Slipknot – 5. The Gray Chapter (2014)

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Entre o peso e a melodia

Por Lucas Scaliza

Entre o peso e a melodia, as passagens memoráveis e os vocais guturais, o quinto disco do Slipknot é uma homenagem ao ex-baixista da banda, Paul Gray, que faleceu em 2010 e comoveu grande parte do cenário heavy metal mundial. E é um ótimo registro quatro anos após All Hope Is Gone (2008), mantendo as batidas pesadas, o timbre encorpado e grave das guitarras e a agressividade de sempre. Mas acredito que isso já era esperado por parte dos fãs da banda, então não chega a ser um grande destaque. Diferente de Iwoa (2001), 5. The Gray Chapter inclui mais melodia, abre mão da voz gutural para versos bem mais limpos e até sons artisticamente mais elaborados, mais ou menos na linha do que o Opeth propôs com Pale Communion (mas o Slipknot ainda é metal, enquanto o Opeth se direcionou mais para o rock progressivo no novo trabalho) ou o In Flames com o Siren Charms.

Criar um clima sombrio ou de agressividade sempre foram elementos que essa banda de Des Moines soubera fazer nos discos, nos clipes e nos shows ao vivo. As máscaras e as roupas que seus integrantes usam ajudam na hora de causar impacto visual, na linha do que um dia foi o Kiss e o Alice Cooper nos anos 70 (grupos cujas imagens hoje parecem brega e não assustam mais ninguém) e o Marilyn Manson nos anos 90 (e que hoje parece mais excêntrico do que exatamente aterrorizante). Independente do figurino, a música em 5. The Gray Chapter transita bem entre violência e melodia, na linha do Vol. 3 (The Subliminal Verses), lançado 10 anos atrás.

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“Killpop” começa com vocal limpo e uma ótima linha de guitarra para depois ficar pesada com riffs bem sujos de distorção. E a faixa caminha assim até sua conclusão brutal. “AOV”, que se mantém pulsante e pesada quase a todo momento, tem um trecho a partir de seus 3’10” em que a dinâmica desce para teclado e guitarra criarem uma linda passagem sobre uma vocalização de Corey Taylor. “XIX”, que abre o disco, é totalmente assombrada pelos efeitos e acordes dissonantes do teclado de Craig “133” Jones e dos sintetizadores de Shawn “Clown” Crahan acompanhando a voz rascante. Ela parece que vai crescer e estourar em algum riff pesado, mas isso nunca acontece, terminando em um anticlímax. E a faixa seguinte, “Sarcastrophe”, não tem um início épico, como seria de esperar, mas uma introdução climática que lembra algumas composições do Sepultura e até mesmo um cruzamento de riffs do Dream Theater com Rammstein.

Já “Goodbye” é uma balada e uma bonita despedida de Gray até sua metade. Depois vira um heavy metal (a banda não ia se segurar e fazer uma música “bonitinha”, afinal). “The one that kills the least” simplesmente repete a fórmula de “Killpop”.

Mas não se engane: nem tudo é um crossover entre guitarras de sete cordas afinadas até dois tons abaixo e rock mais acessível. Além de “Sarcastrophe”, “Skeptic”, a sombria “Lech”, “Nomadic” (com um efeito de sintetizador que lembra um grito ao longe), “The negative one” (pesada, mas mais do mesmo) e “Custer” são exemplos de metal para bater a cabeça com gritos e fúria, como gostam os fãs do Slipknot. São também boas faixas que aprovam a boa pegada dos novos baixista e baterista da banda (que não tiveram suas identidades reveladas e aparecem com máscaras bem parecidas com as usadas pelos ex-membros no vídeo de “The Devil in I”).

A bateria em 5. The Gray Chapter soa seca. Vigorosa, veloz e com pegada, mas com batidas mais secas do que as gravadas por outras bandas de metal atualmente. Já as guitarras têm timbres pesados e sobrecarregados de sujeira dos pedais de distorção para ninguém colocar defeito. Mas ao longo do álbum esse timbre repete-se vezes demais, o que torna cada riff e cada porrada muito parecida com a anterior. É um problema que John Petrucci, um guitarrista experiente e que também produz os discos do Dream Theater, vem experimentando nos últimos anos (e parece não se importar).

Embora tentem soar assombrados, o Slipknot consegue apenas reproduzir o clima já bastante conhecido entre as bandas de industrial e nu metal, evocando um terror mais Hollywood, mais trilha sonora. Em Once More ‘Round The Sun (2014), os metaleiros do Mastodon conseguiram expressar um terror mais ancestral e profundo em faixas como “Chimes at midnight” e “Diamond in the witch house”, até flertando com o black metal em “Aunt Lisa”. O Slipknot se aproxima disso na excelente “If rains is what you want”, onde voltam a se preocupar mais com a atmosfera do que com a batedeira de cabeça e cabelo. E os timbres de guitarra soam diferentes, mais adequado ao clima sinistro. É em faixas como essa que a banda atesta o refinamento musical, já que velocidade, violência e peso estão provados há muito tempo e já não servem de elemento diferenciador.

A banda tem quase 20 anos de estrada e apenas cinco álbuns, mas grande reconhecimento entre o público metaleiro e até além dele, além de reconhecimento entre a crítica especializada e outros músicos que enxergam na banda uma força não apenas criativa, mas que consegue gravar e dar vazão a músicas pesadas com letras agressivas e mensagens e imagens que geram controvérsia sem soarem falsos. As incursões por momentos mais melódicos e acessíveis não parecem uma tentativa de o Slipknot ser uma banda mais conhecida entre o público não-metaleiro ou coisa do tipo. Está claro que é uma forma de explorarem outros lados técnicos e criativos de seus músicos e tornar o repertório mais artisticamente diverso. Ainda estão muito presos ao tipo de som que sempre fizeram e repetem vários maneirismos do estilo, o que deixa espaço para muita coisa ser incluída e mesclada ao som sem perder as características originais. Mas apesar disso, é um disco longo (a versão deluxe chega a 84 minutos) e que agrada.

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Comentários

    […] escapista, prefira um Mastodon, um Queens of The Stone Age (embora não seja metal), Black Sabbath, Slipknot, Haken, Opeth ou até mesmo os últimos trabalhos do Iron Maiden, que possuem uma gravidade […]

    […] ecos de Linkin Park, de punk rock e até de System of Down e Slipknot no álbum, mas é uma época em que o nu (ou new) metal passa por uma certa crise. Mesmo o Linkin […]

    […] pesados com orquestrações ao estilo Muse, vocais agressivos que lembram o de Marilyn Manson e do Slipknot, passagens mais melodiosas lembrando o new metal do Linkin Park, e uma pegada modernosa, como […]

    […] Matt Skiba, “Egobomb”, que começa como um grunge antes de pisar fundo (voz de Corey Taylor, do Slipknot), o baixo ribombante de “Time to Die” (voz de Mike IX Williams), o show de riffs em “Devil In […]

    […] nesse projeto (que era para apenas uma música, não um álbum). Este ano tivemos Dave Grohl, Corey Taylor e mais de 20 músicos se reunindo para uma homenagem bem feito ao grunge, punk, rock de garagem e […]

    […] assim, pode nos revelar beleza e identificação. Não víamos algo assim desde o surgimento do Slipknot. Seu próximo álbum, Reverie, já está em fase de finalização e vale a pena manter os ouvidos […]

    […] Mas junte tudo que a gente pode gostar na banda e teremos um disco conciso, coeso e que traz a energia de sempre da banda. Em termos de peso, é um álbum de gente grande. Dá para curtir e bater a cabeça, mas nada é gratuito. Tem alta intensidade em todas as faixas, sem apostar em faixas mais comerciais, como aconteceu com “Twisted Transistor” (do álbum See You On The Other Side, de 2005) e “Never Never” (do The Paradigm Shift). Temos, no entanto, “A Different World”, pesadona e robusta com a participação de Corey Taylor, do Slipknot. […]

    […] mais tem ganhado sua atenção e dedicação ultimamente. O que é até compreensível, visto que o Slipknot já anda com as próprias pernas e se tornou aos poucos uma marca maior que os próprios membros. […]

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