D’angelo and The Vanguard – Black Messiah (2014)

No apagar das luzes de 2014, D’angelo lança um dos melhores álbuns de 2014, repleto de significados e musicalidade

por brunochair

Ninguém estava esperando.

A gravadora não estava esperando, o produtor do álbum (Russell Elevado) não estava esperando, a empresa contratada (Afropunk) para comandar toda a direção artística do álbum não estava esperando. D’angelo, após quatorze anos sem lançar um disco de inéditas (desde o aclamado Voodoo), antenado e preocupado com os protestos que estão ocorrendo nos Estados Unidos, decidiu pronunciar-se sobre este delicado, mas importante momento social: o seu recado seria dado através de sua música.

Não há recado, interferência e mensagem melhor a se transmitir. A partir desta concepção, D’angelo moveu gravadora, produtor do álbum e empresa responsável pela confecção de todo o projeto artístico a antecipar toda a programação do lançamento do disco. Anteriormente, a ideia era lançar este álbum em fins do primeiro semestre de 2015. Na segunda-feira, todo o material de Black Messiah já estava disponível para audição no Spotify.

Algumas letras de Black Messiah tem um cunho social e religioso muito forte. Ligado ao zeitgeist, parece que D’angelo escolheu (mesmo) o momento certo. Seu álbum pode tornar-se a trilha preferida destes protestos, portando em seu interior a característica revolucionária, mística e contestatória. Adjetivos que cabem ao próprio artista, que ressurgiu após um longo tempo – em razão de problemas com álcool e drogas, acidente de carro que quase o levou à morte, e outros motivos.

Quanto a Black Messiah ser espírito do seu tempo e/ou ter essa condição referendada daqui anos ou décadas, necessário (por ora) deter-se ao que temos – o presente. E sobre o presente, temos muito o que dizer.

Antes de falar sobre as músicas, mais uma peculiaridade sobre este disco: o processo de gravação e produção foi realizado todo de forma analógica, através de fitas. Qualquer alteração em instrumentos ou letras, necessário buscar por horas a fio pela parte e alterá-la. Esse método arcaico de gravação dicotomiza com o lançamento do disco, realizado quase que virtualmente, através das plataformas (aplicativos) de música, processo este escolhido e referendado pelo próprio artista. O arcaico da gravação dialogando com o processo mais “moderno” de divulgação e exposição do trabalho. Não é interessante?

Primeiramente, dizer que o álbum é um primor. Dizer que D’angelo desbancou todas as listas de melhores álbuns de 2014, pois lançou um dos melhores álbuns quando a maioria da crítica especializada (inclusive este blog) já havia feito suas listas. Mesmo com pouco tempo de audição, dá pra cravar Black Messiah como um dos melhores do ano, certamente.

Musicalmente, Black Messiah não renega ao ainda contemporâneo Voodoo. Pelo contrário, é como se o artista conseguisse dialogar com o antigo trabalho, como se entre os dois álbuns não houvesse quatorze anos, mas sim seis meses, um ano de distância. As bases daquilo que foi chamado de new-R&B (e que chamaram a atenção da crítica especializada e público, sobretudo àqueles que assistiram a apresentação do artista no Free Jazz Festival em 2000) ainda estão neste novo álbum.

O que ocorreu foi uma ampliação daqueles horizontes musicais, já bastante (e ainda) modernos. O artista flerta com toda a black music: transita no soul, funk, R&B, hip-hop. Sua voz continua impecável, ao menos em estúdio. Os falsetes, maravilhosos. A banda, convidada para gravar este material e acompanhá-lo (The Vanguard) é composta por músicos de personalidade da soul music, que contribuíram profundamente para o sucesso musical do álbum. O groove continua marca registrada da sonoridade de D’Angelo, com baixo e bateria muito inventivos. Porém, a guitarra funkeada aparece em muitos momentos das canções, roubando a cena.

Quando se diz que os horizontes musicais ampliaram-se, difícil citar uma ou duas músicas como exemplo. No entanto, vamos cometer este pecado. “Really Love” tem clima de balada romântica. E aí, qual a novidade? Ele já criou algumas músicas lentas. Sim, mas neste caso, a música tem uma pegada hispânica muito forte. O R&B está presente, cria toda a base e clima da música, mas os violões dão a ela um tom especial, inédito.

Mesmo processo ocorre com a música “The Door”. Uma base de R&B misturada com um assovio, violão e guitarra desenvolvendo um ritmo que fica entre o blues e o country. Ou seja, em uma simples música D’Angelo conseguiu abarcar os ritmos/estilos mais importantes dos EUA. E a música poderia ser petulante, mas é alegre e despretensiosa:

“Sugah Daddy” é uma música com referências diretas ao jazz, com elementos do hip-hop. E, como nas músicas anteriores, não soa grandiloquente em nenhum momento:

“Betray My Heart” também segue a linha do jazz, com a presença de uma guitarra funkeada que dá toda a graça da música. Excelente groove.

As três primeiras músicas do álbum (“Ain’t That Easy”, “1000 Deaths” , “The Charade“) embora sejam muito diferentes entre si, tem a mesma linguagem contestatória, por isso assemelham-se. São músicas mais sérias, diretas, com instrumental concreto, sem rodeios.

Por enquanto, não comentamos do vocalista, não é? Deixei para falar na última música, que é quando ele dá um show e fecha o álbum com chave de ouro. Isso não quer dizer que ele fez pouco durante o álbum, absolutamente. Foi competente, brilhante em todo o trabalho. Porém, o que ele faz a partir dos 4’20” da música “Another Life” é digno de chorar.

Aliás, a música toda é muito bonita: presença de piano, uma guitarra com muito groove e a voz do cantor presente em todo momento, mostrando quem é o mestre de cerimônias dessa festa da black music. Se as listas de melhores músicas não estivessem já fechadas, esta música figuraria entre as melhores. Em algum momento, lembra a proposta da “Sex and Candy” do Maroon 5. Mas é muito melhor.

“Another Life” é uma pérola.

Portanto, fãs da boa música, valeu esperar. D’Angelo lança um álbum recheado do momentâneo, de postura diante dos fatos, mas exala musicalidade e competência.

brunochair Autor

Funcionário público, ex-jogador de ping pong amador, curte literatura, música, fotografia, esportes, cervejas artesanais e bons filmes. Meio brasileiro e meio uruguaio, acha que a cidade perfeita é uma mistura de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

Comentários

    Lucasss

    (18 de dezembro de 2014 - 13:37)

    bela crítica, gostei. há mais ou menos um ano atrás eu “descobri” o “Voodoo” e fiquei viciado na discografia de D’Angelo. até o lançamento de “Black Messiah”, sempre tive o hábito de escutar pelo menos um álbum ou um punhado de canções por semana, seja “Brown Sugar” ou os álbuns ao vivo como “Live at Jazz Café” e o extra-oficial “Live in Stockholm”, por isso é de se imaginar como fiquei contente com o lançamento desse novo trabalho.

    é incrível como ele conseguiu passar 14 anos sem lançar inéditas e volta entregando um álbum tão bom. creio que este álbum já está pronto há anos e ele precisou de um tempo para si mesmo para se acostumar com a ideia de voltar ao “estrelato”.

    ainda assim, vou cometer o crime de tecer críticas e observações em alguns pontos que talvez muitos não tenham feito ainda e não sei o se o autor concordará comigo. (não sou um “expert” em música, btw):

    – é curioso saber que “Black Messiah” é melhor do que todos os álbuns de seu grande ídolo Prince desde “Lovesexy” e melhor do que todos os álbuns dele nesse século somados, na minha opinião.
    – há mais guitarras distorcidas e sintetizadores nesse álbum, “1000 Deaths” é um música nova, mas sinto como se “Black Messiah” fosse um “Voodoo 2.0”. poderia muito bem ter sido lançado em 2002. e isso não é ruim, claro, pelo contrário!! não quero transformar D em um artista diferente nem ser o fã chato reclamão, mas acho que ele poderia se “abrir” um pouco mais melodicamente e harmonicamente, ***faixas de dança ou rock… talvez num próximo álbum (que não demore 14 anos para isso!).
    – não é possível entender bem o que ele está cantando em quase todo o álbum (as vezes dá pra entender quase tudo, já em outras…). é algo que gostei muito a princípio, mas não precisava ser em TODAS as faixas.
    – “The Charade” (outra que poderia entrar num álbum de Prince em meados dos anos 80) durando 3:21 é MUITO pouco!!! essa música é incrível ao vivo; a música vai crescendo, a voz de D se torna mais presente, depois entra o solo de guitarra e a banda toda cresce. ele economizou demais em uma das minhas músicas favoritas! https://www.youtube.com/watch?v=fo-SJx6dGDk
    – D fez covers incríves em “Crusin'” e “Feel Like Make Love”, achei que apareceria algo nesse álbum também.

    percebo que esse álbum será considerado um dos melhores de 2014 e um clássico da música mais rapidamente do que Voodoo (nesse momento tem 96/100 no Metacritc), até pelo tempo que D ficou fora e a diferença abissal entre a sua genialidade e o resto da música soul/funk atual.

    também sei que ainda estamos nas primeiras das dezenas ou centenas de audições que virão nas próximas semanas, meses e anos.

    torcendo para que ele volte a fazer shows no Brasil. turnê de “Voodoo” teve 77 datas e até agora ele anunciou só 13 para o ano que vem.

    enfim, me alonguei muito, é isso. abraços!

    *** esse remix de “Brown Sugar” é incrível: https://www.youtube.com/watch?v=VcJnJzbVw3s

      brunochair

      (21 de dezembro de 2014 - 13:48)

      Também gostei muito das suas considerações, Lucasss! Foram mto pertinentes pra mim, algumas informações das quais não tinha acesso. Legal saber que você curtiu a crítica, num sentido geral. Pq a crítica acaba sendo generalista em alguns pontos, pra mostrar as principais informações e situar o leitor/não conhecedor da obra. Concordo com o termo que vc utilizou, deste Black Messiah ser um Voodoo 2.0! rsrsrs. Espero que continue por aqui, acompanhando e comentando! abraços

    Ivan Teixeira

    (25 de dezembro de 2014 - 08:53)

    Só queria dizer o seguinte… o primeiro show do D’ Angelo no Brasil, no falecido Free jazz em 2000, foi só o melhor que eu já vi na vida, de qualquer gênero. Rezando pra um bis agora.

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