trilhando há 19 anos.

O disco chega ao público num momento em que a Europa assiste de camarote o assassinato de cartunistas, jornalistas, um segurança e um policial na França por um grupo islâmico extremista, o que tem a ver com o tema do álbum. A capa mostra uma garota e um rapaz que são meio robôs. Segundo o próprio Stuart Murdoch, isso tem a ver com os últimos 20 anos, em que sempre houve guerras. A capa sugere, assim, que o rapaz e a garota perderam partes do corpo em alguma guerra na década de 1940 – mas suas partes robóticas são futurísticas. “Dessa vez nós tentamos fazer mais do que canções mais dançantes e diretas. E o próprio título é uma tentativa de falar sobre temas importantes, pelo menos para mim, como guerra e paz. Às vezes me pergunto se um dia haverá mesmo um tempo de paz…”, diz o líder do grupo.

Embora não seja um disco político, Murdoch diz que foi um álbum construído enquanto a banda prestava mais atenção ao que acontecia ao redor deles. Não faz muito tempo, vocês devem se lembrar, houve o referendo sobre a separação da Escócia do Reino Unido. A não separação acabou vencendo, o que deixou toda a banda meio desapontada (eles confirmam). Veja que o Belle and Sebastian de Girls in Peacetime… não são mais os jovens de vinte e poucos anos de Tigermilk e If You’re Feeling Sinister (ambos de 1996). Já na casa dos 40, é natural que suas preocupações pessoais sejam outras e sejam também refletidas na arte que criam. Boa parte do público envelheceu com eles e outra parte, que os conheceu mais recentemente, também só tem a ganhar com o amadurecimento em composição, técnica e tema de cada música.

O álbum estar sendo ouvido no mundo nestes dias, pré e pós-atentados ao Charlie Hebdo, é quase uma ironia do destino. Isso porque neste disco os escoceses cantam sobre existir bombas no Oriente Médio (“Allie”) e diz “todo mundo aposta na explosão e vai preso” (The cat with the cream”).

A paz que o Belle and Sebastian busca definitivamente não está próxima. Mas as garotas ainda vão dançar. Bem, neste início de ano, que seja então ao som de algo bom e bem feito, consciente do mundo lá fora e que de lambuja é uma sonoridade que a banda nunca tinha tentado antes.

Ou será que essa mudança episódica de som vai causar mais boom entre os fãs do que dança?

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    […] faz muito tempo, disse que o disco Girls in Peacetime Wanto to Dance do Belle and Sebastian deveria figurar entre os melhores do ano. Bem, ainda pode figurar, mas nem […]

    […] “Resvala”, “5/4…”, “Incêndios (O clarão de bombas a explodir)” e “Deixe/Force” mostra que Naves sabe começar uma música e te manter interessado nela. E dentro de seu indie rock – talvez por falta de melhor definição – vai desfilando influências e criatividade. “Em concreto” tem laivos de kautrock. “Deixe/Force” pula de um galho estilístico a outro com incrível facilidade (uma parte é uma marcação de tempo mais samba/bossa nova, outra seção é quase um rock climático e um refrão que remete a Belle And Sebastian). […]

    Ana

    (30 de junho de 2015 - 00:31)

    Excelente resenha e excelente disco!

    […] lembrar quem são. De certa forma, a música lembra também o excelente trabalho realizado pelo Belle And Sebastian no disco “Storytelling” […]

    […] a cargo do ritmo e a bateria marcando o tempo. “Vou Ficar Maluca”, algo na praia do que o Belle And Sebastian anda fazendo. “Pra Te Atazanar” tem aquela guitarrinha suja e esperta do Rafael Castro e […]

    […] As composições misturam o folk despretensioso com o indie rock quase letárgico, um encontro de Belle And Sebastian com o Rodrigo Amarante. Existe uma imprecisão instrumental e vocal que acaba virando a marca de […]

    […] sonora feita para tocar o ouvinte. Guitarras mais encorpadas em “Solemn Oath”, o ritmo Belle And Sebastian de “Casual Party” e a divertida e oitentista “In a Drawer” mostram a banda fazendo um som […]

    Chris

    (18 de fevereiro de 2017 - 18:42)

    Excelente resenha! Eu sou um fã antigo de B&S, comecei bem na época quando a Isobel ainda era integrante e passei anos evitando a banda depois que ela saiu. Mas ano passado resolvi dar outra chance de ouvir novamente e me apaixonei por esse álbum.
    Só faltou comentar sobre “Ever Had a Little Faith?”, minha faixa preferida do disco (por não coincidência, a que mais se parece com B&S das antigas…

    […] mais comerciais e seu lado mais introspectivo, lembrando de longe aqueles ótimos momentos que o Belle And Sebastian coleciona ao longo da carreira, notavelmente em canções como “Fantasy Island” e […]

    […] na banda. Conhecido por produzir outras duas bandas escocesas, os pot-rockers do Mogwai e os indies Belle And Sebastian, ele não mexeu na estruturação que dá cara ao som do Anathema, mas no que se refere a criar […]

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