Madonna – Unapologetic Bitch (2015)

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Mesmo com duas faixas tipo “vergonha alheia”, o álbum tem boas canções e a voz linda e cristalina de Madonna

Por Lucas Scaliza

IMPORTANTE: esse disco tem sido encarado por Madonna e sua produção como um “vazamento” de uma versão prévia de seu novo álbum, que vai se chamar Rebel Heart. Algumas faixas, diz ela, são demos e deverão ser apresentadas em sua versão definitiva quando o disco for lançado de forma definitiva. Achei esse disco “não oficial” (por enquanto) bastante bem acabado e acredito que pouca coisa poderá mudar na versão final (se é que vai mudar e não é apenas jogada). Por isso estamos fazendo essa crítica. Se a versão “oficial” for muito diferente, atualizaremos a resenha. Provavelmente a capa do álbum será outra também.

Seja lá qual for a opinião ou a avaliação final do novo disco da Madonna, que sai em março de 2015, ela não precisa provar mais nada – e nem tem se esforçado muito para isso. Seu legado para a música pop e para a cultura pop já estão bem sedimentados, bem registrados e continuarão a servir de parâmetro por muito tempo. Os breves anos de fama repentina de Lady Gaga, por exemplo, foram bastante ocupados com o tipo de discussão sobre “A nova Madonna” e coisas assim. A mulher é um ícone desde que surgiu colocando mais verve no pop dos anos 80.

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Em Unapologetic Bitch (título não oficial e que caiu na rede bem antes do esperado e antes até da artista marcar uma data de lançamento) ela faz tanto o papel da adolescente século XXI como da mulher que é, com seus 54 anos e tal. A música dela é bem produzida e conta com parcerias do quilate de Avicii, Diplo, Ryan Tedder e Natalia Kills. Ela vai do pop teenager para as pistas ao pop acessível e romântico, misturando produção eletrônica com música gravada por músicos e seus instrumentos.

Embora entenda perfeitamente a pressão de produtores, da gravadora, do mercado e até dos fãs por músicas da rainha do pop que sejam boas para festas, já faz um tempo que é complicado ver a Rainha do Pop tendo que agir feito a garotinha que ele não é mais. E Madonna tem consciência disso. A última entrevista que li com ela na Rolling Stone, na época da Stick & Sweet Tour, ela dizia que se sentia uma retardada toda vez que tinha que cantar alguns de seus hits feitos para a massa, mas vazio de qualquer outra coisa que não fosse diversão.

Desse modo, vemos que Madonna colocou as duas músicas mais “retardadas” do seu 13º disco de estúdio logo na abertura. A faixa título, “Unapologetic bitch” – vaca assumida, na adaptação para o português – podia ser uma faixa que assume o lado mais feminino da mulherada em tempo de feminismos à flor da pele que tentam validar o comportamento feminino contra machismos históricos. Mas não. A faixa é uma historinha boba sobre uma garota que dormia com um cara que lhe deu um pé na bunda e aí ela seguiu em frente e resolveu ignorá-lo, transformando-a numa “vaca assumida”. E é só. E Madonna canta com aquela vozinha fina, como se fosse adolescente, o que torna tudo mais retardado. E tem a participação de Katy Perry.

A segunda faixa, “Bitch I’m Madonna”, é mais uma autorreferência da rainha com voz jovenzinha para falar de festas, festas, diversão, diversão, enlouquecer hoje a noite tal e tudo. Dubstep com produção do experiente produtor Diplo.

Se você é DJ, atenção para as duas faixas iniciais. Se você espera algo mais da americana, uma notícia boa: a partir da faixa 3, Madonnna é mais madura e canta com sua bela voz. Aliás, “Addicted (The one that got away)”, tem uma abertura impressionante. A voz de Madonna ocupa seus ouvidos e te conduz até o refrão que tem uma ótima pegada do grupo sueco Abba.

“Borrow heart”, com sua mensagem positiva de amor, é a cara do que Avicii fez com o Coldplay na faixa “A sky full of stars” e no sucesso “Wake me up”. Clima de festa, com sequências de notas que se repetem e servem de gancho para a música se tornar reconhecível. “Rebel heart” e “Illuminatti”, sobre o grande olho da mídia que tudo vê, seguem o mesmo esquema. E em “Heartbreak city”, que sim, é uma música de corno, Madonna mostra bom gosto e uma mão boa para melodias, principalmente no refrão. Uma música de desilusão que se mantém sóbria, levada por piano, e que termina com um último verso matador: “And it still feels shitty”.

O trunfo de “Joan of Arc” é ser mais uma balada sóbria, dessa vez levada pelo piano e por uma letra mais madura que aceita os limites de uma pessoa que não será a salvadora da pátria. ”Make the devil pray” é uma das melhores faixas de Madonna em Unapologetic Bitch. Sobre um violão e um clima meio-oeste americano, soa voz soa bonita e cristalina enquanto sua produção mais eletrônica vai se colocando em cena, mas a faixa nunca se rende ao bate-estaca. E o vilão acelera e ganha palmas no mesmo meio-oeste em “Revolution”. “Messiah” não fica atrás. Um dubstep bastante tímido marcando os compassos apenas, deixando para uma orquestração bem legal construir todo o clima da música. Mais um acerto de Madonna e que diversifica seu trabalho.

Vamos tirar a iconografia e a história de cena por um tempo. Madonna é, antes de tudo, uma voz bonita. É/foi também uma mulher bonita. E usou isso para causar e mudar os rumos do pop na mesma época em que Michael Jackson, negro e dançante, também mexia com o status quo do pop mundial. Por algum tempo, a forma musical mudou com Madonna propondo nova linguagem e nova abordagem. Essa “revolução” não está mais presente, mas a loira conseguiu preencher Unapologetic Bitch com canções que valem a pena e manteve sua voz em destaque e soando como a principal força de empatia da obra.

A música final do álbum, “Wash all over me”, é o momento dubstep de honestidade de Madonna com o mudo. “Em um mundo que está mudando/ Sou uma estranha numa terra estranha/ Há uma contradição e estou presa a ela/”, canta logo na primeira estrofe da música. No refrão, ela ataca de novo: “Quem sou eu para decidir o que deveria ser feito”.

O mundo mudou. Madonna ainda faz parte dele, mas agora ela tem que se adaptar a ele, e não é mais o resto dos artistas que vão exatamente atrás dela. Kanye West, Beyoncé, Lorde, a própria Katy Perry se tornaram referências para boa parte do público e preocupações maiores do mercado fonográfico. Mas aí está a Madonna se assumindo mais uma vez. Tem seu valor.

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Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Madonna – Rebel Heart (2015) | Escuta Essa!

    (3 de fevereiro de 2015 - 18:14)

    […] Essa resenha é uma reinterpretação do texto escrito após o vazamento das demos de Madonna, mas com os acréscimos necessários para abarcar a impressão sobre seu novo […]

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